Optogenética foi combinada a terapia genética e óculos especiais em caso experimental publicado em 2021; paciente voltou a localizar, contar e tocar objetos
A optogenética, técnica que usa a luz para controlar a atividade de células nervosas, rendeu nesta segunda-feira (5) o Nobel de Medicina de 2026 a Peter Hegemann, Georg Nagel e Karl Deisseroth. Uma de suas aplicações clínicas mais marcantes havia sido apresentada cinco anos antes: um homem que perdera a visão conseguiu voltar a localizar, contar e tocar objetos.
O caso, publicado em maio de 2021 na revista Nature Medicine, envolveu um francês de 58 anos com retinite pigmentosa, doença hereditária que destrói progressivamente as células da retina responsáveis por captar a luz. Diagnosticado cerca de 40 anos antes, ele tinha a visão limitada à percepção de luminosidade e não conseguia distinguir objetos.
A aplicação clínica foi conduzida por uma equipe liderada pelos pesquisadores José-Alain Sahel e Botond Roska. Segundo os autores, foi o primeiro caso relatado de recuperação funcional parcial em uma doença neurodegenerativa após uma terapia optogenética.
Hegemann e Nagel descobriram a canalrodopsina, uma proteína presente em uma alga unicelular que abre um canal para a passagem de íons quando exposta à luz, produzindo um impulso elétrico. Deisseroth levou o mecanismo para as células nervosas e mostrou que era possível ativar neurônios com pulsos luminosos. A técnica deu aos pesquisadores uma espécie de interruptor para ligar e desligar circuitos do cérebro com precisão.
Como a retina voltou a responder à luz
No experimento de 2021, os pesquisadores injetaram no olho com pior visão um vetor viral com as instruções genéticas para produzir ChrimsonR, uma proteína sensível à luz derivada das canalrodopsinas. O alvo eram as células ganglionares da retina, responsáveis por transmitir sinais visuais ao cérebro pelo nervo óptico.
Na visão normal, essas células recebem informações dos cones e bastonetes, os fotorreceptores atingidos pela retinite pigmentosa. A terapia procurou contornar a perda dessas estruturas ao fazer com que as próprias células ganglionares passassem a reagir à luz.
A ChrimsonR responde principalmente à luz âmbar. Por isso, a terapia precisou ser combinada a óculos especiais equipados com uma câmera. O aparelho captava a cena diante do paciente, identificava variações de luminosidade e projetava pulsos de luz âmbar sobre a retina em tempo real.
O paciente iniciou o treinamento com os óculos alguns meses depois da injeção. A primeira melhora percebida fora do laboratório foi a capacidade de enxergar as faixas brancas de uma travessia de pedestres. Nos testes controlados, ele passou a perceber objetos colocados sobre uma mesa branca usando apenas o olho tratado e os óculos.
O que o paciente conseguiu enxergar
Em uma das avaliações, o homem localizou e tocou corretamente um caderno grande em 36 de 39 tentativas, índice de 92%. Com uma caixa pequena de grampos, o acerto caiu para 36%. Em outro teste, conseguiu contar copos sobre a mesa em 63% das tentativas.
Registros de eletroencefalograma também detectaram atividade no córtex visual associada à presença dos objetos. Antes da injeção, o paciente não conseguia identificá-los. Depois do procedimento, o desempenho só aparecia quando ele usava os óculos, sinal de que a percepção dependia da combinação entre as células modificadas e o estímulo luminoso produzido pelo aparelho.
O resultado veio de um único participante de um ensaio clínico de fases 1 e 2, aberto e voltado principalmente à avaliação da segurança e da tolerabilidade da tecnologia. O relato não permite medir quantos pacientes poderiam responder ao procedimento nem determinar a duração de seus efeitos.
O estudo integrava o ensaio PIONEER, patrocinado pela GenSight Biologics, responsável pelo desenvolvimento da terapia. Três autores eram funcionários da empresa, enquanto Sahel, Roska e outros pesquisadores declararam vínculos ou interesses financeiros relacionados à companhia.
No anúncio do Nobel, o Instituto Karolinska citou as tentativas de restaurar a visão como uma das aplicações clínicas abertas pela optogenética. No caso de 2021, a percepção visual dependeu de três componentes atuando juntos: a modificação genética das células da retina, os óculos capazes de convertê-las em receptoras de luz e meses de treinamento.
Por: Redação Época NEGÓCIOS


