quinta-feira, 23 abril, 2026
HomeSAÚDECientistas da USP e da Nova Zelândia descobrem 'interruptor' no cérebro que...

Cientistas da USP e da Nova Zelândia descobrem ‘interruptor’ no cérebro que dispara a pressão alta

Estudo mostra que neurônios ligados à respiração forçada também controlam vasos sanguíneos e silenciá-los normaliza a pressão; descoberta pode gerar novo tratamento

Uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, identificou uma região específica do tronco encefálico que pode estar por trás de parte dos casos de hipertensão arterial resistentes ao tratamento. O estudo foi publicado na Circulation Research, periódico da American Heart Association.

A estrutura investigada é a chamada região parafacial lateral, designada pela sigla pFL, localizada no tronco encefálico, a parte mais antiga do cérebro em termos evolutivos, responsável por funções automáticas como respiração, frequência cardíaca e digestão. A pFL é conhecida por seu papel na expiração forçada: ela entra em ação quando tossimos, rimos ou fazemos esforço físico intenso, coordenando a contração dos músculos abdominais que expelem o ar dos pulmões.

O que o estudo revelou é que essa região, em condições de hipertensão, extrapola sua função respiratória e passa a enviar sinais que constringem os vasos sanguíneos, elevando a pressão arterial.

Surpresa no laboratório

“Ficamos surpresos com esse resultado de que os neurônios da expiração ativa têm a capacidade de impactar a função cardiovascular. Isso tem implicações em condições patológicas, como a hipertensão arterial. Por isso, propusemos que a região parafacial lateral seja um possível alvo terapêutico para tratamento da hipertensão”, disse à Agência FAPESP o professor Davi José de Almeida Moraes, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e autor correspondente do artigo.

Moraes acrescentou que o achado é inédito: “Nunca tinha sido demonstrado que os neurônios que geram atividade expiratória se comunicavam com os que controlam a atividade simpática e o diâmetro dos vasos sanguíneos para impactar a pressão arterial.”

Nos experimentos realizados em ratos, os pesquisadores usaram técnicas de engenharia genética para ligar e desligar os neurônios da pFL. A ativação desses neurônios desencadeou uma cadeia de sinais no tronco encefálico que resultou em elevação da pressão arterial. Quando os mesmos neurônios foram inibidos em ratos hipertensos, a pressão voltou a níveis normais.

“Descobrimos que, em condições de pressão alta, a região parafacial lateral é ativada e, quando nossa equipe inativou essa região, a pressão caiu para níveis normais”, confirmou ao site ScienceAlert Julian Paton, fisiologista da Universidade de Auckland e coautor do estudo.

A ligação com a apneia do sono

Os achados também ajudam a explicar por que pacientes com apneia obstrutiva do sono têm maior propensão à hipertensão. Os neurônios da pFL são ativados quando há queda nos níveis de oxigênio no sangue ou acúmulo de gás carbônico, exatamente o que ocorre durante os episódios de interrupção da respiração que caracterizam a apneia. A hipótese é que esses episódios repetitivos mantenham a pFL cronicamente ativada, contribuindo para elevar a pressão de forma persistente.

Do ponto de vista terapêutico, a descoberta aponta uma estratégia que pode ser mais viável do que agir diretamente sobre o cérebro. Segundo os pesquisadores, a atividade da pFL pode ser modulada a partir de estruturas externas ao sistema nervoso central: os corpos carotídeos, pequenos aglomerados de células no pescoço que funcionam como sensores de oxigênio no sangue.

“Nossa proposta do ponto de vista terapêutico não é modular o sistema nervoso central diretamente, mas sim manipular farmacologicamente os sensores de oxigênio para reduzir a atividade dos neurônios da pFL”, explicou Moraes.

A equipe trabalha na adaptação de um medicamento já existente para inativar remotamente a região parafacial, sem a necessidade de uma droga que atravesse a barreira hematoencefálica — a estrutura que protege o cérebro de substâncias externas. A estratégia ainda precisará de validação em ensaios clínicos; os experimentos realizados até agora foram todos em modelos animais.

A hipertensão é um problema de saúde pública de escala global. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de um terço da população adulta mundial vive com a doença. No Brasil, segundo dados do Vigitel (Ministério da Saúde), aproximadamente 30% dos adultos são hipertensos e parte significativa desse grupo não tem o quadro sob controle mesmo fazendo uso de medicamentos.

O estudo da USP e da Universidade de Auckland reforça uma hipótese já presente na literatura científica: que, em pelo menos metade dos casos de hipertensão, há um componente neurológico subjacente, chamado de hipertensão neurogênica, que os tratamentos farmacológicos convencionais não conseguem endereçar adequadamente. Identificar os mecanismos específicos desse componente é o que pode abrir caminho para terapias mais precisas.

Por: Diogo Rodriguez

RECOMENDADOS

MAIS POPULAR