quinta-feira, 23 abril, 2026
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Tecnologia em 2025: os fracassos que marcaram o ano

De polêmicas éticas a apostas malsucedidas, empresas e produtos que marcaram o ano pelos motivos errados, segundo o site Engadget

O ano de 2025 expôs as fragilidades de empresas que pareciam inabaláveis. Enquanto a indústria tecnológica segue em ritmo acelerado de inovação, algumas companhias tropeçaram de forma espetacular, seja por escolhas questionáveis, tecnologias que saíram do controle ou posturas que geraram indignação generalizada. O site de tecnologia Engadget reuniu os casos mais emblemáticos de fracasso no setor, revelando desde sistemas de inteligência artificial que cruzaram linhas éticas perigosas até iniciativas governamentais que prejudicaram indústrias inteiras.

Quando o lucro fala mais alto: a controversa postura da OpenAI

A fabricante do ChatGPT encabeça a lista dos perdedores após uma sucessão de episódios que revelaram suas verdadeiras prioridades. O ponto crítico veio com a morte de Adam Raine, cujos pais moveram ação judicial alegando que o chatbot tinha conhecimento de tentativas anteriores de suicídio do filho antes de auxiliá-lo a tirar a própria vida.

As primeiras reações da companhia sugeriam preocupação genuína. Em setembro, a OpenAI anunciou desenvolvimento de controles parentais e sistemas para detectar usuários adolescentes automaticamente. Criou até um conselho consultivo focado em “bem-estar”. Porém, uma escolha chamou atenção: nenhum especialista em prevenção ao suicídio foi incluído no grupo.

O cenário piorou quando detalhes da estratégia legal da empresa começaram a circular. Segundo informações divulgadas, a OpenAI solicitou acesso à lista de pessoas que compareceram ao funeral de Raine, um movimento classificado pelos advogados da família como assédio deliberado. Documentos judiciais de novembro mostraram que a linha de defesa da companhia responsabiliza o próprio usuário pelo uso inadequado da ferramenta, eximindo-se de falhas em seus sistemas de proteção.

Microsoft enfrenta crise no setor de games

A divisão Xbox da Microsoft viveu um dos períodos mais conturbados de sua trajetória. Em 12 meses, os consoles Series S e X tiveram dois aumentos consecutivos de preço. O modelo mais acessível, Series S, agora custa US$ 100 a mais que no lançamento há cinco anos. O Game Pass, serviço de assinatura que era referência em custo-benefício, teve reajuste de 50%, atingindo US$ 30 mensais.

Os números não deixam dúvidas sobre o impacto negativo. A receita com hardware registrou queda de 29% no último balanço da Microsoft, e isso já considerando os preços altos. Na prática, as vendas físicas de consoles despencaram em proporção ainda maior. Análises de mercado indicam que o PlayStation 5 mantém vantagem de dezenas de milhões de unidades comercializadas.

Paralelamente, a empresa conduziu uma onda de demissões que atingiu mais de 9 mil funcionários, com impacto especialmente severo nos estúdios de desenvolvimento de jogos. O resultado incluiu cancelamento de projetos aguardados como uma nova versão de Perfect Dark e Everwild, da desenvolvedora Rare.

A estratégia de exclusividade também mudou radicalmente. Jogos tradicionalmente associados ao ecossistema Xbox, incluindo Indiana Jones e títulos da franquia Forza, chegaram ao PlayStation. Halo, um dos principais ícones da marca, está programado para aparecer em plataformas concorrentes no próximo ano.

Grok: inteligência artificial sem filtros adequados

O chatbot integrado à plataforma X protagonizou uma série de incidentes graves ao longo do ano. Entre os episódios mais alarmantes está a disseminação de narrativas sobre um suposto “genocídio branco” na África do Sul em contextos completamente alheios ao tema. Em outro momento, a ferramenta se autodenominou “MechaHitler”, gerando aprovação entre grupos extremistas na rede social.

Análises técnicas identificaram que a base de conhecimento do Grok inclui múltiplas referências ao Stormfront, website conhecido por conteúdo neonazista. A fixação do sistema em Elon Musk atingiu níveis absurdos, com afirmações de que o empresário seria superior a LeBron James no basquete e a Tom Cruise na atuação.

O episódio mais preocupante envolveu uma comparação macabra: questionado, o chatbot declarou que salvaria o cérebro de Musk em detrimento de 16 milhões de judeus, justificando que o “impacto potencial de longo prazo em bilhões supera a perda em termos utilitários”. A postagem foi posteriormente removida.

A xAI, empresa de Musk responsável pela tecnologia, não apresentou esclarecimentos consistentes sobre as falhas. As explicações alternaram entre culpar um funcionário anônimo, os próprios usuários da plataforma e técnicas de manipulação de prompts.

Carros elétricos perdem fôlego no mercado americano

Enquanto a Europa e a Ásia consolidam a transição para mobilidade elétrica, os Estados Unidos patinaram em 2025. Dados globais mostram crescimento de 25% nas vendas de veículos eletrificados. Na Alemanha, os registros do primeiro semestre bateram recordes, com EVs representando 20% das aquisições. O Reino Unido viu expansão de um terço nas vendas em setembro. A China domina com mais da metade do mercado já convertida para eletricidade.

A decisão do governo americano de eliminar o crédito fiscal para veículos elétricos reverteu completamente a tendência positiva observada no país. Houve corrida às concessionárias antes da data-limite, mas logo em seguida as vendas entraram em colapso. A Ford registrou retração de 60% nas comercializações de modelos elétricos na comparação anual.

A medida desestimula investimentos em desenvolvimento de novos modelos e amplia o fosso tecnológico entre fabricantes americanos e asiáticos. Enquanto isso, montadoras chinesas avançam com inovações impressionantes, produzindo inclusive veículos com sistemas de suspensão que simulam saltos.

Proibição coloca setor de drones em xeque

Salvo reviravolta de última hora, a fabricante chinesa DJI está impedida de comercializar novos drones nos Estados Unidos a partir de 23 de dezembro. Autoridades americanas manifestam preocupações desde 2017 sobre possível uso dos equipamentos para espionagem de infraestrutura crítica em favor do governo chinês.

A questão é que a DJI conquistou posição dominante no mercado (mais de 75% de participação) graças a superioridade técnica. Clientes corporativos testaram alternativas de marcas aprovadas como Skydio, mas os resultados decepcionaram. “Em um ano e meio, registramos cinco falhas de fabricantes da lista aprovada. Com DJI, nenhuma”, relatou o sargento David Cruz, da polícia de Orlando, ao Miami Herald.

No segmento de consumo, a disparidade é igualmente expressiva. Os drones da empresa chinesa superam concorrentes em autonomia de bateria, alcance, rastreamento de alvos, detecção de obstáculos e qualidade de captura de vídeo. Ao avaliar produtos da categoria, é difícil encontrar opções que se aproximem minimamente das especificações técnicas oferecidas pela DJI.

Existem razões legítimas para as preocupações de segurança nacional. Os equipamentos podem sobrevoar áreas sensíveis, capturar imagens e transmitir dados em tempo real para qualquer localização. A legislação chinesa obriga empresas do país a colaborarem com serviços de inteligência quando solicitado.

Entretanto, o governo americano não buscou trabalhar conjuntamente com a DJI para avaliar riscos reais até o momento. Recentemente, a fabricante fez apelo final enviando correspondências a cinco agências federais que poderiam conduzir revisões de segurança de seus produtos.

Streaming de TV abandona promessas iniciais

O Sling TV chegou em 2015 oferecendo ESPN, CNN, TBS, HGTV, Disney Channel e outros canais por US$ 20 mensais. Dois anos depois, o YouTube TV entrou no mercado a US$ 35, incluindo afiliadas locais das grandes redes e dezenas de canais populares. Era a promessa de libertar consumidores das amarras do cabo tradicional: sem contratos obrigatórios, sem monopólios regionais, com preços acessíveis.

O cenário de 2025 é radicalmente diferente. Todos os principais serviços de TV por streaming implementaram aumentos este ano. YouTube TV, Hulu+ Live TV, Fubo e DirecTV agora partem de US$ 83 mensais, antes de qualquer pacote adicional ou upgrade. Com complementos de canais esportivos, resolução 4K e outras redes avulsas, a conta facilmente ultrapassa US$ 150.

Simultaneamente, o setor passou por onda de consolidação que reduziu drasticamente as opções disponíveis. A Disney, que já havia adquirido controle total da Hulu em 2023, comprou a Fubo este ano e planeja fusão das operações. A combinação transforma a Disney no segundo maior fornecedor de TV ao vivo por streaming, perdendo apenas para o Google. Como a DirecTV já controla a Sling TV, restam apenas três grandes competidores no mercado.

A fragmentação piorou a experiência do consumidor. A Disney lançou serviço autônomo de ESPN por US$ 30 mensais em 2025. Embora o conteúdo ESPN ainda esteja disponível em outros provedores, a empresa demonstrou disposição de usar seu poder de barganha em negociações contratuais. Disputa com o Google resultou em blecaute de ESPN, ABC e outros canais Disney no YouTube TV por duas semanas no outono, menos de dois meses após o lançamento do serviço standalone.

Em novembro, a Fubo entrou em conflito com a NBCUniversal, acusando a empresa de transferir conteúdo para seus próprios serviços de streaming e forçar aumentos de tarifas. O impasse deixou assinantes sem acesso a NBC, Bravo, USA e outros canais, apesar de crédito de US$ 15.

Departamento de Eficiência Governamental (DOGE): promessa não cumprida

A iniciativa liderada por Elon Musk para reduzir gastos federais através do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) fracassou. Em novembro, fontes indicaram à Reuters que o DOGE “não existe”, mesmo tendo teoricamente mais oito meses de operação programados.

Durante os poucos meses à frente do projeto, Musk e sua equipe geraram turbulência generalizada. Aplicando a mesma abordagem radical usada na aquisição do Twitter, promoveram cortes indiscriminados em múltiplos departamentos. O DOGE demitiu trabalhadores posteriormente identificados como essenciais, que precisaram ser rapidamente recontratados. Até agosto, aproximadamente 300 mil funcionários federais foram dispensados, com o DOGE assumindo responsabilidade pela maior parte.

As consequências incluem interrupção de financiamento para centenas de estudos médicos nos Institutos Nacionais de Saúde, afetando dezenas de milhares de pacientes. O desmantelamento da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional teria resultado em mais de 650 mil mortes ao redor do mundo até dezembro, segundo estimativas, com dois terços sendo crianças.

Trabalhadores do DOGE teriam monitorado comunicações governamentais buscando críticas a Musk e ao presidente Donald Trump, além de implementar chatbots de IA generativa para automatizar tarefas. Mas a promessa central não se materializou.

Musk inicialmente garantiu cortar US$ 2 trilhões em gastos, depois reduziu a meta para US$ 150 bilhões. Na prática, os gastos governamentais aumentaram. Em outubro, primeiro mês do ano fiscal, o desembolso total atingiu US$ 689 bilhões — elevação de US$ 105 bilhões (18%) comparado ao mesmo período de 2024.

Vídeo sintético ameaça última barreira da verdade

No contexto contemporâneo de desinformação generalizada, vídeos representavam uma das últimas formas confiáveis de comprovar eventos. A dificuldade de falsificação e a ubiquidade de câmeras em smartphones tornavam gravações elementos cruciais para estabelecer fatos compartilhados. O assassinato de George Floyd exemplifica essa importância: sem a filmagem de Darnella Frazier, a injustiça provavelmente permaneceria oculta.

A chegada de ferramentas de vídeo gerado por IA compromete esse alicerce. Google e OpenAI avançaram a tecnologia para níveis preocupantes de realismo em 2025. O recurso “cameo” do Sora preocupa particularmente: permite adicionar aparência de qualquer pessoa a vídeos criados.

Na primeira semana de disponibilidade pública do aplicativo, usuários geraram clipes mostrando Sam Altman, CEO da OpenAI, roubando processadores gráficos em lojas Target. Embora o cameo tenha limitações e usuários possam restringir uso de sua imagem, a facilidade de criar deepfakes representa mais um ataque à possibilidade de verificação objetiva da realidade.

Por: Diogo Rodriguez

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