sábado, 22 agosto, 2026
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Comissários e pilotos lideram risco de morte por câncer ligado à radiação, aponta estudo

Pesquisa analisou mais de 12 milhões de atestados de óbito nos EUA e encontrou que comissários têm 50% mais chance de morrer de câncer relacionado à radiação do que a população geral

Comissários de bordo e pilotos têm o maior risco de morrer de cânceres relacionados à radiação entre mais de 500 profissões analisadas – acima até de trabalhadores que lidam diretamente com materiais radioativos. Os dados são de um estudo publicado nesta segunda-feira na revista científica JAMA Internal Medicine, segundo reportagem da AFP.

A pesquisa usou dados nacionais dos Estados Unidos de mais de 12 milhões de atestados de óbito que incluíam informações sobre a profissão dos falecidos.

Os números

Os comissários de bordo tiveram cerca de 50% mais chance de morrer de um câncer relacionado à radiação do que a população ocupada em geral. Entre os pilotos, a chance era cerca de 36% maior.

Em termos absolutos, aproximadamente 6,9% das mortes de comissários de bordo foram causadas por esses cânceres, cerca de 1 em cada 14. Entre os pilotos, a proporção foi de 6,7%. Na população geral, foi de 5%, segundo Vishal Patel, primeiro autor do estudo e pesquisador da Faculdade de Medicina de Harvard, à AFP.

Os cânceres analisados incluem leucemia, linfoma, mieloma múltiplo e cânceres de pele, mama, tireoide, próstata e sistema nervoso central.

Por que voos em alta altitude aumentam o risco

A radiação cósmica vem do espaço. Apenas uma pequena quantidade chega à superfície da Terra, mas a exposição é significativamente maior em grandes altitudes, como as utilizadas em voos comerciais.

Os autores do estudo destacaram um dado que reforça a hipótese da exposição ocupacional: nenhum dos dois grupos apresentou taxas de morte acima do normal por cânceres que não estão ligados à radiação. Isso sugere que fatores de estilo de vida ou socioeconômicos não explicam o excesso observado.

“Reforça a hipótese de que a exposição ocupacional à radiação, e não fatores de estilo de vida ou socioeconômicos, esteja por trás do excesso observado”, escreveram Catherine Olsen e Ken Karipidis, especialistas australianos em radiação que comentaram o estudo na mesma edição da revista.

Sem monitoramento obrigatório nos EUA

A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) reconhece que tripulações aéreas são expostas à radiação ionizante – mas o governo americano não estabelece limites federais de dose nem exige o monitoramento dessa exposição.

“Você não pode controlar uma exposição que decidiu não medir”, disse Patel à AFP.

Sara Nelson, presidente da Associação de Comissários de Bordo-CWA, que representa 55 mil comissários nos EUA, disse que o estudo confirma o que a entidade vem alertando há anos. “O risco é conhecido, mas as tripulações não recebem orientação nem informação. E ninguém assume a responsabilidade”, disse à AFP.

Limitações e recomendações

Os pesquisadores reconheceram que não sabem o nível exato de exposição à radiação de cada trabalhador, e que as profissões podem ter sido registradas incorretamente em alguns atestados. Também não foi possível considerar o impacto do jet lag e das jornadas irregulares – fatores que podem agravar o risco de câncer por alterações no relógio biológico.

Como recomendação prática, os especialistas sugerem que exames anuais de pele podem ser indicados para quem trabalha em voos de grande altitude, e que mulheres nessas profissões considerem fazer mamografias mais cedo ou com maior frequência. Médicos que atendem pilotos e comissários também devem ter atenção redobrada à possibilidade de câncer ao avaliar esses pacientes.

Por: Layse Ventura

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