O avanço da inteligência artificial, da robótica e da computação quântica promove uma disputa acirrada por minerais, energia e água – e dá uma oportunidade única ao Brasil
Quando meu irmão mais novo tinha uns 3 anos, ficou chocado ao assistir a uma cena de pesca de atum na TV. Espantado com a crueza da ação, perguntou: por que eles não compram o atum de latinha no supermercado? A reação dele é um bom exemplo de como todos nós – independentemente da idade – pensamos pouco em como o que compramos chega até nós. Por trás das cadeias produtivas, esconde-se um mundo fascinante e complexo. Um mundo que hoje encontra-se em ebulição. O avanço da inteligência artificial, da robótica e da computação quântica promove uma disputa acirrada por minerais, energia e água – e dá uma oportunidade única ao Brasil.
Os minérios que movem os chips de IA se tornaram peças centrais da geopolítica, como mostramos nesta edição. A China concentra 70% da extração e 90% do refino mundial de terras raras. Sem essa produção, o Vale do Silício para. A concentração gera preocupações ao redor do globo e tem motivado inúmeras iniciativas para reduzir a dependência chinesa. O Brasil é um dos países que mais têm a ganhar nesse contexto. É dono da segunda maior reserva de terras raras do mundo e tem uma matriz energética limpa, num momento em que a sede de energia é avassaladora, mas as mudanças climáticas exigem a redução das emissões de carbono.
Dados do Gartner estimam que os data centers possam demandar até 500 terawatts-hora (TWh) em 2027, o equivalente ao consumo de cerca de 46 milhões de residências, um crescimento de 160% no consumo de eletricidade em relação ao nível atual. Essas novas “fábricas de inteligência” estão exigindo investimentos bilionários. A demanda é tão explosiva que especialistas alertam para apagões e custos crescentes para consumidores e governos. O Brasil já atrai a atenção mundial como parte da solução para o problema, como mostram os R$ 200 milhões anunciados em dezembro de 2025 pela ByteDance, dona do TikTok, para inaugurar um data center no complexo portuário de Pecém, no Ceará. A necessidade de energia limpa, hoje, é tão grande que até ideias antes improváveis ganham força, como a construção de data centers no espaço. A Starlink, de Elon Musk, é uma das empresas que trabalham com o conceito.
A demanda por água, necessária para resfriar os servidores, também é motivo de preocupação. Pesquisadores da ONU alertaram em janeiro deste ano que o mundo entrou em uma “era de falência hídrica global”, com muitas regiões incapazes de se recuperar da frequente falta de água.
Com a pressão sobre água, energia e minérios se intensificando, é preciso inovar. Além da força das big techs, já vemos startups trabalhando para redesenhar processos inteiros: de mineração circular a resfriamento espacial, passando por baterias mais limpas e cadeias produtivas rastreáveis.
Vivemos uma época de oportunidades promissoras, mas também de riscos inegáveis. A economia se reinventa ao mesmo tempo em que a Terra dá sinais claros de ter atingido o limite. Navegar esse cenário exigirá escolhas difíceis. Tecnologia, como sempre, é meio, não fim. Qual futuro queremos construir?
Por: Elisa Campos


