quinta-feira, 05 novembro, 2026
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Startup quer usar 50 mil satélites para vender luz do Sol durante a noite

Reflect Orbital planeja refletir luz solar do espaço sob demanda para operações de resgate e fazendas solares, mas astrônomos alertam para o risco de poluição luminosa e prejuízo às observações do céu

A Reflect Orbital é uma startup espacial que constrói e opera espelhos orbitais que permitem a iluminação controlada sem infraestrutura terrestre. Seu objetivo é oferecer um produto chamado de “luz solar como serviço”. Trata-se de luz solar refletida para a Terra sob demanda a partir de uma rede de cerca de 50.000 satélites equipados com espelhos gigantes.

Reportagem da Sky and Telescope relata que, posicionados a cerca de 625 quilômetros de altitude, os satélites ficariam voltados para o Sol mesmo sobre partes do globo mergulhadas na sombra noturna, refletindo a luz solar em um feixe de 5 quilômetros de largura.

Segundo a Reflect Orbital, ao direcionar luz solar à Terra durante a noite, é possível atender a uma variedade de clientes, desde operações remotas de busca e salvamento até fazendas solares que geram energia limpa.

A empresa realizou um teste, em outubro, no Condado de Inyo, em uma área desértica de Lone Pine, na Califórnia, Estados Unidos. Na ocasião, iluminou o local com refletores, simulando o efeito pretendido.

Dois grupos locais de busca e resgate voluntários foram convidados para uma sessão informativa e de testes de várias horas, onde eles carregaram macas e realizaram buscas.

A Sky and Telescope destaca que não está claro como a Reflect Orbital obteve permissão para realizar o teste. Tanto o administrador do terreno, o Bureau of Land Management (BLM), quanto o governo local do Condado de Inyo informaram que desconheciam a ação.

Um porta-voz da empresa, no entanto, afirmou à reportagem que o teste foi “totalmente autorizado” e que a Base Aérea de Edwards, no condado vizinho de Kern, e os moradores locais foram notificados com antecedência.

Astronômos são contrários

O serviço que a Reflect Orbital pretende oferecer tem deixado astrônomos preocupados. Eles temem que os feixes possam saturar o céu com luz difusa longe de sua trajetória direta, tornando quase impossível para telescópios ópticos e infravermelhos terrestres observarem objetos, mesmo que moderadamente brilhantes, ou rastrearem objetos transitórios.

Outra questão são os potenciais impactos sobre animais noturnos ou o aumento geral da poluição luminosa, especialmente em áreas remotas, até então protegidas da luz artificial à noite.

“[A luz solar automática] essencialmente ignora todo o progresso que fizemos nas últimas décadas para conscientizar e diminuir a poluição luminosa”, disse o astrofísico Gaspar Bakos, da Universidade de Princeton, à Sky and Telescope.

Em agosto, ele Bakos e colegas publicaram um artigo concluindo que os feixes da startup poderiam iluminar o ambiente ao redor em um raio de até 30 quilômetros com um brilho semelhante ao do crepúsculo. Cada satélite individual também apareceria no céu como uma fonte pontual quatro magnitudes mais brilhante que a Lua.

“Isso não é uma ‘preocupação’ é como uma bala na cabeça. É o fim da astronomia terrestre”, enfatizou o astrofísico.

Michelle Wooten, pesquisadora de educação em astronomia na Universidade do Alabama, em Birmingham, acrescentou: “A grande questão que se coloca é: a quem pertence o céu noturno? Acredito firmemente que as pessoas deveriam ter voz ativa sobre a aparência do seu céu noturno”.

Apesar dos protestos da comunidade astronômica e de uma petição apresentada pela Sociedade Astronômica Americana, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) aprovou em julho o pedido da Reflect Orbital para implantar um satélite de demonstração, chamado Earendil-1, com um espelho de 18 por 18 metros.

Em outubro, a startup anunciou a aquisição de dois lançamentos da Skyroot Aerospace. O primeiro utilizará o foguete Vikram-1 e, o segundo, o foguete Vikram-1U, atualmente em desenvolvimento. As datas de quando eles acontecerão ainda não foram divulgadas.

Foto: Divulgação

Por: Renata Turbiani

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