Empresas que estão construindo não apenas para usuários humanos, mas também para os agentes que os representam, terão vantagens e sairão na frente dos concorrentes
Há um tempo a web deixou de ser feita apenas para pessoas. Desde o início dos buscadores, escrevemos para máquinas. Para que os buscadores pudessem ler, indexar e classificar nossos sites.
O que muda agora é o tipo de máquina que está do outro lado. Se antes otimizávamos títulos e meta-tags para aparecer nas buscas, hoje precisamos criar experiências compreensíveis para modelos de linguagem.
Estamos projetando produtos que são consumidos por humanos e interpretados por inteligências artificiais ao mesmo tempo.
Há empresas que já entenderam isso e estão adaptando seus conteúdos para serem compreendidos por modelos de linguagem, não apenas indexados… “LLM Optimization”: páginas pensadas para que agentes conversacionais consigam interpretar contexto, propósito e estrutura. O desafio é que o conteúdo seja compreendido pela IA.
No e-commerce, o movimento é ainda mais evidente. Walmart e OpenAI firmaram parceria para permitir compras diretamente pelo ChatGPT, inaugurando o chamado agentic commerce: experiências em que o agente de IA faz o trabalho todo. A pessoa não entra mais no aplicativo — apenas diz: “Quero comprar café e papel toalha”, e o agente cuida de tudo.
Por trás disso, o MCP (Model Context Protocol) conecta o e-commerce diretamente à IA, expondo dados como catálogo, preço, entrega e pagamento de modo que o agente compreenda e execute sozinho. O Google, por sua vez, apresentou o protocolo AP2 (Agent Payments Protocol), um padrão para que agentes possam concluir transações de forma segura e auditável.
Com os mesmos protocolos aplicados ao sistema financeiro, o usuário não precisa pedir nada. O agente observa o comportamento de gastos, entende padrões e age automaticamente.
Percebe, por exemplo, que as despesas do mês diminuíram e ajusta o planejamento: transfere uma parte para investimentos, reserva outra para poupança e mantém o restante em conta. Se identifica um aumento de gastos fixos, reduz o aporte e avisa: “Notei que este mês suas contas subiram. Ajustei sua meta de economia para R$ 300 e reagendarei o restante caso haja sobra.”
Tudo isso acontece em segundo plano, sem comandos explícitos. O agente tem acesso ao saldo, histórico, limites, perfil de risco e objetivos e toma decisões baseadas em aprendizado contínuo. Ele não pergunta o que você quer fazer com o dinheiro, ele já sabe o que faz sentido para você.
Nesse modelo, o canal deixa de ser o “aplicativo” e se torna um serviço, conectado via MCP a uma rede de agentes que gerenciam finanças em tempo real.
O dilema do produto é entender quem realmente está usando o seu sistema. Quando um agente de IA interage com uma interface, ele não precisa de um botão bonito, mas de uma API bem estruturada; não busca estética, mas semântica.
As empresas que perceberem isso primeiro terão vantagem: estarão construindo não apenas para usuários humanos, mas também para os agentes que os representam.
Porque, a pergunta que define o roadmap do seu produto digital é: seu produto está sendo construído para humanos ou para IA?
Por: Rogério Melfi


