quinta-feira, 23 abril, 2026
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Satélites demais: por que situação da órbita da Terra caminha para o caos

Com 14 mil satélites ativos e 1,23 milhão em desenvolvimento, especialistas alertam para riscos ambientais, culturais e de colisão em cascata no espaço

A corrida para ocupar a órbita baixa da Terra está criando um problema de proporções históricas. No fim de janeiro de 2026, a SpaceX protocolou um pedido junto à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês) para lançar uma constelação de até 1 milhão de satélites destinados a alimentar centros de dados espaciais. Os equipamentos operariam entre 500 e 2 mil quilômetros de altitude, em órbitas projetadas para exposição quase contínua à luz solar.

O pedido é apenas o mais recente em uma sequência de projetos que cresce em ritmo exponencial, segundo análise de Gregory Radisic, pesquisador do Centre for Space, Cyberspace and Data Law e professor da Faculdade de Direito da Bond University, e de Samantha Lawler, professora associada de Astronomia da Universidade de Regina, publicada no site The Conversation.

Em fevereiro de 2026, havia aproximadamente 14 mil satélites ativos ao redor do planeta. Outros 1,23 milhão de projetos estavam em alguma fase de desenvolvimento. Cada satélite tem vida útil média de cerca de cinco anos e é projetado para substituição contínua, o que significa que, uma vez implantadas em grande escala, essas constelações passam a ocupar o espaço permanentemente.

O risco de uma reação em cadeia

O crescimento desordenado da ocupação orbital preocupa especialistas por razões técnicas sérias. Já existem cerca de 50 mil fragmentos de detritos espaciais com dez centímetros ou mais em órbita. Segundo dados citados pelos pesquisadores Gregory Radisic e Samantha Lawler, autores da análise publicada no The Conversation, se os satélites interrompessem todas as manobras de desvio de colisão, seria possível esperar um impacto grave a cada 3,8 dias.

Esse cenário alimenta o temor sobre o chamado Síndrome de Kessler, um efeito dominó em que uma colisão gera detritos que provocam novas colisões, criando uma reação em cadeia difícil de controlar. O problema é agravado pela ausência de um sistema unificado de gestão do tráfego espacial, algo equivalente ao controle de voo da aviação civil, que simplesmente não existe para o espaço.

Além dos riscos técnicos, há impactos que vão além da engenharia. Satélites em órbita baixa refletem luz solar por cerca de duas horas após o pôr do sol e antes do amanhecer, aparecendo como pontos luminosos em movimento no céu. Em 2021, astrônomos estimaram que, em menos de uma década, 1 em cada 15 pontos de luz visíveis no céu noturno seria um satélite em movimento e esse cálculo considerava apenas os 65 mil satélites em constelações propostos à época.

Com projetos que somam mais de 1 milhão de unidades no horizonte, o impacto sobre a astronomia pode ser irreversível. Reflexos luminosos e emissões de rádio dos satélites interferem diretamente nas observações científicas. Mas os efeitos vão além da ciência: comunidades indígenas ao redor do mundo utilizam o céu noturno para navegação, caça, transmissão oral de tradições e práticas espirituais. Toda essa herança cultural está ameaçada por um conjunto de pontos luminosos que uma geração atrás simplesmente não existia.

Os autores descrevem esse processo como uma “síndrome do patamar móvel” no espaço: cada geração passa a aceitar um céu progressivamente mais degradado como normal, até que nenhuma criança cresça vendo o mesmo céu que todas as gerações anteriores da humanidade conheceram.

Os danos ambientais não ficam restritos ao espaço. O lançamento de tantos foguetes consome grandes quantidades de combustíveis fósseis, com efeitos sobre a camada de ozônio. Ao final da vida útil dos satélites, o plano padrão é desintegrá-los na atmosfera, depositando metais na estratosfera e pode provocar reações químicas prejudiciais, incluindo a depleção adicional do ozônio.

O quadro jurídico também é nebuloso. Pelo direito espacial internacional, a responsabilidade por danos causados por objetos espaciais recai sobre os países, não sobre as empresas que os operam. Especialistas em direito espacial têm buscado entender se o arcabouço legal atual consegue responsabilizar empresas privadas ou indivíduos em caso de danos, especialmente à medida que os riscos de acidentes e danos ambientais permanentes aumentam.

Uma regulação que não acompanha o ritmo

O processo de aprovação de novos satélites ainda é predominantemente técnico: frequências de rádio utilizadas, segurança no lançamento e impactos imediatos sobre a superfície terrestre. O que não está contemplado nas regulações atuais são os efeitos cumulativos sobre o céu, sobre a ciência, sobre culturas e sobre o patrimônio coletivo da humanidade.

Para preencher essa lacuna, Radisic e a advogada espacial Natalie Gillespie propõem a criação de uma Avaliação de Impacto sobre Céus Escuros. O mecanismo funcionaria de forma análoga às avaliações de impacto ambiental já existentes em muitos países: antes da aprovação de uma nova constelação, seria necessário reunir evidências de todos os grupos afetados — astrônomos, cientistas atmosféricos, pesquisadores ambientais, comunidades culturais e a própria indústria.

A proposta prevê ainda a modelagem dos efeitos cumulativos sobre a visibilidade do céu, o congestionamento orbital e os riscos à superfície terrestre; a definição de critérios claros para quando o céu livre é indispensável para ciência, navegação e práticas culturais; e a criação de caminhos de mitigação, como ajustes no brilho dos satélites, mudanças nas configurações orbitais e incentivos para que cada projeto use o menor número possível de satélites.

Por: Diogo Rodriguez

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