Desde agosto de 2024, uma portaria do Ministério do Trabalho e Emprego mudou a forma como toda empresa brasileira precisa tratar a saúde mental no trabalho. A NR-1 passou a exigir que fatores psicossociais, como ritmo, cobrança e forma de comunicação, entrem no inventário de riscos que qualquer organização já é obrigada a manter. Desde maio de 2026, isso vale com fiscalização e multa, encerrando o período apenas educativo.
A urgência aparece nos números. O Brasil fechou 2025 com mais de 546 mil afastamentos por saúde mental, recorde histórico batido pela segunda vez em uma década, segundo o Ministério da Previdência Social. Ansiedade e depressão juntas já são a segunda maior causa de afastamento do trabalho no país.
Comunicação, publicidade e marketing estão entre os setores mais atingidos por esse recorde. Um levantamento da Gupy, construído sobre os mesmos dados da Previdência Social, coloca a área em terceiro lugar em incidência crítica de esgotamento profissional: 9,67% dos profissionais, atrás apenas de varejo e atacado (10,79%) e educação (9,87%). No cenário geral, pelo menos quatro em cada dez brasileiros sinalizam algum nível de risco de adoecimento mental no trabalho.
Dentro do setor, seja em agência ou em equipe interna, o problema se manifesta em dois lugares diferentes, e defendo que precisam ser lidos juntos.
O primeiro é o volume da operação. Grupos de WhatsApp que não param, aprovação urgente a qualquer hora, decisão que se dilui entre áudios, documentos e figurinhas. Um estudo da pesquisadora Elizabeth Marsh, da University of Nottingham, descreve esse padrão como intensidade tecnológica no trabalho digital: o número de canais monitorados supera a capacidade de processamento do cérebro, e a energia acaba antes do trabalho estratégico começar.
O segundo é quem lidera essa rotina, e costuma passar batido. Acompanho o dia a dia de agências e times internos, e vejo que a pessoa que responde pelo time costuma ser a mais exposta a esse mesmo fluxo, e ao mesmo tempo a mais isolada dentro da empresa para falar sobre isso. Uma pesquisa da Gallup publicada em 2026 confirma o padrão: gestores relatam mais estresse, mais irritação e mais solidão do que outros níveis hierárquicos.
Quando a liderança chega ao limite, a decisão se concentra no topo, porque delegar exige tempo e clareza que não sobram. O retorno para a equipe piora, o time perde autonomia, e a empresa perde justamente a capacidade de enxergar o que está adoecendo o próprio pessoal.
Existe quem veja aí duas questões de resiliência pessoal, separadas uma da outra. A pessoa da ponta precisaria aprender a filtrar mensagens e priorizar melhor. Quem coordena precisaria aprender a delegar e a impor limites. É um argumento razoável, e em parte verdadeiro.
Esse raciocínio esbarra no motivo pelo qual a própria NR-1 mudou de abordagem. A norma passou a evitar avaliar a sensação subjetiva de cada pessoa, justamente porque isso individualiza algo que é estrutural nos dois níveis. Uma pesquisa de Kashlot, Ruthven e Moshfeghi, publicada em 2025 no periódico Journal of Documentation, reuniu e comparou 38 estudos já publicados sobre sobrecarga de informação, e o conjunto aponta para uma conclusão direta: nenhuma estratégia isolada resolve. Filtro pessoal, ferramenta que centraliza a informação em vez de espalhá-la em dezenas de grupos e política clara de comunicação precisam funcionar juntos. Cobrar resiliência individual, de um lado ou do outro, sem mexer no desenho do trabalho, ataca o sintoma e mantém a causa intacta.
O retrato completo do que a norma pede para mapear tem, portanto, dois lados que raramente entram no mesmo diagnóstico. Olhar só para o volume de mensagens da equipe e deixar de fora o esgotamento de quem coordena cobre metade do problema. Olhar só para a liderança e ignorar como o trabalho está estruturado repete o mesmo erro pelo outro lado.
Fica um convite para quem toca uma agência ou uma área de comunicação e marketing: revisar o próprio fluxo de mensagens e decisões com esse olhar duplo, perguntando ao mesmo tempo como a rotina está organizada e quanto ela está pesando em quem responde por ela. A norma que já cobra esse mapeamento é uma boa razão para colocar as duas perguntas na mesa.


