domingo, 09 agosto, 2026
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Núcleo da Terra pode esconder forma rara e extrema de hidrogênio

Modelagem sugere que o núcleo interno da Terra pode conter grandes quantidades de hidrogênio superiônico, influenciando sua composição

núcleo interno da Terra pode abrigar uma forma incomum de hidrogênio encontrada apenas sob condições extremas de temperatura e pressão, segundo um estudo recente. A pesquisa utilizou modelos para investigar como esse material se comporta no interior do planeta e como ele pode estar distribuído entre as diferentes camadas do núcleo.

Os resultados, publicados na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), indicam que o chamado hidrogênio superiônico pode ser muito mais comum no centro da Terra do que se imaginava. Além de ajudar a compreender a composição do núcleo, a descoberta pode contribuir para explicar processos relacionados à sua evolução e à dinâmica entre o núcleo interno e o externo.

O que é o hidrogênio superiônico?

À medida que se avança em direção ao centro da Terra, a composição dos materiais muda, enquanto a pressão e a temperatura aumentam drasticamente. Nesse ambiente extremo, os pesquisadores concentraram a investigação no hidrogênio superiônico, uma forma exótica do elemento que apresenta comportamento semelhante ao de um líquido, conduz eletricidade e só pode existir em condições muito específicas.

Para entender melhor suas propriedades, a equipe modelou três cenários diferentes envolvendo esse material. Dois deles analisaram ligas superiônicas de ferro e hidrogênio, nas quais o hidrogênio se movimenta através de estruturas cristalinas de ferro organizadas de maneiras distintas.

Estruturas avaliadas no estudo

Os pesquisadores compararam duas configurações cristalinas principais. A primeira foi a estrutura hexagonal compacta (HCP). A segunda foi a estrutura cúbica de corpo centrado (BCC).

Os cálculos mostraram que a fase BCC apresenta maior energia livre, tornando-se menos estável e mais reativa do que a fase HCP. Em contraste, a estrutura HCP demonstrou maior estabilidade termodinâmica, o que a torna a candidata mais provável para predominar no núcleo interno da Terra.

O estudo também identificou um cenário em que a fase BCC poderia se tornar mais estável: temperaturas superiores a 6.400 kelvin (cerca de 6.100 °C) combinadas com uma concentração de hidrogênio acima de 20%, sob uma pressão de aproximadamente 3,6 milhões de atmosferas.

Mesmo assim, os autores afirmam que essas condições provavelmente favoreceriam o derretimento dessa estrutura antes que ela pudesse predominar. Segundo os pesquisadores, seus cálculos mostram que o hidrogênio consegue estabilizar a fase superiônica BCC em temperaturas e concentrações suficientemente elevadas, mas essa região de estabilidade é superada pelo processo de fusão, fazendo com que apenas a fase superiônica HCP coexistisse com o líquido no sistema formado por ferro e hidrogênio.

Gradiente de hidrogênio no núcleo interno

A modelagem também revelou um possível gradiente radial de hidrogênio dentro do núcleo interno. De acordo com os resultados, a concentração do elemento diminui de forma acentuada à medida que se atravessa a fronteira entre o núcleo externo e o interno em direção ao centro do planeta.

Esse gradiente pode impulsionar o hidrogênio superiônico para o limite do núcleo interno, onde ele deixa esse estado especial e volta a integrar uma mistura líquida, enriquecendo o núcleo externo.

Segundo os pesquisadores, isso sugere que a troca de hidrogênio entre as duas regiões do núcleo não ocorre apenas durante a cristalização do núcleo interno. O processo também aconteceria por meio de uma redistribuição contínua do hidrogênio superiônico, enquanto o núcleo interno continua crescendo a uma taxa estimada de 1 milímetro por ano.

O que isso pode revelar sobre o interior da Terra

Os autores afirmam que ambos os mecanismos podem contribuir para a chamada flutuabilidade química, considerada uma importante fonte de energia para o funcionamento do geodínamo.

Eles destacam ainda que compreender melhor as variações de densidade e as diferenças de materiais no núcleo interno exigirá considerar outros elementos leves, como oxigênio e carbono. Ainda assim, a pesquisa indica que a distribuição das diferentes formas de hidrogênio no núcleo parece ser controlada principalmente pela temperatura, e não pela pressão.

Na conclusão do estudo, os pesquisadores afirmam que a distribuição desigual do hidrogênio superiônico no núcleo interno é consequência direta da termodinâmica de equilíbrio. Segundo eles, o mesmo mecanismo pode influenciar também a distribuição de outros elementos leves, afetando a composição, a dinâmica e a evolução do núcleo terrestre.

Por: Ana Luiza Figueiredo

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