terça-feira, 16 junho, 2026
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EUA gastam mais de R$ 5 bilhões com segurança na Copa do Mundo de 2026 – e metade desse valor é com drones

Verba federal vai para sistemas contra drones e câmeras com inteligência artificial; especialistas questionam o destino da estrutura após o torneio

O governo dos Estados Unidos comprometeu mais de US$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões) com a segurança da Copa do Mundo de 2026. A quantia ajuda a medir a escala de um torneio que reúne 48 seleções, 104 partidas distribuídas por 11 cidades americanas e mais de 5 milhões de ingressos vendidos. Segundo a revista Fast Company, o dinheiro vem de dois programas federais com finalidades distintas.

O primeiro, de US$ 625 milhões, é tocado pela FEMA, a agência federal de gestão de emergências, e cobre a preparação geral de segurança. O segundo, de US$ 500 milhões, mira uma ameaça específica: os drones. Desse montante, US$ 250 milhões já foram repassados aos estados que sediam jogos. Para coordenar a resposta, o Departamento de Segurança Interna criou em janeiro um escritório dedicado a aeronaves não tripuladas, enquanto a Casa Branca montou uma força-tarefa por decreto, presidida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Por que metade do orçamento mira o céu

A decisão de destinar parte tão grande do dinheiro a drones tem base nos números do esporte americano. De acordo com a chefe de segurança da NFL, Cathy Lanier, as invasões não autorizadas desse tipo de aeronave sobre estádios da liga saltaram de 67, em 2018, para 2.845 em 2023, um aumento de 42 vezes. Em pelo menos dois jogos de playoff, partidas precisaram ser paralisadas depois que drones entraram no espaço aéreo restrito.

Conter esses aparelhos em um estádio cheio é mais complicado do que parece. Bloquear o sinal de rádio do drone pode derrubar também a comunicação interna do estádio, e sistemas que abatem o equipamento podem espalhar destroços sobre a plateia. Com dezenas de milhares de pessoas embaixo, nenhuma das duas opções é viável. Empresas do setor oferecem uma alternativa de software: identificar a aeronave, assumir o controle dela pela própria frequência de rádio e conduzi-la a um ponto de pouso seguro, sem interferir no ambiente ao redor.

A parte legal só foi resolvida recentemente. Em 18 de dezembro de 2025, Trump sancionou a chamada Safer Skies Act, lei que deu a agências estaduais e locais autoridade para detectar e neutralizar drones considerados ameaça, algo antes restrito ao governo federal. O prazo para colocar as regras em prática terminava 180 dias depois, justamente no mês de abertura do torneio, o que deixou a autoridade existindo no papel antes de a estrutura para usá-la estar pronta.

Dentro dos estádios, o desafio é outro: monitorar multidões em movimento e centenas de câmeras ao mesmo tempo, mais do que qualquer equipe humana consegue acompanhar. Parte da resposta tem sido transformar as câmeras já instaladas em sistemas com inteligência artificial, capazes de analisar as imagens e disparar alertas apenas quando identificam algo relevante, reduzindo o volume de avisos falsos.

A vigilância que não recua

Há, porém, uma pergunta que o US$ 1 bilhão não responde: o que acontece com toda essa estrutura quando o torneio terminar, em julho. A preocupação central de pesquisadores ouvidos pela reportagem é que aparelhos de vigilância raramente são desmontados depois de instalados.

Matt Bailey, fundador da consultoria Neon Civics, voltada a privacidade e vida cívica, resume o problema: o hardware é durável, os contratos de serviço também, e os programas tendem a crescer com o tempo, não a encolher. Jay Stanley, da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), nota o mesmo padrão pelo lado jurídico, ao apontar que há poucas barreiras legais para estender o uso de estruturas montadas para eventos pontuais.

O histórico dá base ao argumento. Câmeras temporárias instaladas no percurso da Maratona de Boston, após o atentado de 2013, acabaram incorporadas à rede permanente de vigilância da cidade. Na França, o sistema de monitoramento com inteligência artificial usado nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, começou a ser empurrado para virar definitivo por políticos antes mesmo do fim da competição.

Em uma das sedes da Copa, o tema já apareceu. No estádio SoFi, em Los Angeles, cerca de 2 mil trabalhadores de alimentação atuaram sob um contrato negociado dias antes pelo sindicato Unite Here Local 11, com restrições ao uso de automação e proteções de privacidade, incluindo a proibição de obrigar funcionários a entregar dados pessoais sensíveis para o credenciamento da Fifa.

A discussão ganha urgência diante de um evento ainda maior na fila, as Olimpíadas de Los Angeles, em 2028, em uma das cidades mais densamente povoadas do país. Para Bailey, a Copa funciona como um teste de estresse para a lei de privacidade da Califórnia, que dá ao estado instrumentos de proteção, desde que aplicados com rigor. O argumento que ele e outros defensores apresentam é direto: terminado o torneio, cabe a autoridades estaduais e a representantes eleitos explicar o que foi instalado, com qual finalidade e em que prazo será desativado.

Por: Diogo Rodriguez

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