Declaração financeira mostra ganho recorde do presidente com criptomoedas, enquanto dois terços dos compradores do memecoin $TRUMP amargam prejuízo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faturou cerca de US$ 1,4 bilhão (R$ 7 bilhões) com negócios ligados a criptomoedas ao longo do último ano, segundo uma declaração financeira apresentada nesta semana. O valor contrasta com a situação de boa parte dos investidores que compraram os ativos digitais associados à família presidencial: a maioria deles está no vermelho.
A informação foi revelada pelo jornal The Wall Street Journal, que teve acesso ao documento e ouviu investidores afetados pelas perdas. Do total declarado, US$ 800 milhões vieram de tokens emitidos pela World Liberty Financial, projeto de criptomoedas fundado por Trump e seus filhos em setembro de 2024.
Enquanto o presidente lucrava, quem apostou nos ativos digitais ligados a seu nome viu boa parte do valor evaporar. É o caso de Morten Christensen, empresário do setor de criptoativos que investiu quantia expressiva em tokens da World Liberty Financial na expectativa de acelerar a própria aposentadoria. Com a queda no valor dos ativos, o plano não se concretizou. “No mundo cripto, dizem que jogo é jogo”, afirmou Christensen ao WSJ. “Ele jogou melhor do que eu.”
Onde ficaram as perdas
Segundo levantamento da empresa de análise de dados Nansen, que rastreou 1,48 milhão de carteiras que compraram o token $TRUMP desde o lançamento, em janeiro de 2025, cerca de dois terços dos investidores estão atualmente no prejuízo. Uma análise mais detalhada de 26.663 carteiras mostrou que 85% dos compradores do token WLFI, da World Liberty Financial, no mercado secundário, também registram perdas.
O $TRUMP foi lançado dias antes da posse presidencial e chegou a somar um valor de mercado de quase US$ 15 bilhões. Desde então, recuou 97% e hoje soma cerca de US$ 400 milhões. Parte dos compradores adquiriu o token não apenas como investimento, mas para garantir presença em eventos promovidos pelo presidente, como o jantar promocional realizado para os maiores detentores da moeda em 2025.
Um desses casos é o de Vincent Deriu, consultor de 28 anos que vive em Nova York. Ele adquiriu tokens $TRUMP no lançamento e ampliou a posição para se qualificar ao jantar, reduzindo a quantidade de moedas pela metade até o fim de 2025. Ainda assim, mantém mais de 8 mil unidades do ativo. “Ninguém obrigou ninguém a investir nesses tokens. As pessoas compraram por conta e risco próprios”, disse Deriu, que defende maior transparência de políticos sobre seus negócios pessoais.
De cético a entusiasta declarado
Em 2021, antes de retornar à Casa Branca, Trump chegou a classificar o bitcoin como um “golpe” que ameaçava o dólar. Atualmente, sua administração afirma trabalhar para transformar o país na “capital mundial das criptomoedas” e promoveu uma flexibilização das regras que regem o setor, historicamente marcado por oscilações bruscas de valor.
Nesse período, os negócios cripto da família Trump se expandiram para praticamente todos os segmentos do setor, o que despertou questionamentos de organizações de fiscalização ética sobre eventuais conflitos de interesse. A World Liberty Financial também lançou uma stablecoin, criptomoeda com valor atrelado ao dólar, pouco antes de Trump sancionar o Genius Act, lei que estabeleceu regras federais para esse tipo de ativo.
Procurada pelo WSJ, a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, negou qualquer irregularidade. “Nem o presidente nem sua família jamais se envolveram, ou vão se envolver, em conflitos de interesse”, disse. “Todas as ações do presidente Trump e de sua administração são tomadas no melhor interesse do povo americano.”
Debate no Congresso
A revelação sobre os ganhos bilionários do presidente com criptoativos ocorre em meio a negociações no Congresso americano sobre um projeto de lei que pretende regular o setor, um dos temas prioritários para empresas do ramo, que têm investido pesado em lobby em Washington.
Parte dos democratas e alguns republicanos defendem que o texto inclua dispositivos que impeçam o presidente e outros ocupantes de cargos eletivos de lucrar com atividades cripto beneficiadas por regras que eles próprios ajudam a definir. A senadora Cynthia Lummis, republicana do Wyoming e uma das autoras do projeto, afirmou que a versão final da lei contará com dispositivos rígidos sobre o tema. A proposta já foi aprovada na Câmara dos Representantes e precisa de 60 votos para avançar no Senado.
Após a aprovação do texto pela Comissão Bancária do Senado, em maio, o senador democrata Ruben Gallego, do Arizona, disse que a questão precisa ser resolvida para que o projeto tenha votos suficientes. Em publicação na rede social X, Gallego afirmou que o presidente está lucrando bilhões com o cargo enquanto o custo de vida sobe para os trabalhadores.
Segundo as declarações financeiras, os ganhos com criptomoedas se somaram a um crescimento na renda vinda dos negócios tradicionais da família Trump, como a rede de hotéis e os campos de golfe, além da valorização de participações em ações de empresas como Nvidia e Meta. Questionado por jornalistas, Trump atribuiu o aumento do patrimônio à alta da bolsa americana. “Sabe por que estou lucrando? Porque o mercado de ações está subindo”, disse. “Todos nós estamos lucrando. Eu estou lucrando porque tenho muito dinheiro e muito caixa.”
Por: Diogo Rodriguez


