quinta-feira, 23 abril, 2026
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China avança para Marte enquanto os EUA abandonam corrida espacial

Com o programa americano de retorno de amostras marcianas sem financiamento, a missão chinesa Tianwen-3 pode chegar primeiro ao Planeta Vermelho

Em julho de 2024, o rover Perseverance, da Nasa, se deparou com algo incomum: rochas marcadas com padrões que, na Terra, quase sempre indicam a presença de vida microbiana. Manchas semelhantes a sementes de papoula e a estampas de leopardo. Nada conclusivo, mas a mais sugestiva pista já encontrada sobre a possibilidade de vida fora da Terra.

O problema: para saber se aquelas marcas são mesmo rastros de biologia alienígena, é preciso trazer as rochas para laboratórios terrestres. E é exatamente isso que o programa Mars Sample Return (MSR), desenvolvido pela Nasa em parceria com a Agência Espacial Europeia, foi projetado para fazer.

No entanto, segundo reportagem do MIT Technology Review, o MSR chegou a 2026 sem um centavo de financiamento federal e sem perspectiva de que isso mude.

Enquanto isso, a China acelera em direção ao mesmo objetivo.

Décadas de liderança americana em risco

A Nasa explora Marte há 50 anos. Desde os landers Viking, em 1976, passando por uma série crescente de orbitadores, módulos de pouso e rovers, os Estados Unidos construíram uma vantagem técnica e científica considerável sobre qualquer outro país. O Perseverance, lançado em 2020, representa o estágio mais sofisticado dessa trajetória: um rover capaz de perfurar rochas, extrair amostras e armazená-las em recipientes selados para futura coleta.

O plano original do MSR era relativamente simples em conceito, mas complexo na execução: uma sequência de missões robóticas recuperaria os tubos de amostra deixados pelo Perseverance, lançaria o material em órbita marciana e o enviaria de volta à Terra até meados dos anos 2030. Uma missão europeia completaria o circuito, capturando as amostras e trazendo-as para o solo terrestre.

O que deu errado foi, essencialmente, a combinação de má gestão e custos fora de controle. Um relatório independente divulgado em setembro de 2023 concluiu que o programa havia sido organizado de forma descentralizada, sem uma liderança clara, e com expectativas de orçamento e cronograma irrealistas desde o início. O custo estimado subiu de US$ 5,3 bilhões para até US$ 11 bilhões, e a data de retorno das amostras foi projetada para os anos 2040, uma década além do previsto.

Mesmo após uma revisão que reduziu a estimativa para US$ 8 bilhões e apresentou alternativas mais enxutas, o programa não encontrou respaldo político. Em janeiro de 2026, o MSR foi efetivamente sepultado: a lei de gastos federal que preservou dezenas de outras missões da Nasa simplesmente ignorou o retorno de amostras marcianas. Sem menção, sem verba.

“Passamos 50 anos nos preparando para trazer essas amostras de volta. Estamos prontos para fazer isso”, disse Philip Christensen, cientista planetário da Universidade Estadual do Arizona, ao MIT Technology Review. “Agora estamos a dois passos da linha de chegada — ah, desculpe, não vamos concluir o trabalho.”

A China chega com passos firmes

Enquanto o programa americano se dissolvia em burocracia e disputas orçamentárias, a China construiu um histórico de sucesso espacial em ritmo acelerado. Em dezembro de 2020, a missão Chang’e-5 trouxe rochas da Lua pela primeira vez desde 1976. Em maio de 2021, a sonda Tianwen-1 pousou um rover em Marte na primeira tentativa, feito inédito para qualquer país em sua estreia no planeta. Em junho de 2024, a missão Chang’e-6 foi ainda mais longe: coletou amostras do lado oculto da Lua, algo nunca feito antes na história da exploração espacial.

Em maio de 2025, a China lançou a Tianwen-2, com destino a um asteroide próximo à Terra, para uma nova missão de coleta de amostras.

O passo seguinte foi anunciado em junho de 2025, quando pesquisadores chineses publicaram na revista científica Nature Astronomy os planos detalhados da Tianwen-3, a missão de retorno de amostras marcianas. O objetivo, conforme descrito no artigo, é coletar ao menos 500 gramas de material marciano e trazê-lo de volta à Terra por volta de 2031. A busca por sinais de vida passada ou presente em Marte é, segundo o estudo, a prioridade número um da missão.

“A seleção do local de pouso ainda está em andamento”, disse Li Yiliang, astrobiologista da Universidade de Hong Kong e coautor do estudo, ao MIT Technology Review. Yiliang integra a equipe de seleção do local de aterrissagem da missão.

O plano prevê o lançamento de dois foguetes em 2028: um carregando o conjunto lander-ascensor, responsável por pousar em Marte, coletar amostras com auxílio de um pequeno helicóptero e lançá-las em órbita; o outro, o módulo orbital, que capturará as amostras e as enviará de volta à Terra.

A missão é tecnicamente mais simples do que a americana, com menos componentes e menos pontos de falha potencial. Em contrapartida, as amostras serão coletadas em uma área geográfica restrita, o que limita a diversidade geológica do material obtido. Ainda assim, a simplicidade pode ser uma vantagem decisiva em termos de prazo.

Uma derrota científica e estratégica

Mesmo pesquisadores que nunca foram entusiastas do MSR reconhecem o peso do que está em jogo. Jack Mustard, geocientista da Universidade Brown e membro de um dos painéis que avaliou as propostas de reformulação do programa, resumiu o que muitos americanos ouvirão caso a China chegue primeiro: “Você é o segundo. Você perdeu.”

Além do simbolismo, há implicações concretas. O retorno de amostras de Marte é considerado um pré-requisito tecnológico para futuras missões tripuladas ao planeta, afinal, qualquer missão que leve astronautas até lá precisará antes demonstrar que é possível decolar da superfície marciana e retornar à Terra com segurança.

“Se não conseguimos fazer isso, como pensamos que vamos enviar humanos a Marte e trazê-los de volta em segurança?”, questionou Victoria Hamilton, geóloga planetária do Southwest Research Institute, ao MIT Technology Review.

Da parte chinesa, o desfecho também não é recebido com satisfação pura. “Se isso se tornar realidade, acredito que os chineses não ficarão tão felizes em vencer a corrida dessa forma”, disse Yiliang. Ele reconheceu que a comunidade científica americana foi uma referência fundamental para os pesquisadores chineses.

Para Christensen, o resumo é amargo: “Os EUA lideraram a exploração de Marte por 50 anos. E quando nos aproximamos de um dos momentos-chave da descoberta, estamos prestes a ceder essa liderança para outra pessoa.”

Por: Diogo Rodriguez

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