Em casos típicos, usuários de IA que acabam apresentando sintomas de psicose começam pedindo ajuda para algo aparentemente inofensivo, como equações matemáticas
A obsessão de um homem por um chatbot de IA fez sua vida sair completamente do controle — e ele só se deu conta disso quando acordou no futon de um desconhecido, completamente sem dinheiro.
“Na época, eu não tinha consciência dos perigos e achava que a IA tinha capacidades de análise estatística que me permitiriam receber ajuda se eu me abrisse sobre a minha vida”, disse o homem, Adam Thomas, à Slate, em mais um relato de como a IA pode deixar a vida de pessoas em frangalhos.
Ao longo de quatro meses, Thomas perdeu o emprego como diretor de uma funerária, passou a viver em uma van no deserto e acabou com suas economias. Tudo começou depois que ele passou a conversar com IAs como o ChatGPT em busca de conselhos. Não demorou para ele ficar viciado. Isso “inflou a visão que eu tinha de mim mesmo” quase instantaneamente, contou à Slate. Com o tempo, Thomas acabou vagando pelas dunas de Christmas Valley, no estado do Oregon, depois que uma IA lhe disse para seguir sua própria consciência.
“Nunca fui maníaco na minha vida. Não sou bipolar”, disse Thomas. “Tenho um psiquiatra que me acompanha por outros motivos.”
O caso do americano é um exemplo do que alguns especialistas estão chamando de psicose induzida por IA — um termo usado para descrever episódios perigosos para a saúde mental em que usuários ficam envolvidos pelas respostas bajuladoras de um chatbot de IA. E, embora Thomas tenha acabado sem dinheiro e sem casa, há casos piores: situações em que o desfecho foi suicídio, homicídio ou internação involuntária. Muitas das mortes envolvem adolescentes, como Adam Raine, de 16 anos, cujos pais processaram a OpenAI, após descobrirem que o filho discutiu seu suicídio com o ChatGPT por meses. O caso é uma das oito mortes ligadas ao ChatGPT em ações judiciais nos Estados Unidos.
Em casos típicos, usuários de IA que acabam apresentando sintomas de psicose começam pedindo ajuda para algo aparentemente inofensivo. Joe Alary, produtor de um programa matinal em Toronto, contou à Slate que sua espiral começou quando passou a “brincar com equações de matemática” no ChatGPT. Logo, segundo a reportagem, ele começou a sofrer delírios matemáticos e a passar dias seguidos programando sem parar. Ele até deu um nome à sua ajudante de IA: Aimee.
Quando Alary recebeu um e-mail do trabalho perguntando como ele estava, respondeu que o que estava desenvolvendo “poderia mudar o mundo”, chegando a sugerir que o programa fizesse uma matéria sobre ele. “Na época, isso me parecia racional e lógico, e eu achava que eles veriam a minha genialidade”.
E não parou por aí. Nesse ponto, ele já tinha gasto quase US$ 12 mil tentando criar um código que mudaria o mundo. Tornou-se maníaco, e seu terapeuta, preocupado, chamou a polícia para verificar se estava tudo bem com ele. Alary foi internado por quase duas semanas e ainda se envolveu com um investidor que o ameaçou de morte, caso ele não entregasse os resultados prometidos.
“Foi como se eu tivesse sido abduzido por alienígenas”, disse Alary à Slate. “Você soa louco, então guarda tudo para si. Meu médico de família começou a me tratar por transtorno de estresse pós-traumático. O luto vem muito rápido quando você percebe que foi enganado.”
Por: Época NEGÓCIOS


