Levantamento mostra que consumo indireto de água por data centers pode ser até 12 vezes maior que o volume divulgado pelas empresas de tecnologia
Os centros de dados que sustentam a atual expansão da inteligência artificial consomem muito mais água do que aparece nos relatórios de sustentabilidade divulgados pelas grandes empresas de tecnologia. A diferença está na forma de contabilizar o gasto: a maior parte das companhias registra apenas a água usada dentro das próprias instalações, para resfriar servidores, mas deixa de fora o volume consumido nas usinas que geram a eletricidade necessária para fazer esses equipamentos funcionar.
Segundo reportagem do jornal americano The Wall Street Journal, Microsoft, Google e Amazon estão entre as empresas que devem investir cerca de US$ 1 trilhão em infraestrutura de inteligência artificial somando este ano e o anterior. Entre as grandes companhias do setor, apenas a Meta soma ao seu relatório o consumo de água nas usinas que abastecem seus data centers, além do gasto registrado dentro dos próprios prédios.
Por que o consumo indireto costuma ficar de fora
Não existe lei que obrigue as empresas de tecnologia a divulgar o consumo total de água, direto e indireto. Nos Estados Unidos, o gasto indireto de data centers, ou seja, a água usada nas usinas de energia que os abastecem, já foi cerca de 12 vezes maior que o consumo direto, segundo um levantamento de 2024 do Lawrence Berkeley National Laboratory. A proporção varia de acordo com a fonte de energia: usinas a carvão e nucleares consomem muita água, termelétricas a gás natural gastam menos, e fontes renováveis, como solar e eólica, praticamente não usam água.
O relatório de sustentabilidade mais recente do Google, referente a 2025, informou um consumo de 10,9 bilhões de galões de água, o equivalente a cerca de 41,3 bilhões de litros, alta de 34% em relação a 2024. Quase todo esse volume foi usado para resfriar data centers. Mas, de acordo com um estudo publicado neste ano pelo pesquisador Alex de Vries-Gao, da universidade holandesa VU Amsterdam, o consumo indireto de água do Google é cerca de três vezes maior que o direto.
Parte da explicação está no fato de Google, Amazon e Apple pagarem por energia renovável em volume suficiente para cobrir 100% do que consomem. Isso não significa que toda a eletricidade usada venha de fontes solares ou eólicas, mas permite às empresas afirmar que compensam o próprio consumo com fontes de baixa emissão de carbono, que usam pouquíssima água. Em 2025, procuradores-gerais de 16 estados americanos assinaram uma carta questionando essa prática, argumentando que compensar energia suja com créditos de energia limpa não é o mesmo que efetivamente substituir a fonte poluente, e que esses créditos tampouco compensam a água consumida em uma região específica.
O que dizem Meta, Microsoft e Amazon
O consumo indireto de água da Meta chegou a 19 bilhões de galões, cerca de 71,9 bilhões de litros, em 2024, mais de 20 vezes o volume usado diretamente em suas instalações. A empresa afirma ter um plano para se tornar “água positiva” até 2030, por meio de projetos de restauração hídrica, mas não tem uma estratégia específica para reduzir o consumo indireto.
A Microsoft já anunciou data centers com consumo direto zero de água e um compromisso de repor mais água do que utiliza, parte de um esforço que a empresa descreve como iniciado há duas décadas para reduzir a intensidade do uso de água em suas operações. Assim como a Meta, no entanto, a companhia contabiliza apenas o consumo direto.
A Amazon, por sua vez, diz que seus data centers usam água sete vezes mais eficientemente que a média do setor e que já percorreu 75% do caminho até a meta de devolver um galão de água para cada galão retirado. Esse cálculo também não inclui o consumo indireto. A empresa afirma manter mais de 700 projetos eólicos e solares ao redor do mundo.
Por que os data centers se concentram em áreas com pouca água
Segundo Kenneth Gillingham, professor de economia ambiental em Yale, uma das razões para as empresas não divulgarem o consumo indireto é que os data centers costumam ficar longe das usinas que os abastecem. Em regiões onde a água não é escassa, esse gasto indireto também pesa menos na conta final.
Análises recentes dos jornais The Guardian e Bloomberg mostraram que cerca de dois terços das novas construções de data centers nos Estados Unidos estão em áreas com estresse hídrico, como a região de Phoenix, no Arizona. Um estudo de 2025 da organização sem fins lucrativos Ceres apontou que a demanda total de água, direta e indireta, dos data centers de Phoenix corresponde hoje a cerca de 3% do consumo anual de água da cidade. Até 2031, essa fatia pode superar 20%, valor próximo ao volume usado por todos os moradores para manter jardins e gramados. A mesma análise indicou que a demanda por água também deve crescer no Novo México, estado vizinho que fornece parte da energia consumida em Phoenix.
“Terra barata e energia barata levam os data centers para áreas de alto estresse hídrico”, afirma Matthew Pine, executivo-chefe da Xylem, fornecedora americana de tecnologia para o setor de água. Segundo ele, usinas a carvão que já deveriam ter sido desativadas continuam funcionando para atender à demanda de energia da inteligência artificial. Muitos complexos de data centers também têm passado a contar com usinas próprias a gás natural, como uma parceria futura entre Microsoft e Chevron no Texas. Meta, Amazon e a SpaceX seguem o mesmo caminho, construindo usinas dedicadas fora da rede elétrica pública para abastecer seus próprios data centers.
Tecnologia de resfriamento pode reduzir o problema
A Nvidia afirma ter resolvido o problema do consumo direto de água em data centers com um sistema de resfriamento líquido de circuito fechado, que não exige reposição de água depois de preenchido. Segundo Gillingham, o modelo reduz tanto o consumo direto de água quanto a energia total necessária para o resfriamento. A Microsoft já se comprometeu a adotar tecnologia semelhante em todos os data centers construídos a partir de 2027.
A maior parte dos data centers em operação hoje, porém, ainda usa sistemas de resfriamento evaporativo, mais eficientes em termos de energia, mas que dependem de grandes volumes de água, segundo o levantamento de 2024 do Lawrence Berkeley National Laboratory. Especialistas afirmam que adaptar essas instalações já existentes pode ter um custo proibitivo.
Josh Parker, responsável pela área de sustentabilidade da Nvidia, pondera que o consumo de energia e água da inteligência artificial precisa ser analisado em contexto, já que a eletricidade usada por outros setores da economia não recebe o mesmo grau de escrutínio. Ele também argumenta que a própria inteligência artificial pode ajudar outras indústrias a reduzir o consumo de água.
A falta de transparência sobre o tema, somada ao uso frequente de acordos de confidencialidade por construtoras de data centers, tem alimentado desconfiança em comunidades afetadas. Segundo a consultoria de clima Carbon Direct, cerca de US$ 170 bilhões em capacidade de data centers de inteligência artificial foram bloqueados, adiados ou cancelados nos Estados Unidos desde 2024.
Por: Diogo Rodriguez


