Plataforma recebe 60 mil faixas de IA diariamente e detecta que até 85% das reproduções são fraudulentas
A Deezer identificou operação fraudulenta em larga escala com faixas produzidas por inteligência artificial. A plataforma francesa de streaming recebe 60 mil músicas totalmente criadas por IA todos os dias, mais de um terço de toda a produção enviada ao serviço. De acordo com as informações, criminosos utilizam ferramentas de IA para produzir as faixas e sistemas automatizados para reproduzi-las repetidamente, acumulando royalties de forma artificial.
Segundo Thibault Roucou, chefe de royalties do Deezer, a maior parte das reproduções desse tipo de conteúdo configura manipulação ou fraude. Algoritmos da plataforma indicam que até 85% de todas as reproduções de música totalmente criada por IA são fraudulentas.
Esquema automatizado desvia recursos de músicos legítimos
Os fraudadores operam em duas etapas. Primeiro, produzem volumes massivos de faixas musicais usando inteligência artificial. Depois, constroem robôs para transmitir esse conteúdo continuamente.
As faixas em si não configuram fraude, mas o comportamento em torno delas caracteriza a operação criminosa. Alguém carrega uma música criada por IA e usa um sistema automatizado para ouvi-la repetidamente, gerando royalties artificialmente.
Romain Hennequin, chefe de pesquisa do Deezer, desenvolveu um algoritmo para detectar música de IA sendo carregada na plataforma. O sistema identifica características minúsculas da música que são inaudíveis ao ouvido humano. “É uma forma de inundar totalmente os serviços de streaming de música”, declara.
Ferramentas de IA eliminam barreiras técnicas da produção
A inteligência artificial permite criar músicas completas em 30 segundos. Ferramentas de IA conseguem gerar uma canção pop, incluindo letras, por exemplo, com instruções por texto.
O resultado pode ser genérico, no entanto, para os ouvintes, é indistinguível de músicas feitas por humanos. Mesmo pessoas com conhecimento musical avançado não conseguem diferenciar canções humanas de artificiais.
Produção artificial supera indústria tradicional
A indústria musical dos Estados Unidos produziu aproximadamente 57 mil músicas em 2015. Uma década depois, a Deezer está preparada para receber 21 milhões de faixas de IA por ano.
A estimativa é considerada conservadora. A escala de produção de música por IA cresce mensalmente.
Fraude pode desviar até US$ 3 bilhões
Alexis Lanternier, CEO do Deezer, revela a dimensão financeira do problema. “Detectamos 8 a 9% das reproduções como sendo fraudulentas”, afirma. “Se você implementar esses 8% ao mundo da música, são aproximadamente alguns bilhões de dólares, dois a três”, complementa.
A questão afeta artistas devido à forma como funcionam os pagamentos nos serviços de streaming. Não existe um preço fixo por reprodução individual. Os artistas recebem pagamento de um fundo comum de royalties dependendo da proporção de reproduções que obtêm. Se alguém gera um número enorme de reproduções, retirará dinheiro de todos os outros, reduzindo o valor disponível no fundo comum.
Plataformas removem milhões de faixas
O Deezer utiliza sistemas automatizados próprios para identificar os robôs. O objetivo é impedir que as faixas reproduzidas por eles gerem royalties. O Spotify removeu 75 milhões de faixas consideradas spam no ano passado, muitas das quais eram produzidas por inteligência artificial. O catálogo completo do Spotify possui 100 milhões de faixas.
Os fraudadores buscam constantemente novas formas de contornar as defesas das plataformas.
Batalha contínua entre plataformas e criminosos
Thibault Roucou descreve a situação. “É uma batalha contínua”, diz. “Acho que não vamos perder, mas também não vamos vencer de qualquer forma porque eles vão continuar a melhorar, e nós também. E esperamos ser capazes… de impedi-los de tirar muito dinheiro de outros artistas”, afirma.
A Deezer decidiu rotular faixas totalmente geradas por IA como tal. A plataforma é atualmente o único serviço de streaming a adotar essa abordagem.
Spotify, YouTube e Apple Music adotam estratégias diferentes
O Spotify, o maior serviço de streaming do mundo, optou por não adotar a rotulagem. A empresa teme que isso possa estigmatizar músicos que utilizam IA. Essa preocupação considera um futuro em que todas as faixas sejam feitas com algum tipo de assistência artificial. O Spotify se juntou à Deezer na tentativa de bloquear a inundação de músicas geradas por IA e reproduções fraudulentas.
YouTube e Apple Music também não rotulam faixas geradas por IA. O YouTube informou que solicita aos criadores que marquem conteúdo de IA como tal quando parecer realista.
Artistas denunciam impacto financeiro
Lila Tristram, musicista folk, expressa indignação com a situação. “Como artistas, recebemos uma fração tão pequena do dinheiro que realmente merecemos receber por causa do sistema de streaming. E que isso seja cortado cada vez mais e mais através de robôs… faz meu sangue ferver”, declara.
Aidan Grant, fundador da agência de produção musical Different Sauce, alerta. “A indústria da música precisa controlar isso um pouco, caso contrário pode rapidamente ficar bastante fora de controle”, afirma.
Até o momento não há grande apetite por esse tipo de conteúdo fora de sucessos virais ocasionais e dos fraudadores. A música ainda precisa ser tocada e promovida por alguém com apelo pessoal genuíno para encontrar uma audiência significativa.
Fonte: Giz_br


