Cúpula na Casa Branca mantém a distensão entre as duas maiores economias do mundo, mas termina sem um acordo mais amplo para disputas que envolvem tecnologia, minerais críticos e comércio
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu o líder chinês Xi Jinping na Casa Branca nesta quinta (24) para uma visita de Estado com desfile militar, sobrevoo de bombardeiro e jantar de gala com executivos de tecnologia. Nas conversas a portas fechadas, porém, os dois países não anunciaram avanços nos temas que mais pesam para empresas e mercados, entre eles inteligência artificial, controle de exportação de chips e fornecimento de terras raras.
A principal decisão econômica saiu na véspera. Segundo as agências Reuters e Associated Press e o jornal Financial Times, Washington e Pequim concordaram em prorrogar por dois meses a trégua comercial de um ano que venceria em 10 de novembro, enquanto negociam um acordo mais duradouro. Foi a primeira visita de Xi à capital americana em mais de uma década, e as conversas no Salão Oval duraram cerca de 90 minutos.
Trégua curta, pendências antigas
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou que a extensão dá aos dois governos “mais tempo para ver o que podemos fazer na frente econômica”. O prazo ficou abaixo do que os dois lados vinham sinalizando. De acordo com a PBS, a China queria estender a trégua até o fim do mandato de Trump, em janeiro de 2029, enquanto integrantes do governo americano defendiam de três a seis meses, citando a lentidão chinesa em cumprir compromissos anteriores.
Esses compromissos seguem incompletos. Bessent disse que Pequim vem cumprindo a meta de comprar 25 milhões de toneladas de soja americana, mas está atrasada na promessa de adquirir US$ 17 bilhões em outros produtos agrícolas. Autoridades dos EUA também relataram que as entregas de terras raras estão abaixo do combinado.
Na prática, a prorrogação empurra para a próxima rodada de negociação as questões centrais da relação comercial, como tarifas, compras chinesas, oferta de terras raras e restrições tecnológicas. Para as empresas, as tarifas continuam mais baixas por enquanto, mas decisões de investimento seguem sendo tomadas sob regras que podem mudar em poucas semanas.
Terras raras, o trunfo de Pequim
Terras raras são minerais indispensáveis para a fabricação de materiais avançados e equipamentos de alta tecnologia, usados em ímãs que vão de motores de carros a caças militares. A China é a maior produtora mundial e passou a usar o acesso a esses insumos como instrumento de pressão nas negociações desde que Trump impôs tarifas amplas no ano passado.
Os números mais recentes chegaram dias antes da cúpula. Dados oficiais da alfândega chinesa mostram que os envios de ímãs de terras raras para os EUA caíram para 512 toneladas em agosto, queda de 13% em relação ao mesmo mês de 2025 e de 20% ante julho. O volume está bem acima do fundo do poço de maio de 2025, quando as exportações somaram 46,4 toneladas logo após o tarifaço batizado por Trump de “Dia da Libertação”. Mesmo assim, os preços seguem elevados, e associações empresariais temem novos cortes no fornecimento.
Washington avalia que a China não cumpriu integralmente o compromisso de abastecimento ininterrupto, um dos pilares da trégua firmada entre os dois líderes em Busan, na Coreia do Sul. Em nota publicada em setembro, a consultoria Capital Economics apontou que os embarques de metais de terras raras para os EUA recuam no ritmo mais rápido desde a pandemia. “Pequim parece disposta a testar os limites da trégua”, escreveram os analistas, segundo os quais as licenças de exportação vêm sendo aprovadas de forma lenta e seletiva.
A restrição não se limita aos americanos. Em agosto, as exportações chinesas de ímãs de terras raras caíram 17% para o Japão e 22% para a Alemanha na comparação anual. O Royal United Services Institute (Rusi), centro de estudos britânico de segurança, alertou em junho que o sistema de licenças também permite a Pequim reunir informações detalhadas sobre as cadeias de suprimento de empresas ocidentais. EUA e países europeus ampliaram investimentos para montar uma cadeia de fornecimento sem a China, mas muitos analistas estimam que uma mudança significativa ainda levará anos, ou décadas.
IA divide os líderes
No assunto inteligência artificial, Trump e Xi chegaram à Casa Branca com discursos opostos. Em publicação nas redes sociais horas antes do encontro, o presidente americano, que tenta rebatizar a tecnologia de “superinteligência”, disse que pretende deixar o setor sem novas regras. “Quero deixar exatamente onde está”, escreveu, afirmando que a China teria a mesma posição e que o Departamento de Justiça bastaria para lidar com eventuais problemas.
Xi seguiu outra direção em seu discurso de abertura. Para o líder chinês, os dois países têm capacidade e responsabilidade de desenvolver e gerir a IA para o bem, garantindo que ela esteja “sempre sob controle humano”. Segundo o comunicado oficial chinês, Xi também propôs manter o diálogo bilateral sobre o tema, trocar avaliações sobre riscos e benefícios e atuar em conjunto para evitar usos abusivos da tecnologia.
O terreno para essa conversa foi preparado no domingo (20), em Nova York, quando Bessent se reuniu com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng. Na ocasião, os EUA propuseram um mecanismo de notificação pelo qual os dois países se alertariam sobre incidentes com IA graves o bastante para afetar a segurança nacional. O representante comercial americano, Jamieson Greer, esclareceu que os controles de exportação de chips avançados e de equipamentos para fabricar semicondutores ficaram fora da proposta. O Ministério do Comércio chinês confirmou nesta quinta-feira que aquelas foram as primeiras conversas formais entre os dois governos sobre IA.
Chips fora da pauta
Mesmo sem espaço oficial na agenda, os semicondutores pairaram sobre a visita. Xi quer que Washington afrouxe as restrições à exportação de chips de ponta para a China. O governo Trump já flexibilizou parte dessas regras, o que permitiu à Nvidia e à AMD vender determinados modelos no mercado chinês. No Senado, a oposição democrata aproveitou a visita para cobrar a votação de projetos que restringem o acesso chinês a chips avançados.
Do lado chinês, empresas como Huawei e Alibaba lançaram novos chips e modelos de IA nas semanas anteriores à cúpula. Para analistas ouvidos pela CNBC, os anúncios reforçam o argumento de Pequim de que as restrições americanas atrasam, mas não impedem, o avanço tecnológico do país.
A lista de 130 convidados do jantar de Estado incluiu Jeff Bezos, da Amazon, Jensen Huang, da Nvidia, e Elon Musk, da Tesla e da SpaceX. Sundar Pichai, da Alphabet, e Sam Altman, da OpenAI, também eram esperados. Nenhum executivo de empresa chinesa estava presente, embora a inclusão de nomes de companhias chinesas tenha sido discutida durante o planejamento. Segundo uma pessoa envolvida na organização, a demora do lado americano em definir protocolos e o papel desses executivos foi um dos obstáculos.
Parte dos especialistas avaliou o encontro como pobre em substância. Danny Russel, ex-diplomata do Departamento de Estado no governo Barack Obama e hoje pesquisador do Asia Society Policy Institute, observou que os líderes passaram mais tempo em eventos sociais e cerimoniais do que em negociações. Ele chamou o formato de “diplotainment”, junção das palavras diplomacia e entretenimento em inglês, e disse que isso pouco ajuda a resolver os problemas da relação.
Taiwan e Irã como pano de fundo
Segundo a agência estatal chinesa Xinhua, Xi pediu que os EUA tratem a questão de Taiwan com prudência e se oponham à independência da ilha, uma formulação mais dura do que a adotada historicamente por Washington, que diz apenas não apoiá-la. Após o encontro anterior entre os dois, em maio, em Pequim, Trump afirmou que estava segurando a aprovação final de um pacote recorde de US$ 14 bilhões em armas para Taiwan.
Xi voltou a mencionar a “armadilha de Tucídides”, teoria segundo a qual a disputa entre uma potência em ascensão e outra estabelecida tende a terminar em guerra, e disse que esse risco pode ser superado. Sobre o Irã, onde a guerra se aproxima de sete meses, o líder chinês declarou apoio à retomada do acordo provisório firmado em junho, que ruiu pouco depois da assinatura, segundo a emissora estatal CCTV.
A Casa Branca não havia divulgado um resumo oficial das conversas até a noite de quinta. O próximo teste da relação comercial tem data marcada, já que a trégua prorrogada vence em janeiro.
Por: Diogo Rodriguez


