quinta-feira, 23 abril, 2026
HomeTECNOLOGIAMemória da internet está em perigo

Memória da internet está em perigo

Bloqueios à Wayback Machine por grandes sites ameaçam a preservação de notícias e o acesso público à memória da internet.

Uma das ferramentas mais importantes para preservar a história da internet enfrenta um momento delicado. A Wayback Machine, serviço do Internet Archive que arquiva páginas da web, passou a sofrer restrições de grandes empresas de mídia e plataformas digitais. O movimento ameaça o acesso público a registros antigos da internet e pode dificultar tanto o jornalismo de fiscalização quanto disputas judiciais.

O caso chama atenção porque a ferramenta virou peça central para investigações, checagem de fatos e recuperação de conteúdo que já sumiu do ar. Isso porque, sem ela, parte da memória digital pode ficar mais fragmentada, como um arquivo público que perde estantes inteiras.

O paradoxo que expôs o problema

De acordo com a Wired, neste mês, o USA Today publicou uma reportagem que usou a Wayback Machine para reunir e analisar estatísticas de detenção do ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos. O trabalho mostrou como o órgão atrasou a divulgação de informações importantes sobre os efeitos de suas políticas de detenção.

O ponto curioso é que a própria empresa dona do USA Today, a USA Today Co., bloqueia a Wayback Machine de arquivar seu conteúdo. Para Mark Graham, diretor da Wayback Machine, a situação tem uma ironia evidente que a ferramenta ajuda a produzir reportagens de interesse público, mas perde acesso a parte do próprio jornalismo que ajuda a sustentar.

Quem está fechando as portas

Segundo uma análise da startup Originality AI, 23 grandes sites de notícias bloqueiam atualmente o ia_archiverbot, robô usado com frequência pelo Internet Archive no projeto Wayback. Entre eles está o The New York Times. O Reddit também aparece nessa lista.

Outros veículos adotam restrições diferentes. O The Guardian não bloqueia o robô, mas exclui seu conteúdo da API do Internet Archive e filtra artigos na interface da Wayback Machine. Na prática, isso dificulta o acesso do público comum às versões arquivadas.

As justificativas variam. A USA Today Co. afirma que a medida faz parte de uma política mais ampla contra robôs de raspagem. O The Guardian diz que conversa com o Archive por preocupações com possível uso indevido, por empresas de IA, de conjuntos de dados coletados para preservação.

Jornalistas reagem

A reação já começou. Grupos como Electronic Frontier Foundation e Fight for the Future organizaram apoio público à Wayback Machine. A coalizão reuniu mais de 100 assinaturas de jornalistas e entregou uma carta de apoio ao Internet Archive.

O argumento central é que, com o fechamento de jornais locais e a dificuldade de bibliotecas preservarem conteúdo digital, o Internet Archive passou a cumprir uma função parecida com a dos antigos arquivos físicos de redações e bibliotecas.

Além disso, relatos reunidos na mobilização mostram usos concretos da ferramenta. A produtora Laura Flynn a descreve como essencial para checagem de fatos e localização de áudios. Já Micco Caporale afirma que a Wayback Machine ajuda a recuperar sites de fãs, rastrear anúncios antigos de emprego e comparar mudanças em funções e salários ao longo do tempo.

O medo da IA e o risco para o futuro

Parte dos bloqueios tem relação com a disputa crescente entre editoras e empresas de inteligência artificial. O New York Times afirma que o problema é o uso de seu conteúdo, no Internet Archive, por companhias de IA em violação de direitos autorais. O Reddit também já apontou preocupações parecidas.

O problema é que a resposta a esse temor pode enfraquecer uma infraestrutura pública valiosa. O Internet Archive existe há 30 anos e já arquivou mais de 1 trilhão de páginas. Não há hoje uma ferramenta pública amplamente disponível que ofereça algo equivalente.

Porém, se a Wayback Machine continuar perdendo acesso a grandes fontes de notícias, acompanhar mudanças em textos, revisar versões antigas de páginas e preservar registros do início da era digital pode ficar muito mais difícil. Para Graham, o fechamento crescente da web pública já afeta a capacidade da sociedade de entender o que acontece no mundo.

Por: Hemerson Brandão

RECOMENDADOS

MAIS POPULAR