terça-feira, 09 junho, 2026
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Matemáticos alertam: não confiem cegamente na IA

Matemáticos criaram a Declaração de Leiden para alertar sobre os riscos do uso de inteligência artificial em estudos complexos da matemática.

Uma das utilidades atribuídas à inteligência artificial é a resolução de problemas matemáticos complexos. Este é um avanço totalmente benéfico para a humanidade, certo? Não é bem assim. Para os matemáticos, pesquisadores e historiadores que criaram a Declaração de Leiden, o uso de IA para esse fim requer muito cuidado.

A Declaração de Leiden sobre Inteligência Artificial e Matemática, como é chamada na íntegra, é um manifesto público que foi elaborado após cerca de 60 acadêmicos se reunirem na Universidade de Leiden, nos Países Baixos, para tratar da “mecanização” da pesquisa matemática.

O encontro foi realizado em setembro de 2025 e contou com a participação de matemáticos, especialistas em computação, filósofos, historiadores e cientistas sociais. Depois do evento, um grupo de trabalho foi formado para elaborar a declaração e, então, divulgá-la de modo amplo, a ponto de alcançar de indivíduos a organizações governamentais.

A iniciativa conta com o apoio da União Internacional de Matemática.

Mas o que diz a Declaração de Leiden?

A Declaração de Leiden foi publicada em 2 de junho de 2026, mas não com a ideia de proibir o uso de IA em estudos ou resoluções de problemas matemáticos. O objetivo principal é alertar que essa prática deve ser conduzida com cuidado por haver vários riscos associados a ela.

Um deles é o fato de que mecanismos de inteligência artificial tendem a apresentar resultados de modo tão convincente que parece não haver erros ali, mesmo quando há:

Este é um problema sério: a pesquisa em matemática (…) quase sempre se baseia em pesquisas anteriores, portanto, é essencial que os pesquisadores saibam se os resultados na literatura estão corretos.

Rascunhos imprecisos gerados por IA são baratos de produzir e há o risco de saturar a literatura com resultados alegados que são simplesmente errados. Uma vez que isso aconteça, os erros provavelmente se propagarão à medida que novos resultados forem construídos sobre fundamentos falhos.

Leslie Ann Goldberg, Chefe do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Oxford

Mas os possíveis problemas não terminam aí. O manifesto também tem apontamentos como:

  • tendência de a IA produzir resultados sem indicar adequadamente as fontes humanas originais;
  • divulgação exagerada da capacidade da IA de resolver problemas matemáticos, o que ocorre quando não há uma avaliação científica rigorosa sobre o resultado apresentado;
  • risco de ferramentas de IA avançadas serem acessadas de modo desigual entre os pesquisadores, causando um cenário de “abismo tecnológico” no meio acadêmico;
  • possibilidade de empresas de tecnologias dominarem o setor a ponto de pesquisas matemáticas sem valor comercial, mas importantes do ponto de vista científico ou acadêmico, serem deixadas de lado.

O que a Declaração de Leiden pede?

Basicamente, o manifesto pede para governos serem rigorosos na regulamentação da indústria de inteligência artificial e não confiarem cegamente nesse tipo de tecnologia, até porque ela é guiada predominantemente por interesses comerciais.

Mas também há “recados” para matemáticos e organizações. Para o primeiro grupo, a Declaração de Leiden pede que pesquisadores sejam transparentes sobre o uso de IA em seus trabalhos, não posicionem sistemas do tipo como coautores e sejam criteriosos na escolha das ferramentas.

Para organizações (como instituições de ensino ou pesquisa) e publicações científicas, o manifesto pede para que trabalhos que passaram pela IA sejam checados com critérios rigorosos e a adoção de medidas para evitar que artigos desenvolvidos por humanos sejam usados para o treinamento de ferramentas de IA comerciais sem a devida autorização.

Esta é a página da Declaração de Leiden. Quando esta notícia foi publicada, mais de 2.000 pessoas ao redor do mundo já haviam feito uma assinatura de apoio ao manifesto, sendo a maioria formada por pesquisadores e professores universitários.

Por: Emerson Alecrim

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