A corrida para desenvolver a IA física concentra-se na criação de mãos ágeis para transformar robôs humanoides de meras curiosidades em produtos úteis
As mãos humanas — membros ágeis e repletos de terminações nervosas, sendo a parte mais flexível do esqueleto humano — são excepcionalmente complexas. Muitas tarefas que a maioria das pessoas realiza quase sem pensar, desde amarrar os cadarços até abotoar uma camisa, exigem, na verdade, um conjunto complexo de instruções neurológicas e uma coreografia precisa. Em milhares de anos de história humana, nenhuma máquina foi capaz de replicar verdadeiramente a maior ferramenta do ser humano.
No entanto, agora que a inteligência artificial avança rapidamente, algumas empresas acreditam estar perto de superar esse último e mais difícil obstáculo da robótica, aponta uma reportagem do The Guardian. A maioria delas está na China.
Uma nova leva de startups chinesas está aproveitando as vantagens do país na manufatura e o entusiasmo pelo que o governo chama de “IA física” para construir mãos robóticas totalmente ágeis, necessárias para transformar robôs humanoides de atrações de dança em produtos úteis.
Especialistas em tecnologia e formuladores de políticas veem a robótica como a chave para destravar o futuro potencial econômico da China, num momento em que o país enfrenta o envelhecimento e a redução de sua força de trabalho. Materiais de marketing de empresas de robótica mostram seus produtos realizando todo tipo de tarefa da qual os humanos supostamente ficarão livres em breve: dobrar roupas, cozinhar, cortar cabelo.
Pequim tem enfatizado repetidamente a importância da IA física nos planos de desenvolvimento do país, destaca o Guardian. Em maio, a Qiushi, revista do Partido Comunista Chinês, publicou um relatório afirmando que os robôs com IA física estavam entre os setores que “abrem novos mercados de trilhões de yuans”.
Mas, embora a China esteja avançando rapidamente na implementação de autômatos — mais da metade dos robôs industriais instalados anualmente no mundo estão no país —, as aplicações práticas para humanoides permanecem mínimas.
“Humanoides verdadeiramente multifuncionais ainda estão distantes”, concluiu a Federação Internacional de Robótica em um relatório publicado em setembro passado. Isso ocorre porque muitas das tarefas que tornariam os humanoides úteis em ambientes cotidianos exigem mãos semelhantes às humanas. E fabricá-las é extremamente difícil. No ano passado, Elon Musk — cuja empresa, a Tesla, fabrica o humanoide Optimus — afirmou que as mãos representavam a “maior parte do desafio de engenharia de todo o robô”.
“100 vezes mais difícil”
Em um escritório repleto de mãos robóticas que se movem e flutuam, variando em peso e tamanho, o fundador da LinkerBot — uma das principais empresas chinesas especializadas em mãos robóticas de alta destreza — explica o desafio.
Fabricar uma mão robótica é “cem vezes mais difícil” do que fabricar um humanoide, afirmou Zhou Yong ao Guardian. “Sua destreza é dez vezes maior que a de outras partes do corpo. No entanto, seu volume é apenas um décimo do de outras partes do corpo”.
Assim como muitos empreendedores chineses, Zhou inspira-se nos grandes nomes dos EUA. Formado pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong — uma das instituições de ensino de elite da China —, Zhou interessava-se tanto pelo desenvolvimento de aplicativos quanto pela robótica. No entanto, ao ouvir a famosa frase de Steve Jobs sobre a importância do foco (“Inovação é dizer não a mil coisas”), decidiu concentrar-se exclusivamente em mãos, fundando a LinkerBot em 2023.
Atualmente, a empresa fabrica cerca de 5.000 mãos por mês e planeja dobrar esse número, visando uma avaliação de mercado de US$ 6 bilhões. “As mãos humanas representam a capacidade mais importante dos seres humanos”, afirma Zhou. “Se focarmos nesse ponto específico, torna-se mais fácil reproduzir muitas das habilidades humanas”.
Entre as ambições de Zhou está a produção em massa de próteses de mão para amputados a uma fração do preço atual, que pode chegar a dezenas de milhares de dólares. Zhou acredita que sua empresa conseguirá reduzir o custo para apenas US$ 1.000 por unidade.
A fabricação de mãos robóticas exige a resolução de problemas tanto de hardware quanto de software. Graças a uma cadeia de suprimentos de manufatura que é, ao mesmo tempo, econômica, sofisticada e ágil, as empresas chinesas estão avançando rapidamente no campo do hardware.
A ascensão da indústria de veículos elétricos na China gerou inúmeras empresas capazes de produzir, em larga escala, os componentes necessários para robôs — desde baterias de íon-lítio até motores miniaturizados.
Pan Yunzhe, fundador da Wuji Technology — uma empresa de mãos robóticas sediada em Shenzhen —, afirma que a facilidade de obter componentes na China foi o motivo pelo qual ele fundou sua empresa lá, em vez de nos EUA, onde se formou em 2018.
“Era praticamente impossível trabalhar com hardware nos Estados Unidos, pois os problemas na cadeia de suprimentos são extremamente limitantes”, diz ele. Quando tentou abrir uma empresa nos EUA, precisava pedir ao pai que lhe enviasse peças pelo correio. Por isso, decidiu voltar para a China e iniciar o negócio lá.
Ensinando as mãos a se moverem
Zhou e Pan são dois dos milhares de empreendedores que apostam na febre da robótica na China. O país já registrou mais de um milhão de empresas do setor de robótica, com um aumento de 40% nos registros em 2025 em relação ao ano anterior. As empresas focadas exclusivamente em mãos representam apenas uma fração desse mercado, mas o segmento está crescendo rapidamente. No ano passado, a indústria de mãos robóticas de alta destreza na China ultrapassou 50 bilhões de yuans (US$ 7,4 bilhões), um salto em relação aos 13 bilhões de yuans registrados em 2024.
Pan afirma que decidiu focar nas mãos porque “o problema da manipulação é muito mais importante do que o da locomoção”. Robôs humanoides conseguem se deslocar pelo espaço, mas, enquanto não forem capazes de manipular ferramentas, são praticamente inúteis.
O desafio maior reside no software: como ensinar essas mãos a realizar tarefas. “O desafio de fabricar essas mãos está sendo superado agora”, diz Nathan Lepora, professor de robótica e IA na Universidade de Bristol. “Já o controle delas… essa é uma história completamente diferente; ninguém sabe como fazer isso.”
Qualquer pessoa que já tenha tentado operar aquelas máquinas de garra em parques de diversões para pegar um bicho de pelúcia sabe como é difícil controlar uma máquina à distância — um processo conhecido como teleoperação.
No entanto, é exatamente isso que muitas startups estão tentando fazer em larga escala para coletar a enorme quantidade de dados necessária para treinar modelos de inteligência espacial. Ao contrário dos grandes modelos de linguagem, que podem ser treinados com volumes praticamente infinitos de texto disponíveis na internet, as fontes de dados para modelos tridimensionais são escassas.
Além da teleoperação de mãos robóticas — processo que pode exigir centenas de horas de treinamento para ensinar um robô a realizar uma tarefa simples, como empacotar compras de supermercado —, pesquisadores estão migrando cada vez mais para métodos mais fluidos. Um exemplo é o uso de sensores vestíveis por humanos, capazes de coletar dados enquanto as pessoas realizam suas atividades cotidianas.
Zhou, da LinkerBot, sonha com um futuro em que uma fábrica de mãos robóticas produza outras mãos robóticas — um ciclo de autoperpetuação com mínima intervenção humana. Mais adiante, contando com as mãos adequadas, os robôs poderão se tornar verdadeiros assistentes domésticos.
“Não estamos criando robôs para substituir a mão de obra”, afirma Zhou. “Estamos criando robôs para que os seres humanos possam ter uma vida melhor e mais próspera.”
Por: Época NEGÓCIOS


