quinta-feira, 23 abril, 2026
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Pikachu ou entregador de pizza? Jogadores de Pokémon Go criaram um mapa com 30 bilhões de fotos que agora está treinando robôs

Niantic Spatial passou anos convertendo esse acervo em algo inédito: um modelo fotorrealista do mundo físico, continuamente atualizado e construído especificamente para robôs

Em 2016, o jogo Pokémon Go chegava às telas de celulares do mundo todo. Pelas ruas, parques e praças, era comum ver pessoas de todas as idades em busca de Pikachus, Charmanders, Squirtles, Bulbasaurs e tantas outras criaturas digitais, lançando bolas virtuais para capturar cada vez mais Pokémons.

De lá para cá, o jogo foi evoluindo e garantindo recompensas para os jogadores que enviassem fotos e vídeos curtos de pontos turísticos, esquinas, fachadas de lojas e cruzamentos urbanos. Esses envios voluntários acabaram formando um conjunto de dados que hoje conta com 30 bilhões de imagens capturadas em quase todas as grandes cidades do planeta, informou a The Fortune.

A Niantic Spatial, divisão de IA empresarial e mapeamento criada a partir da Niantic Inc., passou anos convertendo esse acervo em algo inédito: um modelo fotorrealista do mundo físico, continuamente atualizado e construído especificamente para robôs.

Esse modelo está sendo implantado agora para orientar uma frota de aproximadamente 1.000 robôs de entrega da Coco Robotics, que operam em cidades dos Estados Unidos e ao redor do mundo, incluindo Los Angeles, Chicago, Miami, Jersey City e Helsinque, acumulando milhões de quilômetros de entregas até hoje.

Brian McClendon, diretor de tecnologia da Niantic Spatial e um dos criadores do Google Earth, explica a estratégia. “Encaramos os dados dos jogadores como dados de treinamento de campo de alta qualidade para outros conjuntos de dados de menor qualidade”, disse McClendon à Fortune. “A filosofia de longo prazo da Niantic Spatial é que podemos resolver esses problemas difíceis de localização, reconstrução e semântica usando lugares muito específicos para treinar modelos e, em seguida, usar dados muito mais amplamente disponíveis em resoluções menores para conseguir localizar, visualizar e compreender a partir de dados ‘ruins’.”

Isso quer dizer que as digitalizações dos jogadores ensinam ao modelo o que é precisão. É uma estratégia que posiciona a Niantic Spatial menos como uma empresa de jogos que mudou de rumo e mais como a operação de mapeamento mais ambiciosa, feita inteiramente pelo entusiasmo de seus próprios usuários em capturar criaturas digitais.

“Nos últimos anos, construímos um grande modelo geoespacial que funciona como um mapa vivo e dinâmico do mundo — um mapa que é nativo para robôs e IA”, escreveu o CEO John Hanke em uma publicação recente em seu blog.

O Sistema de Posicionamento Visual (VPS, na sigla em inglês) da Niantic Spatial resolve um problema que tem freado o setor de entregas autônomas. O GPS não se sai tão bem em ambientes urbanos densos, nos quais prédios altos interferem nos sinais de satélite. Para um robô de entrega que precisa deixar a comida exatamente na porta certa, errar por alguns metros significa clientes insatisfeitos. O VPS contorna os satélites por completo, comparando as imagens captadas em tempo real pelas câmeras do robô com seu vasto banco de dados.

“O modelo funcionará em tempo real, recebendo imagens do robô e comparando-as tanto com conjuntos de dados de acesso público quanto com dados proprietários que coletamos, para determinar a posição e a orientação global do robô”, disse um porta-voz da Niantic Spatial à Fortune.

Para Zach Rash, CEO da Coco, o problema está nas habilidades de raciocínio crítico dos robôs — ou na falta delas. “Os robôs ainda não têm a mesma intuição que um ser humano, que consegue entender: ‘Meu GPS não está funcionando direito, mas eu entendo que provavelmente é o lugar certo'”, disse Rash à Fortune. “Precisamos que o robô tenha esse tipo de intuição.”

“Ainda estamos no início [com a Niantic Spatial], e acho que estamos animados em colaborar com uma equipe tão incrível para descobrir como integrar isso à tecnologia existente e melhorar o serviço. O VPS é um caminho óbvio”, continuou Rash. “Eles são muito bons nisso. Se eu conseguir determinar com mais precisão onde entregar a comida, meus clientes ficarão satisfeitos.”

Por: Thâmara Kaoru

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