Administrador interino orienta NASA a trabalhar dentro do orçamento do Congresso para 2026, menos danoso que o proposto pela Casa Branca
A NASA está sob risco de sofrer um corte violento no orçamento para 2026. A proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é de reduzir a verba para o ano fiscal de 2026 em 24,2%, quando comparado ao montante atual disponível.
O setor mais afetado é o de Ciências Terrestres, que não teria dinheiro nem para monitorar missões correntes, que seriam todas abandonadas; o foco seria voltado todo à exploração espacial, e mesmo assim, o trabalho pesado seria todo terceirizado, com a NASA virando uma mera fretadora.
Tal ideia não foi bem recebida no Congresso, no que ambas as casas, Câmara e Senado, passaram orçamentos similares ao de 2025, mas Executivo e Legislativo ainda não entraram em acordo sobre este e outros pontos para o orçamento, o que pode levar ao temido shutdown do governo, o que alguns já consideram como inevitável.
Nesse imbróglio, o administrador interino da NASA, Sean Duffy, tomou uma medida inusitada, se lembrarmos que o executivo é um MAGA 120% leal a Trump: ele orientou a agência a trabalhar dentro do orçamento proposto pela Câmara de Representantes, ao menos para manter as engrenagens girando.
NASA no respirador
Como mencionamos várias vezes no Meio Bit, o orçamento atual da NASA de US$ 24,8 bilhões (~R$ 132,4 bilhões, cotação de 23/09/2025), aprovado em 2024 pela administração de Joe Biden, cobre várias missões de Ciência Terrestre, que recebeu US$ 7,3 bilhões (~R$ 39 bilhões) do montante, e de Exploração Espacial, incluindo o Projeto Artemis, com US$ 7,7 bilhões (~R$ 41,1 bilhões).
O gabinete de Trump, no entanto, propôs um corte de mais de um quarto na grana para 2026, em que a NASA receberia apenas US$ 18,8 bilhões (~R$ 100,4 bilhões), onde a redução mais acentuada seria na verba destinada a projetos científicos. Com 47% a menos, o setor receberia apenas US$ 3,9 bilhões (~R$ 20,8 bilhões).
Especialistas dizem que nesse cenário, a NASA não teria dinheiro nem para o básico em Ciência, o que foi reforçado por Sean Duffy, quando o administrador interino disse, em entrevista ao canal Fox News, que “a missão da agência é explorar o Espaço, e não fazer ciência na Terra”.
Em especial, todas as pesquisas referentes a mudanças climáticas, que são “Fake News” segundo o Projeto 2025 da Heritage Foundation (que é uma idiotice completa, mas está sendo implementado à risca mesmo assim), deverão ser cortadas e completamente abandonadas, não mantendo pessoal nem para monitoramento.
Satélites e sondas destas e de outras missões em curso, como a New Horizons (que fotografou Plutão) e a Juno (em órbita de Júpiter), seriam largados até reentrarem na atmosfera da Terra, ou deixarem de enviar dados; o projeto Mars Sample Return também seria cancelado, em prol de uma missão tripulada a Marte encarregada de trazer amostras.
A missão ao planeta vermelho seria o único e principal foco da NASA, onde o Projeto Artemis também deveria ser cancelado (levando com ele o foguete SLS e a estação Gateway) após a terceira missão, que levará astronautas americanos ao satélite, e todo o trabalho pesado seria terceirizado para empresas como SpaceX, Blue Origin, ULA, Boeing, e afins.
Piora, claro. A proposta também inclui cortes de pessoal (até o momento, a NASA já perdeu mais de 20% de seu pessoal, entre demissões voluntárias e aposentadorias compulsórias), e fechamentos ou fusões de centros de pesquisa. O Goddard, que administra os telescópios espaciais Hubble e James Webb, e vai supervisionar o Nancy Grace Roman quando (ou se) ele for lançado, é um dos alvos.
Trocando em miúdos, a agência espacial norte-americana deixaria de fazer Ciência na totalidade, e ficaria reduzida a uma versão para o Espaço da FAA (Agência Federal de Aviação), não por acaso, anteriormente comandada por Duffy.
Claro, o Congresso não gostou nem um pouco da proposta de aleijar a NASA. Mesmo a ala republicana representada pelo senador do Texas Ted Cruz, que preside o Comitê de Comércio, Ciência, e Transporte, viu a proposta de Trump como um insulto, ainda que por motivos políticos; o SLS é controlado pelo Legislativo, que decide onde ele vai ser construído, gerando empregos que se convertem em votos.
No dia 15 de julho de 2025, a Câmara de Representantes aprovou um orçamento de US$ 24,8 bilhões (~R$ 132,5 bilhões) para a NASA em 2026, o mesmo valor de 2025, mas com diferenças na distribuição da grana, o orçamento para Ciência continuaria reduzido, mas o corte não seria tão pesaso quanto o proposto pelo gabinete de Trump.
Dois dias depois, em 17/07, o Senado fez a mesma coisa ao aprovar um orçamento de US$ 24,9 bilhões (~R$ 133 bilhões), mas este manteria os US$ 7,3 bilhões voltados a Ciência Terrestre intocado. O problema, a Casa Branca não quer nenhum dos dois, e bate o pé pela implementação dos US$ 18,8 bilhões, inclusive dando a entender que não precisa do Congresso para aprovar a proposta, ao se valer de mais uma ordem executiva a ser aprovada pela Suprema Corte dos EUA (SCOTUS), de maioria indicada por Trump.
Vale lembrar que a NASA é apenas um dos pontos de conflito entre o Legislativo e o Executivo, sobre o orçamento federal para o ano fiscal de 2026, que começa no dia 1.º de outubro de 2025. Com nenhum dos lados disposto a ceder, todos se preparam para o cenário provável, a total paralisação das instituições já na próxima semana, o shutdown, até que um acordo entre as partes seja costurado.
O que nos traz à improvável, mas não surpreendente, decisão de Duffy ao recomendar à NASA que trabalhe dentro do escopo do orçamento aprovado pela Câmara, segundo fontes próximas. Em uma situação ideal, seria a proposta do Senado a eleita, pois preserva o budget destinado à Ciência em 2025, mas o administrador interino, como um MAGA fiel, não quer o órgão se focando em nada além de explorar o Espaço, especialmente se forem pesquisas sobre o clima.
O que acontece aqui é uma situação de “o menor dos males”: Duffy, e por tabela Trump, dada a proximidade do administrador com o presidente dos EUA, considerariam que é preferível prover uma verba mais folgada à NASA, especialmente voltada para Exploração Espacial e consequentemente, preservando o Projeto Artemis, o SLS e a Gateway para garantir um pontinho com o Congresso, enquanto segue o Projeto 2025 e corta tudo o que “não serve”, como esforços de DEI, pesquisas na Terra, e empregos de gente que não reze pela cartilha atual.
“Desmonte” está destruindo a imagem da agência
Desmontar agências federais e demitir em massa, substituindo mão-de-obra humana por algoritmos, é uma das propostas do Projeto 2025 que vem sendo aplicada à força, onde o DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) desempenha papel relevante. Mesmo assim, muitos acreditavam que a NASA não seria afetada, por ser um órgão de excelência e líder em ciência espacial e terrestre, um dos maiores orgulhos do país, a empregadora dos sonhos de todo mundo que ama Ciência. Não foi o caso.
As ações contra o órgão, do corte violento no orçamento à redução massiva de sua equipe, e redução sistemática de suas atribuições em prol de terceirização e redução de gastos, estão afetando a imagem da NASA dentro e fora dos EUA. O clima interno, segundo quem ficou, é de um literal enterro, de “morte do ideal” que a agência representava.
Vários profissionais antigos e novos não afetados pelos cortes, que faziam parte do “time hardcore” da NASA, ultra-qualificados que poderiam ganhar muito mais em qualquer outro lugar, mas que optaram pela NASA por acreditarem nela, estão saindo. Técnicos, engenheiros, cientistas com currículos invejáveis estão preferindo ir para qualquer outro lugar a permanecer, e levando sua expertise com eles.
Um dos efeitos óbvios, a NASA está perdendo gente qualificada que não será reposta tão cedo, ou talvez nunca mais seja, porque a agência está deixando de ser o destino sonhado exatamente porque o ideal, o encanto da NASA, está morrendo lentamente. Ela está perdendo sua capacidade de inspirar novas gerações, ao ser vista como apenas mais um órgão do governo, e muitos temem que o estrago seja irreversível.
Estes preferirão ir para a privada em busca de melhores salários, enquanto os mais idealistas serão sondados e cortejados por outras agências espaciais, como ESA, JAXA, ou mesmo da China, para o horror de Ted Cruz.
A posição de Duffy sobre como a NASA deve trabalhar pode mudar dependendo dos desenrolar da briga entre a Casa Branca e o Congresso, sobre o orçamento de 2026, e se haverá mesmo um shutdown ou não; embora a situação não serja ideal, pois melhor seria trabalhar com a proposta do Senado, pior se Donald Trump conseguir forçar a sua visão para quanta grana a agência deve receber, o que seria um duro golpe para diversos projetos científicos.
Fonte: Ars Technica, em Meio Bit


