Comitês financiados por executivos e investidores de tecnologia tentam eleger aliados e derrotar candidatos favoráveis a regras mais duras para inteligência artificial
Alex Bores ajudou a aprovar uma das primeiras leis estaduais de segurança para inteligência artificial dos Estados Unidos. Quando decidiu disputar uma vaga no Congresso por Nova York, tornou-se também o primeiro grande alvo da ofensiva eleitoral financiada por investidores do setor.
O comitê Think Big gastou mais de US$ 8 milhões para impedir sua vitória nas primárias democratas. Bores perdeu a disputa. Desde então, o dinheiro ligado à indústria de IA alcançou outras dezenas de eleições para a Câmara e o Senado.
Uma investigação da Scripps News identificou gastos associados a esses grupos em 36 disputas. O dinheiro pagou anúncios de televisão, mensagens de celular e material enviado diretamente aos eleitores, com maior concentração em estados como Geórgia, Nova York e Texas.
Por trás da campanha está uma rede financiada por alguns dos principais executivos e investidores da inteligência artificial. A estratégia é ajudar a escolher o Congresso que discutirá a divisão de poder regulatório entre Washington e os estados, as exigências de segurança para sistemas avançados e as condições para expandir a infraestrutura necessária à tecnologia.
Quem colocou dinheiro na disputa
O centro financeiro da operação é o Leading the Future, super PAC criado em agosto de 2025 para apoiar uma agenda favorável ao desenvolvimento da IA. Nos Estados Unidos, super PACs podem receber contribuições sem limite, desde que não coordenem seus gastos diretamente com as campanhas dos candidatos.
Os registros da Comissão Eleitoral Federal mostram que o Leading the Future recebeu US$ 75,98 milhões entre agosto de 2025 e 14 de outubro deste ano. As contribuições declaradas somaram US$ 75,1 milhões.
Marc Andreessen e Ben Horowitz, fundadores da gestora de venture capital Andreessen Horowitz, aparecem com US$ 25 milhões cada um. Greg Brockman, presidente e cofundador da OpenAI, e sua mulher, Anna Brockman, contribuíram com US$ 12,5 milhões cada. A Perplexity fez uma doação de US$ 100 mil.
No caso da OpenAI, a contribuição registrada veio de Brockman, e não da companhia. Andreessen e Horowitz também aparecem individualmente nos documentos, embora sejam responsáveis por uma das maiores investidoras de empresas de inteligência artificial do mundo.
Até 14 de outubro, o Leading the Future havia desembolsado US$ 52,16 milhões. O número, isoladamente, não corresponde a propaganda eleitoral comprada pelo próprio comitê. Quase US$ 47 milhões foram destinados a outras organizações políticas encarregadas de realizar os gastos nas disputas.
Entre elas estão o Think Big, que atacou Bores em Nova York, e o American Mission, voltado principalmente a candidatos republicanos. O Leading the Future funciona, assim, como o caixa central de uma rede que distribui recursos a diferentes comitês e atua nos dois principais partidos.
Duas agendas da indústria para a IA
O Leading the Future afirma procurar candidatos dispostos a defender uma política nacional favorável à inovação. Um dos principais interesses da rede é evitar que cada estado americano estabeleça regras próprias para a inteligência artificial, cenário que obrigaria as empresas a cumprir diferentes exigências pelo país.
A seleção dos candidatos não segue apenas a divisão entre republicanos e democratas. Segundo a apuração da Scripps, os gastos beneficiaram políticos dos dois partidos, especialmente quando suas posições coincidem com a expansão de centros de dados ou com uma abordagem regulatória menos restritiva.
A indústria, porém, não chegou às eleições com uma agenda única. Do outro lado está a Public First Action, organização que defende maior transparência, testes de segurança e fiscalização dos sistemas mais poderosos. Segundo a Scripps, o grupo informou ter levantado US$ 80 milhões.
A Anthropic, desenvolvedora do Claude, anunciou duas contribuições que somam US$ 40 milhões à organização. A empresa afirma que os recursos foram destinados exclusivamente a atividades de educação pública e defesa de políticas e que não podem financiar a eleição ou a derrota de candidatos.
A Public First Action mantém vínculos com super PACs que apoiam políticos favoráveis a salvaguardas para IA. O dinheiro eleitoral desses comitês precisa ser acompanhado separadamente das doações da Anthropic, justamente porque a companhia impôs restrições ao uso de seus recursos.
As duas redes disputam o significado de uma regulação nacional. O grupo financiado por investidores da OpenAI e da Andreessen Horowitz enfatiza inovação, competição com a China e uniformidade das regras. A organização apoiada pela Anthropic cobra transparência das empresas, avaliações independentes e instrumentos para conter sistemas considerados perigosos.
O último balanço apresentado pelo Leading the Future à Comissão Eleitoral Federal terminou em 14 de outubro com US$ 23,82 milhões ainda disponíveis em caixa.
Por: Daniel Pinheiro


