quinta-feira, 23 abril, 2026
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Falta energia no mundo para a IA, e o Brasil só precisa de regulação

A atração de data centers é um tema central da política industrial e soberania digital. Sem ela, não há protagonismo econômico na próxima década. O Brasil chegou a reconhecer essa urgência; agora o desafio é manter o tema como prioridade máxima no Congresso

O mundo está sendo reorganizado por uma corrida que não respeita o tempo da burocracia: a construção da infraestrutura global de inteligência artificial e processamento de dados. Enquanto as instituições operam em seus ritmos naturais de debate, a economia digital avança em ciclos cada vez mais curtos, orientada por capital ágil, demanda crescente e competição global por capacidade computacional.

O nível de exigência é tamanho que gigantes da tecnologia nos Estados Unidos já alertam para a dificuldade de o país ampliar o fornecimento de energia com a rapidez necessária. Para suprir a IA, o mercado americano busca assumir companhias elétricas inteiras e fechar contratos para reativar usinas nucleares fechadas. Nesse novo cenário, o Brasil reúne condições raras para liderar, mas corre o risco de ficar para trás se não acelerarmos as nossas definições estruturais.

A atração de data centers deixou de ser uma pauta técnica para se tornar um tema central de política industrial e soberania digital. É nessa infraestrutura que se viabilizam modelos de inteligência artificial, cadeias produtivas conectadas e serviços digitais em escala. Sem ela, não há protagonismo econômico na próxima década. O país chegou a reconhecer essa urgência de forma muito positiva ao discutir o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata). Mas o avanço inicial esconde hoje um desafio: manter o tema como prioridade máxima no Congresso.

A caducidade da Medida Provisória no fim de fevereiro não encerrou o debate, evidenciando que há vontade política de avançar. O tema foi incorporado a um projeto de lei aprovado na Câmara e enviado ao Senado. É verdade que o timing ideal para a votação original passou e a pauta entrou em compasso de espera. No entanto, é plenamente possível olhar para esse cenário com a perspectiva do copo meio cheio: esse tempo extra nos dá a oportunidade para revisar e fortalecer a regulação. Dá para usar esse momento para aprofundar pontos que ainda estão pouco definidos, estabelecendo critérios mais claros de investimento, métricas para a geração de empregos, exigências sobre o uso de energia e incentivos reais à cadeia nacional. Há, de fato, espaço para o ajuste e o amadurecimento do projeto.

Na prática, porém, é preciso cuidado para que o debate prolongado não gere a sensação de que a urgência passou. O texto ainda precisa atravessar o Senado e qualquer alteração fará com que o projeto retorne à Câmara dos Deputados para decisão final. É nesse ponto que a atenção do setor público precisa ser redobrada: aprimorar o marco regulatório é excelente, mas isso não pode ser sinônimo de postergar. Pautas complexas, quando saem dos holofotes em Brasília, naturalmente enfrentam uma tramitação mais lenta.

Enquanto isso, os efeitos da indefinição já começam a aparecer. Dados recentes mostram uma desaceleração relevante nos investimentos em novos data centers no país em 2025, após anos de crescimento consistente. Parte desse movimento está diretamente associada à prudência natural do mercado, que aguarda um ambiente regulatório mais claro. Não se trata de falta de interesse ou de capital. Ao contrário: projeções do setor indicam que o Brasil pode receber dezenas de bilhões de dólares em investimentos até o início da próxima década. A questão é onde, e quando, esses recursos serão efetivamente alocados.

Sem previsibilidade tributária e segurança jurídica consolidadas, o investimento não desaparece. Ele apenas espera. E, em um ambiente global competitivo, esperar demais significa perder terreno. A ausência de uma definição célere cria um efeito silencioso: projetos adiam sua saída do papel, cadeias produtivas demoram mais a se formar e oportunidades estratégicas podem migrar para outros mercados que, mesmo com mais desafios, ofereçam regras claras de forma imediata.

Esse cenário reforça que a decisão sobre data centers não ocorre no vácuo. Ela exige uma coordenação ampla que envolve política tributária, licenciamento, infraestrutura energética e alinhamento federativo. O avanço célere em nível federal é fundamental para destravar decisões complementares, inclusive nos estados, garantindo a atratividade do país em um momento em que a competição internacional se intensifica.

O custo de perder esse ritmo não é apenas econômico, mas também estratégico. A capacidade de armazenar, processar e analisar dados dentro do território nacional é um componente essencial da soberania no século XXI. Dados gerados pela indústria, pelo agronegócio e pelos serviços carregam valor crescente e exigem infraestrutura adequada para serem convertidos em inteligência. Sem isso, o país permanece dependente de estruturas externas para operar sua própria economia digital.

Há ainda uma dimensão de enorme peso nesse debate: a sustentabilidade. A expansão de data centers no Brasil pode estar diretamente associada ao uso de energia renovável, transformando a matriz energética limpa do país em uma vantagem competitiva inigualável diante dos imensos desafios de abastecimento enfrentados pelas potências do norte. Mais do que consumir tecnologia, o Brasil tem a oportunidade de exportar capacidade de processamento baseada em energia limpa, convertendo recursos naturais em valor agregado na economia digital. Mas essa janela de oportunidade também depende de uma articulação no tempo certo.

O Congresso Nacional e o Executivo têm, neste momento, mais do que um projeto de lei em mãos. Têm a possibilidade de definir o posicionamento do Brasil em uma das principais transformações econômicas do século. A tramitação do tema merece continuar como um dos grandes destaques da agenda nacional. A economia digital não espera os trâmites tradicionais, e cada atraso, mesmo que bem-intencionado para melhorar o texto, amplia o custo de oportunidade.

O maior risco do Redata hoje não é sua rejeição, pois o mérito da pauta é amplamente reconhecido. É o prolongamento excessivo do debate. Em meio a justas disputas orçamentárias e outras prioridades do país, o tema não pode perder seu senso de urgência, evitando que o compasso de espera atrase decisões de investimento estruturais para o Brasil.

Em breve, caberá novamente ao Congresso dar a palavra final sobre o tema. A decisão que se aproxima não é apenas sobre incentivos fiscais ou sobre um setor específico. É uma escolha sobre o protagonismo do Brasil na economia global de dados. A história mostra que a agilidade em pautas estruturais é recompensada com crescimento e relevância. Resta ao país unir esforços para liderar essa transformação, garantindo que não vamos apenas assistir à próxima grande onda tecnológica passar.

*Atílio Ruilli é Vice-Presidente de Relações Institucionais da Huawei no Brasil

Por: Atilio Rulli

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