O primeiro aprendizado é que a inovação que gera valor começa antes da solução. Empresas adoram chegar com respostas prontas, mas, em contextos complexos, isso pode ser exatamente o problema
Na semana passada, tive o prazer de participar do South Summit em Porto Alegre, um dos maiores eventos de inovação e tecnologia do mundo, que atrai mais de 20.000 participantes. Fiquei impressionado com o tamanho e a qualidade do evento, com palestrantes internacionais de renome, CEOs, investidores e uma curadoria de startups de ponta.
Apesar das muitas discussões sobre o impacto da inteligência artificial e as oportunidades em Deep Tech, alguns painéis alertavam que não devemos confundir tecnologia com inovação. E o campo social é um excelente terreno para isso. Saí pensativo de um painel sobre políticas públicas inovadoras e seu impacto nas comunidades.
O professor Ricardo de Moura trouxe o caso do teleférico no Rio de Janeiro, inaugurado em 2011 e que custou inicialmente entre R$ 210 e 253 milhões. A estrutura sofreu vandalismo e está parada desde 2016. Governos sucessivos têm tentado recuperar o projeto, com novos investimentos em torno de R$ 115 milhões. O problema? A comunidade não foi consultada nem envolvida no planejamento e, consequentemente, o projeto não tinha a famosa “licença social para operar”.
Medellín foi uma das cidades mais violentas do mundo, com 380 homicídios por 100.000 habitantes, e mesmo assim se tornou um polo turístico importante. Assim como o Rio, também tem um teleférico — só que funciona. Hoje, opera várias linhas que transportam mais de 700.000 pessoas por mês, reduzindo o tempo de viagem da periferia ao centro de 2 horas para 11 minutos. A primeira linha do teleférico de Medellín custou cerca de R$ 156 milhões.
O segredo? De acordo com Santiago Uribe, é a escuta das comunidades. Medellín não venceu a violência combatendo-a diretamente. Venceu ao reduzir desigualdades, conectando periferias ao centro com transporte digno. A inovação social precisa ajudar as pessoas a acessar emprego e renda. Ela não falha por causa da engenharia, mas por falha de entendimento. E nas periferias já existem muitas soluções para quem tem empatia de enxergá-las.
O primeiro aprendizado é que a inovação que gera valor começa antes da solução. Empresas adoram chegar com respostas prontas, mas, em contextos complexos, isso pode ser exatamente o problema. Para as empresas, isso implica substituir o tradicional product-market fit por algo mais fundamental: community-problem fit. Significa criar espaços de escuta genuína, desenvolver soluções com as comunidades e reconhecer lideranças locais como cocriadoras, não apenas beneficiárias.
O segundo aprendizado, levantado por Lizia de Borba, é que a infraestrutura importa, sim. A discussão sobre inclusão digital deixa isso evidente e, nas periferias, ela é tão importante quanto o saneamento básico. Sem acesso à internet de qualidade, o celular vira uma promessa vazia. Não conecta a cursos, empregos ou serviços e impede que empreendedores criativos das comunidades explorem negócios online.
O terceiro aprendizado é que inovação social não é sobre tecnologia, mas sobre visibilidade. Um dos pontos mais poderosos da discussão foi a ideia de enxergar o invisível. Programas que reconhecem catadores como agentes ambientais ou que apoiam cozinhas comunitárias mostram que inovar pode ser simplesmente dar nome, renda e dignidade ao que já existe. Para o setor privado, isso significa mapear economias informais, integrá-las às cadeias de valor e transformar externalidades sociais em ativos estratégicos.
Se propósito virou palavra da moda no mundo corporativo, talvez seja porque esquecemos seu teste mais básico. Quem você escuta e quem você ignora define o seu impacto. Medellín entendeu isso. O Rio e outras regiões ainda lutam com essa lição. E as empresas estão no meio desse caminho.
No fim, a pergunta não é se sua organização quer inovar em comunidades vulneráveis. A pergunta é se ela está disposta a abrir mão do controle para cocriar com quem realmente entende o problema.
Por: Heiko Hosomi Spitzeck, diretor do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral.


