As organizações tech-first vêm florescendo em ambiente onde tecnologia deixou de ser ferramenta e passou a ser estrutura, debaixo de uma lógica industrial, impessoal, obsessiva, de escala, aplicada a quase tudo
Nos estudos das 5 gerações de inovação do inglês Roy Rothwell, o modelo linear de primeira geração, vigente até os anos 1960, é o célebre technology push, caracterizado pela supremacia da área de Pesquisa & Desenvolvimento que caracterizou as empresas-avós da inovação como Dupont, Basf, GE, 3M, IBM e Xerox.
Nos ciclos posteriores, foram somando disciplinas como marketing e psicologia para entender necessidades e comportamentos dos clientes (market pull). Mais adiante, fluxos se tornaram menos lineares com maior integração dos times até chegarmos à inovação aberta, em rede, com uso de muitas ferramentas digitais. A tecnologia, por sua vez, sempre se manteve como pilar essencial das transformações em qualquer geração.
O filósofo italiano Umberto Galimberti tem uma visão tecnopessimista quando constata que a Técnica deixou de ser ferramenta manipulada pelo homem para ser sujeito da História, onde nossa sociedade se rege pela Hegemonia da Eficiência, sempre na direção do aperfeiçoamento e máxima produtividade.
O modelo de Rothwell abrangeu até os anos 2000 e assim, merece uma complementação referente às duas últimas décadas, aceleradas por transformações digitais e agora, impulsionadas pelo crecimento das IAs, a onda apocalíptica do momento, com a busca dos atores econômicos pela megaprodutividade e velocidade turbinada.
É curioso que as novas gerações de empreendedores parecem reviver flash-back do modelo tech-push, trazendo essa abordagem do passado revisada para o mundo hiperconectado. Estamos testemunhando o que alguns teóricos chamam de “Neolinearismo Tecnológico”. Embora o mundo seja muito mais complexo, a mentalidade tech-first vem operando sob curiosa lógica de Technology-Push 2.0.
A visão tech-first traz enorme impacto para o mundo do emprego, dos ambientes de trabalho, da gestão, da inovação. Empresas que nascem orientadas a sistemas totalmente automatizados e ultraeficientes algoritmicamente, muitas vezes, não estão interessadas ao desenvolvimento de cultura inovadora, propósito genuíno, práticas de real cuidado com clientes. Clientes se tornam perfis, dados, ocorrências frias, sem conexão com o contexto humano extremamente variável e sensível.
Naturalmente, há diferenças significativas entre passado e presente. No século XIX e início do século XX, os laboratórios Technology Push criavam tecnologias para gerar produtos (um pigmento, um motor, uma lâmpada, um filme plástico).
O “impulso da inovação” vinha da curiosidade científica, alimentada pelas oportunidades de negócios; hoje, o impulso vem principalmente da busca da hegemonia competitiva. Empresas como Microsoft, Tencent, Nvidia, Huawei e Amazon vêm tecendo tecnologias de base para criar ecossistemas inteiros e dominar a infraestrutura tecnológica, fazendo com que o mercado inteiro se adapte a ela.
Outra diferença fundamental é que o modelo linear original era cego ao mercado enquanto o modelo tech-first atual é hiper-informado, alimentado por Big Data. As empresas utilizam a tecnologia para “empurrar” soluções, mas usam loops de feedback em tempo real para ajustar o produto.
É um modelo linear acelerado, onde a fase de “venda” alimenta a “pesquisa” em ciclos de horas e dias, não mais em meses ou anos. A abordagem chinesa se destaca frequentemente por ignorar a validação de mercado tradicional (o “Lean Startup” ocidental) em favor dessa escala massiva e velocidade.
O filósofo bielo-russo contemporâneo Evgeny Morozov popularizou o interessante conceito do solucionismo tecnológico, combatendo essa ideologia que acredita ser possível resolver qualquer problema do mundo com algoritmos, apps e novas tecnologias.
A maior crítica a essa crença da tecnologia como panaceia é sua disposição a ignorar os complexos contextos humanos, sociais e políticos, todos os inúmeros aspectos subjetivos e qualitativos, as nuances culturais e éticas das sociedades.
As organizações tech-first vêm florescendo em ambiente onde tecnologia deixou de ser ferramenta e passou a ser estrutura, debaixo de uma lógica industrial, impessoal, obsessiva, de escala, aplicada a quase tudo.
Para quem se importa com uma visão de inovação sustentável e responsável, o que fazer quando uma luneta apontada para algum futuro mostra cena sombria, com empresas se deslumbrando pela tecnologia como único foco, sem amadurecer propósitos, com empatia e ética atrofiadas, despreocupadas com relação às desigualdades estruturais e potenciais impactos nocivos ao ser humano, ao planeta, à coletividade?
Vou de carona nas ideias da escritora norte-americana Rebecca Solnit que prega o conceito da “esperança ativa”, uma postura que exige participação e engajamento, sem ser ingênua diante dos cenários desafiadores, mas confiante de que algo possa ser construído e transformado.
Por anos, venho escutando líderes das empresas de tecnologia que alardeam, a plenos pulmões, desenvolver tecnologia para servir à humanidade. Tenho certeza de que há fim verdadeiro em gerar valor via Técnica para as pessoas, na saúde, no transporte, na habitação, em tantos setores, como meio para ampliar bem-estar, eficiência e cidadania. Mas há sensibilidade de avaliar os impactos de maneira ampla, preservar pontos basilares do ser humano e das organizações, com tênue disposição para corrigir rotas?
Depois de tantos anos sob o cetro desse desequilíbrio racionalista exponencial, em coro com o bom amigo consultor de marketing industrial José Carlos Teixeira Moreira e o cientista Marcelo Gleiser, canto que passou da hora de reequilibrarmos as pernas do tripé que sustentam nossa existência: Combinar urgente a moldura científico-tecnológica, com a vertente filosófico-espiritual e o pilar artístico-lúdico-poético.
A grande fronteira da inovação de 2026 não é técnica. É civilizatória.
Por: Luiz Serafim


