Pressionadas por sanções dos EUA e ordens de Pequim, empresas de data center na China adotam hardware nacional; Huawei e Alibaba disparam na venda de GPUs.
O mercado chinês de servidores para inteligência artificial passa por mudanças. As sanções comerciais dos Estados Unidos e a forte pressão de Pequim para a adoção de tecnologia local fizeram com que as fabricantes chinesas de semicondutores entregassem nada menos que 1,65 milhão de GPUs, garantindo uma fatia de 41% de participação no mercado interno.
Em contrapartida, a Nvidia, que antes das restrições americanas afirmava deter 95% do setor, viu sua fatia encolher para 55%. Os dados, levantados pela consultoria IDC e divulgados pela agência Reuters, mostram que a hegemonia da empresa liderada por Jensen Huang está ameaçada em um de seus mercados mais lucrativos.
Como as fabricantes chinesas engoliram o mercado?

As empresas locais aproveitaram o vácuo deixado pelos rigorosos controles de exportação dos EUA para inundar os data centers com soluções próprias. A grande vencedora desse cenário é a Huawei. A gigante de Shenzhen foi responsável pelo envio de aproximadamente 812 mil chips de IA no último ano, dominando metade das remessas nacionais e abocanhando quase 20% do mercado total.
Para manter o ritmo agressivo de vendas, a fabricante continua atualizando seu hardware. Na semana passada, a Huawei revelou o acelerador de IA Atlas 350. Segundo a empresa, a novidade entrega até 1,56 PFLOPS de computação FP4 e até 112 GB de memória HBM. Na prática, a marca promete um desempenho quase três vezes superior ao do chip H20 da Nvidia — modelo feito especificamente para contornar as sanções.
O pódio nacional segue com a T-Head, divisão de chips do Alibaba. O gigante do comércio eletrônico enviou 256 mil placas (relatórios recentes da IDC apontam até 265 mil unidades). Logo atrás, a Kunlunxin (subsidiária da Baidu) e a Cambricon empatam no terceiro lugar entre os fornecedores locais, com 116 mil componentes cada.
Sanções e crise diplomática
O encolhimento da Nvidia não aconteceu do dia para a noite. Desde 2023, quando os EUA proibiram a venda das GPUs mais avançadas para a China, as empresas asiáticas vinham se virando com versões de especificações reduzidas, como a Nvidia H20 e a AMD MI308. O cenário piorou em abril de 2025, quando o presidente Donald Trump bloqueou totalmente as exportações desse tipo de hardware.
Em julho de 2025, o governo americano chegou a reverter a proibição dos chips H20 e MI308. No entanto, uma gafe diplomática travou os negócios: o Secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, afirmou em entrevista que a China tinha um “vício” em tecnologia ocidental. O governo chinês considerou a fala um insulto e, em retaliação, instruiu suas gigantes de tecnologia a interromperem os pedidos da Nvidia.
Em dezembro, Trump deu uma guinada completa e autorizou a exportação do poderoso chip H200 para a China. O problema é que as vendas foram limitadas a instituições e aplicações específicas, e o processo demorou meses para ser destravado. Com tantas barreiras erguidas, analistas de mercado, citados pelo portal Tom’s Hardware, estimam que a fatia da Nvidia na China pode despencar drasticamente (de 66% na média histórica recente para a casa dos 8%) em um futuro próximo.
Independência ainda é um desafio
Apesar do salto nas vendas, a independência tecnológica total ainda é um projeto distante. Líderes da indústria chinesa admitem que a alta demanda por IA está sobrecarregando o fornecimento de equipamentos de fabricação e esgotando a mão de obra qualificada. Além disso, especialistas apontam que os chips nacionais para data centers ainda estão de cinco a dez anos atrás do hardware de ponta arquitetado pela Nvidia.
Ainda assim, com o esforço ativo de Pequim para redirecionar as compras para dentro de casa, o cenário deixa claro que os dias de monopólio confortável da gigante americana no mercado asiático parecem ter ficado no passado.
Por: Gabriel Sérvio


