O torneio dará um belo exemplo de como o esporte – e não apenas o futebol – está sendo transformado por dados, sensores e algoritmos
A primeira Copa do Mundo que acompanhei de perto foi a de 1994. Dei sorte. Depois de 24 anos de espera, o Brasil ergueu de novo a taça mais cobiçada do esporte mundial. Para minha geração, o “é teeeetra” urrado por Galvão Bueno após o apito final, ao lado do rei Pelé, tornou-se um bordão duradouro usado para celebrar inúmeras conquistas, a maioria delas sem nenhum vínculo com o futebol. Afinal, uma Copa vai muito além das quatro linhas.
Não será diferente em 2026. O torneio dará um belo exemplo de como o esporte – e não apenas o futebol – está sendo transformado por dados, sensores e algoritmos. Teremos gêmeos digitais de cada jogador para ajudar o VAR. A IA como a melhor amiga dos técnicos. Uma enxurrada de informações monitoradas em tempo real dentro e fora do campo. Estádios que poderiam ter saído de livros de ficção científica.
As inovações no esporte remodelam as competições, a experiência do torcedor e também dos protagonistas dos torneios: os atletas. Hoje, cada batimento cardíaco de um jogador pode ser acompanhado. Cada deslocamento, rastreado. As informações recolhidas alimentam bancos de dados e turbinam modelos preditivos, influenciando decisões de preparadores físicos e técnicos.
As arenas também mudam. Vão além do espaço físico para se tornarem plataformas de experiência e comércio. Superconectadas, permitem que cada movimento do torcedor seja estudado. No campo das finanças, novas fronteiras se abrem. Com a tokenização, clubes transformam direitos futuros em ativos digitais e convidam o torcedor a participar mais ativamente do dia a dia do time.
As transformações trazem avanços, mas vêm acompanhadas de polêmicas, como lembra o entrevistado desta edição, o economista Simon Chadwick, que estuda as relações entre esporte, economia e inovação. Tudo deve ser monitorado? Os números trazem todas as respostas? Até onde a tecnologia pode (ou deve) ir?
Em abril deste ano, em Londres, o queniano Sabastian Sawe entrou para a história ao se tornar o primeiro homem a terminar uma maratona oficial em menos de duas horas. O feito extraordinário logo começou a ser ofuscado por uma discussão acalorada. Sawe correu usando o Adizero Adios Pro Evo 3, modelo da Adidas desenvolvido para maximizar o retorno de energia e a eficiência biomecânica. Quanto o supertênis teria ajudado na quebra do recorde? Essa ajuda seria justa?
A Copa do Mundo, como mostramos nesta edição, é igual a um grande laboratório, onde poderemos observar o que há de mais novo no esporte em todas essas frentes. Não é um palco para amadores. A última edição do torneio foi vista por 5 bilhões de pessoas, o equivalente a 60% da população mundial.
Para esta edição, com o aumento do número de seleções participantes e três países como sede, a expectativa é de ultrapassar essa marca. O “maior show da Terra” volta repaginado e high-tech. Mas não se engane. Mesmo com toda essa tecnologia, o verdadeiro espetáculo continuará nos gramados, conduzido pelos pés dos maiores craques do planeta. Que me desculpem os algoritmos, mas a emoção de um belo gol nunca caberá em um código.
Por: Elisa Campos


