Tecnologia da francesa Bleu Robotics aprende com menos de dez demonstrações humanas e pode funcionar em diferentes máquinas, de braços industriais a humanoides; empresa captou €5 milhões para levar o sistema às fábricas
A empresa de robótica Bleu Robotics, da França, captou € 5 milhões (aproximadamente R$ 30,3 milhões) em rodada pré-seed liderada por Contrarian Ventures e OVNI Capital, segundo reportagem do Sifted. O valor será destinado para reduzir o tempo necessário para implantar robôs humanoides em fábricas.
Para isso, a companhia está desenvolvendo um modelo de inteligência artificial, Bleu 0.1, compatível com diferentes tipos de hardware, que, segundo ela, permitirá colocar robôs em funcionamento para executar tarefas em menos de uma hora.
“Captamos recursos para construir um produto com base nessa tecnologia”, revelou o cofundador Benoît Berkoukchi ao Sifted, acrescentando que já conta com alguns parceiros industriais iniciais. “A ideia é começar a desenvolver a solução com eles, tendo acesso às fábricas todos os meses”.
Ao invés da automação que usa atualmente, o que exige sequenciar manualmente subtarefas, escanear objetos para gerar malhas 3D, treinar classificadores de objetos etc., o que a Bleu Robotics prega é a aprendizagem abdutiva, na qual se encontra uma explicação mais simples para os dados.
Para iniciar o processo, operadores humanos na fábrica do cliente realizam tarefas em uma estação de trabalho usando dispositivos manuais de treinamento desenvolvidos pela empresa. Os dados coletados durante essas atividades são utilizados para treinar o robô a executar o mesmo trabalho.
O treinamento e a inferência — etapa em que o modelo aplica o que aprendeu para realizar uma tarefa — são feitos na própria máquina, por meio do hardware embarcado no robô, e não na nuvem.
Segundo Berkoukchi, um operador humano leva 20 minutos para coletar dados sobre uma tarefa. Outros 20 minutos depois, o robô já está trabalhando na mesma atividade em uma estação de trabalho.
A Bleu Robotics lista em nota técnica seu site que o algoritmo que desenvolveu se baseia em três pilares técnicos. São eles:
- Aprendizado por imitação com poucos exemplos: Ao contrário dos modelos de IA padrão que exigem conjuntos de dados massivos ou dias de ajuste fino, o Bleu não é pré-treinado e pode aprender uma nova tarefa industrial em menos de uma hora. Ao mostrar ao robô uma tarefa menos de 10 vezes, ele consegue executá-la de forma autônoma.
- Independente de robô: Trabalhando com qualquer robô que se comunique via padrão ROS, a integração de um novo modelo de robô é altamente eficiente. Isso permite que a IA funcione em diversas plataformas, desde braços industriais até modelos humanoides avançados como o Unitree G1.
- Robustez Industrial: A arquitetura foi projetada especificamente para tarefas cíclicas e repetitivas em fábricas. Ela é inerente a mudanças de iluminação, posição e orientação dos objetos, o que garante a confiabilidade mesmo quando o ambiente de produção sofre pequenas alterações.
A empresa salientou que, apesar de o Bleu 0.1 representar um avanço na robótica industrial, várias limitações importantes permanecem e precisam ser superadas. “O modelo é otimizado principalmente para objetos rígidos, já que materiais não rígidos, como têxteis, ainda não estão em nosso foco atual. Também mantemos um limite de segurança rigoroso: o sistema não pode gerar trajetórias ‘fora da distribuição’. Isso significa que, embora o robô seja impedido de realizar movimentos perigosos e imprevisíveis em um ambiente fabril, ele parará se encontrar uma situação que não reconheça e solicitará ajuda”, indicou.
E acrescentou que se dedica agora a expandir as capacidades do modelo e acelerar sua implantação no mundo real. Suas próximas áreas-chave de desenvolvimento incluem a integração do deslocamento do robô, permitindo que o sistema navegue e opere autonomamente em múltiplas estações de trabalho.
Além disso, está pesquisando e implementando metodologias de ensino de Interface de Manipulação para refinar o processo de demonstração, visando maior precisão e velocidade, e realizando esforços para aprimorar a capacidade do modelo para tarefas de alta precisão, ampliando os limites da manipulação de precisão.
No longo prazo, segundo o Sifted, a Bleu Robotics pretende crescer vendendo seu modelo de IA para fabricantes de hardware. Eles poderão comercializar robôs equipados com a tecnologia por meio de integradores de sistemas, ou seja, empresas contratadas pelos clientes industriais para instalar e implementar soluções de automação em suas unidades. A Bleu cobrará uma assinatura mensal por robô, que dará acesso ao treinamento para novas tarefas e às versões mais recentes.
Foto: Reprodução
Por: Renata Turbiani


