sábado, 07 novembro, 2026
HomeNEGÓCIOSCrise no Ueno: como o banco digital do Paraguai foi à lona

Crise no Ueno: como o banco digital do Paraguai foi à lona

Venda simulada de créditos inadimplentes está na origem do problema, segundo imprensa paraguaia

A crise do Ueno Bank, banco paraguaio que fechou as portas nesta semana, deixando quase três milhões de clientes sem acesso a dinheiro e levando o presidente Santiago Peña a renunciar ao cargo, tem origem em fraudes contábeis, segundo a imprensa local. Uma análise técnica da Superintendência de Bancos do Paraguai revelou o mecanismo utilizado pelo Ueno para simular a venda à vista de uma carteira de créditos inadimplentes avaliada em US$ 74,4 milhões, mostra reportagem do jornal paraguaio Hoy.

De acordo com a reportagem, a reconstituição da operação, realizada em 15 de junho, expõe uma sequência de empréstimos e operações com empresas intermediárias, em um curto intervalo de tempo, que teria sido utilizada para contornar as normas do Banco Central do Paraguai (BCP) e maquiar a situação do banco.

O BC decretou intervenção do Ueno na última terça-feira, após considerá-lo insolvente. Ou seja, o banco não conseguiria honrar seus compromissos nem tinha recursos para continuar funcionando. O episódio levou à prisão preventiva de oito executivos ou ex-executivos do Ueno, além da renúncia de Peña. Em sessão extraordinária nesta quinta-feira, após a divulgação da renúncia do presidente, a Câmara dos Deputados do Paraguai rejeitou o impeachment de Peña.

Ele foi sócio do grupo controlador do Ueno até março de 2025, dois anos após assumir a presidência do país. Na sua gestão, o banco deu um salto, levantando suspeitas de conflito de interesse. Cerca de 40% da população do Paraguai eram seus clientes. A instituição também administrava quase US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo dinheiro da Previdência e do Ministério da Saúde.

Exigências regulatórias

Na sua investigação, a Superintendência de Bancos do Paraguai, órgão que fiscaliza as instituições financeiras do país, constatou que os limites de crédito concedidos pelo Ueno a empresas do mesmo grupo econômico haviam sido ultrapassados — Grupo Hendy, Grupo M e Mowi. O BC, então, determinou a regularização imediata dessas exposições.

O jornal paraguaio revela que, para evitar possíveis sanções, o Ueno Bank decidiu transferir sua carteira de créditos em atraso, avaliada em US$ 74,4 milhões, para a empresa Vinanzas S.A.

O Hoy lembra que as normas do sistema bancário proíbem expressamente que uma instituição financeira financie, direta ou indiretamente, a aquisição de ativos por uma empresa a ela vinculada. No caso em questão, tanto o Ueno Bank quanto a Vinanzas fazem parte do Grupo Vázquez.

Assim, para cumprir as exigências regulatórias, a transação precisava ser caracterizada formalmente como uma venda à vista, paga com recursos da própria empresa compradora.

Fragilidade financeira

O relatório de fiscalização aponta que a empresa compradora não dispunha de recursos financeiros suficientes para realizar a transação. Em 14 de junho, véspera da assinatura do contrato, a Vinanzas tinha apenas US$ 93.828 disponíveis em todas as suas contas bancárias. Com um saldo tão baixo, a empresa não apresentava condições financeiras de arcar com o pagamento de US$ 74,4 milhões sem recorrer a financiamento externo.

A solução veio no dia seguinte. Em 15 de junho, o Ueno Bank colocou em prática uma operação paralela de captação de recursos, utilizando empresas intermediárias para movimentar o dinheiro. Veja como:

Repasse direto em operações relâmpago: o Ueno concedeu um empréstimo de US$ 20 milhões à Satec e outro de US$ 35 milhões à HD Invest E.A.S. Na mesma data, as duas empresas transferiram integralmente os US$ 55 milhões para uma conta da Vinanzas mantida no próprio Ueno Bank.

Triangulação financeira por meio de títulos: Simultaneamente, empréstimos concedidos à Factopar (US$ 6,84 milhões), Technoma S.A.E.C.A. (US$ 10 milhões) e La Tropa Fletes E.A.S. (US$ 10 milhões) foram direcionados ao mercado de capitais. Essas empresas adquiriram títulos que estavam em poder da ITTI S.A.E., Kasas Propiedades S.A.E., Grupo Vázquez S.A.E. e Model S.A. Na sequência, essas companhias injetaram mais US$ 21.061.604,13 na conta da Vinanzas, por meio de empréstimos e operações com instrumentos de renda fixa.

Ao final do mesmo dia 15 de junho, após a operação de captação de recursos, a conta bancária da Vinanzas havia recebido um crédito total de US$ 76.061.604,13, aponta o jornal.

Estratégia para dissimular a operação

De acordo com o jornal paraguaio, a operação de captação de recursos teria sido estruturada de forma fragmentada, com o objetivo de dificultar a fiscalização das autoridades reguladoras do setor.

Perante a Superintendência de Bancos, o Ueno Bank apresentou um contrato de compra e venda à vista que, do ponto de vista formal e jurídico, aparentava estar em conformidade com as exigências legais. Paralelamente, porém, a instituição omitiu que os US$ 74,4 milhões utilizados na transação tinham origem em empréstimos concedidos pelo próprio banco às empresas intermediárias.

A reportagem explica que a triangulação envolvendo títulos e financiamentos de terceiros funcionou como um mecanismo para encobrir a origem dos recursos e evitar que a operação fosse registrada como financiamento direto a uma empresa do mesmo grupo econômico.

A investigação da movimentação dos recursos entre as contas bancárias permitiu reconstruir o caminho do dinheiro, desmontar a estrutura da operação e revelar a existência de um financiamento indireto, prática vedada pelas normas bancárias, aponta o Hoy.

Presidente do Ueno diz que não sabia

Diante das revelações, a defesa de Juan Manuel Gustale, presidente do Ueno, diz que ele não sabia para onde ia o dinheiro. Seu advogado, José Fernández Zacur, atribuiu aos setores operacionais e técnicos da instituição a responsabilidade pelas irregularidades identificadas.

Zacur acrescentou que as decisões sobre a concessão de empréstimos não partem da cúpula da instituição, mas são atribuições dos comitês de risco, da gerência de crédito e do departamento comercial.

Segundo o advogado, os principais dirigentes do banco não tinham conhecimento sobre a destinação final dos recursos nem sobre uma eventual manipulação dos documentos apresentados para a obtenção dos financiamentos.

“O presidente ou o conselho de administração não são responsáveis por determinar quem será o beneficiário de um determinado empréstimo. Essa decisão chega à diretoria após passar pelo comitê de crédito e receber pareceres das áreas de risco e comercial. Esse trabalho não é realizado pelo conselho”, declarou o advogado.

Foto: Reprodução/Ueno

Por: O Globo, Com agências internacionais

RECOMENDADOS

MAIS POPULAR