quinta-feira, 23 abril, 2026
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Cientistas criam o menor QR code do mundo

QR code microscópico gravado em cerâmica bate recorde e pode armazenar dados por séculos sem energia.

Um grupo de cientistas da TU Wien, a Universidade Técnica de Viena, na Áustria, em parceria com a empresa Cerabyte, criou o menor QR code do mundo. O código mede apenas 1,98 micrômetros quadrados, menor do que a maioria das bactérias, e só aparece em microscópio eletrônico. O feito chama atenção pelo tamanho, mas o ponto mais importante está na promessa de guardar dados por séculos, sem eletricidade nem manutenção constante.

A marca já entrou para o Livro dos Recordes do Guinness. O processo de verificação ocorreu diante de testemunhas, com participação conjunta da TU Wien e da Cerabyte. A Universidade de Viena atuou como verificadora independente.

O que torna esse QR code tão diferente

Fazer estruturas minúsculas já não basta para impressionar, porque a nanotecnologia avançou muito. O desafio real aparece quando a informação precisa continuar legível com o passar do tempo.

De acordo com Paul Mayrhofer, do Instituto de Ciência e Tecnologia dos Materiais da TU Wien, estruturas nessa escala já existem hoje. O problema é que isso, por si só, não garante um código estável e legível. Em tamanhos extremos, átomos podem mudar de posição ou preencher pequenas lacunas, o que apaga o conteúdo gravado.

Ou seja, o avanço aqui não está só em miniaturizar. Está em criar um código muito pequeno, mas que continue estável e possa ser lido repetidamente.

Cerâmica vira candidata para guardar conhecimento

A equipe gravou o QR code em uma fina camada cerâmica usando feixes de íons focalizados. Cada pixel mede 49 nanômetros. Isso equivale a algo cerca de dez vezes menor que o comprimento de onda da luz visível.

Na prática, o padrão fica invisível em condições normais. Um microscópio óptico comum não consegue separá-lo visualmente. Já um microscópio eletrônico lê o código com clareza e confiabilidade.

Esse material não foi escolhido por acaso. Erwin Peck e Balint Hajas explicam que filmes cerâmicos finos já aparecem no revestimento de ferramentas de alto desempenho. Nesses casos, o material precisa resistir a condições extremas. Essa mesma robustez interessa ao armazenamento de dados.

Por que isso importa fora do laboratório

Discos magnéticos e sistemas eletrônicos costumam degradar em poucos anos. Sem energia, resfriamento e manutenção, o risco de perda cresce ainda mais. A proposta da cerâmica segue outra lógica: gravar informação em um material inerte e durável, como civilizações antigas faziam ao registrar conhecimento em pedra.

Alexander Kirnbauer resume essa visão ao lembrar que vivemos na era da informação, mas ainda usamos mídias de vida curta. A ideia, agora, é aproximar o armazenamento moderno da longevidade das inscrições antigas.

A capacidade também impressiona. Mais de 2 terabytes caberiam na área de uma única folha A4 com essa técnica. Isso amplia o interesse pela solução em arquivos de longo prazo, preservação histórica e armazenamento com menor gasto energético.

O que vem depois

O recorde representa apenas o primeiro passo. A equipe quer testar outros materiais, acelerar a escrita e criar processos escaláveis para uso industrial. Os pesquisadores também buscam gravar estruturas mais complexas do que um QR code simples, sem perder robustez, velocidade e eficiência energética.

Assim, se essa rota avançar, o armazenamento digital pode ganhar algo raro hoje: uma mídia pensada para durar muito mais do que a vida útil dos aparelhos que usamos no dia a dia.

Imagem: TU Wien/Reprodução

Por: Hemerson Brandão

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