terça-feira, 18 agosto, 2026
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Voyager: como a NASA consertou uma espaçonave fora do Sistema Solar

Manobra reorganizou sistemas de energia e aquecimento da sonda para manter três instrumentos científicos funcionando por mais tempo

NASA encontrou uma maneira de economizar quase 10 watts de energia na Voyager 2 e prolongar a operação científica da espaçonave, que está há quase 50 anos no espaço. A estratégia, apelidada de “Big Bang”, foi executada por engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) e envolveu desligar determinados equipamentos e substituí-los por alternativas que consomem menos energia.

A operação foi necessária porque a fonte de energia das Voyager está diminuindo gradualmente. Os geradores termoelétricos de radioisótopos (RTGs) convertem em eletricidade o calor produzido pelo decaimento do plutônio, mas a redução contínua desse material faz com que cada sonda perca cerca de 4 watts de potência por ano. Sem a nova estratégia, a NASA teria precisado desligar outro instrumento científico da Voyager 2 antes do fim de 2026.

O desafio era economizar sem deixar a sonda congelar

A Voyager 2 depende de energia não apenas para seus instrumentos científicos, mas também para manter determinados componentes aquecidos. Um dos problemas enfrentados pelos engenheiros é garantir que as linhas que transportam o combustível dos propulsores permaneçam em uma temperatura adequada.

Por isso, simplesmente desligar equipamentos que consomem energia não seria suficiente. A equipe precisava encontrar uma combinação que reduzisse o gasto elétrico sem comprometer o aquecimento necessário para manter a espaçonave funcionando. A solução foi fazer várias mudanças simultaneamente, em vez de alterar os sistemas de maneira isolada.

Na prática, o “Big Bang” desligou três dispositivos usados para manter aquecidas as linhas de combustível e ativou outros três equipamentos capazes de cumprir a função com menor consumo. Entre os dispositivos desligados estava um antigo gravador de fita digital, que continuava ligado mesmo depois de deixar de ser usado porque seu funcionamento residual ajudava a produzir calor.

Os equipamentos substitutos incluíram dois aquecedores diferentes e um instrumento de propulsão. A combinação foi planejada para preservar a temperatura necessária e, ao mesmo tempo, reduzir a demanda de energia em quase 10 watts.

NASA testou a mudança antes de torná-la permanente

A estratégia exigiu uma sequência de testes antes da implementação definitiva. Segundo o New York Times, a equipe começou a testar a nova configuração em maio, mantendo a Voyager 2 nela por 40 minutos. O objetivo era verificar se sistemas como o aquecedor próximo ao antigo gravador funcionariam como previsto.

Um mês depois, a espaçonave permaneceu por seis horas na configuração para que os engenheiros pudessem comparar as temperaturas observadas com as previsões. Somente depois dessas etapas a mudança foi tornada permanente, em julho.

A cautela se explica pela distância da Voyager 2. Cada comando enviado à espaçonave leva dias para ser confirmado, já que o sinal precisa percorrer a distância entre a Terra e a sonda e retornar. A equipe, portanto, não consegue corrigir imediatamente um problema caso uma alteração não produza o resultado esperado.

Três instrumentos continuam ativos

A economia de energia permitiu preservar os três instrumentos científicos que ainda funcionam na Voyager 2. Cada uma das sondas começou a missão com dez instrumentos, mas a redução da energia disponível levou a NASA a desligar equipamentos ao longo dos anos.

Atualmente, a Voyager 2 opera com 216 watts, enquanto apenas três de seus dez instrumentos continuam coletando dados. Na Voyager 1, que dispõe de um pouco menos de energia, dois instrumentos permanecem ativos.

A NASA afirma que, sem o “Big Bang”, outro instrumento da Voyager 2 precisaria ser desligado antes do final de 2026. Com a energia liberada pela manobra, os três equipamentos restantes devem continuar funcionando por pelo menos mais um ano.

A equipe agora pretende aplicar uma estratégia semelhante à Voyager 1, que está mais distante da Terra do que sua sonda irmã. A previsão é concluir o trabalho nos próximos meses.

A economia não elimina o problema de longo prazo. A produção de energia dos RTGs continuará diminuindo e os engenheiros sabem que as Voyager estão cada vez mais próximas do fim de suas operações. Ainda assim, para uma missão que começou em 1977, alguns watts podem representar tempo adicional para continuar recebendo dados do espaço interestelar.

Imagem: NASA/JPL-Caltech

Por: Ana Luiza Figueiredo

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