A COP30 deixou claro que o Brasil não pode mais repetir seus ciclos de desenvolvimento excludentes: o país precisa transformar a transição climática em projeto de nação, baseado em dignidade, cuidado e regeneração
Falar sobre o futuro do trabalho no contexto da transição climática é falar sobre o tipo de desenvolvimento que queremos construir. O Brasil viveu por décadas uma alternância entre ciclos de crescimento e exclusão, sem consolidar uma estrutura produtiva inovadora, inclusiva e sustentável.
A COP30 deixou claro que o Brasil não pode mais repetir seus ciclos de desenvolvimento excludentes — o país precisa transformar a transição climática em projeto de nação, baseado em dignidade, cuidado e regeneração.
Para isso, precisamos recolocar o trabalho decente — e não apenas os “empregos verdes” — no centro da estratégia. O trabalho é o que vincula o indivíduo ao projeto coletivo de país, e também o que define quais oportunidades estarão disponíveis para as próximas gerações.
A transição climática já reorganiza tudo: padrões de produção, fluxos de investimento, cadeias globais e relações comerciais. Não se trata mais de um setor da economia — é a economia inteira. Se o Brasil encara essa transição apenas como “agenda ambiental”, desperdiça seu maior trunfo estratégico: usar a descarbonização como motor de desenvolvimento econômico e social, capaz de gerar inovação, requalificação, produtividade e, sobretudo, trabalho decente.
É por isso que o debate sobre “empregos verdes” já não basta. O economista Ignacy Sachs advertia que o risco é criar “ilhas verdes em um oceano marrom”. Ou seja: não adianta multiplicar vagas em setores sustentáveis se mantivermos uma economia desigual, excludente e marcada por práticas predatórias.
A verdadeira transformação não é pintar de verde a velha economia — é mudar a lógica do desenvolvimento. Isso inclui trabalho digno, justiça territorial, equidade racial e proteção social. Sachs sintetizou a questão com precisão: “não há trabalho verde em sociedade desigual”. E esse é o ponto que geralmente fica de fora do debate, mas que o Brasil não pode ignorar.
Nesse cenário, a educação emerge como a principal política econômica do século XXI. Aqui está um dado que deveria alarmar e mobilizar gestores públicos, educadores e empresas: o Brasil já tem cerca de 2 milhões de adolescentes e jovens ocupando empregos classificados como verdes, segundo estudo recente do UNICEF.
Isso corresponde a 30% de todos os empregos verdes do país — um número expressivo, mas profundamente desigual. A maior parte desses jovens está em setores de baixa remuneração e alta informalidade; muitos atuam em cadeias ambientais sem sequer saber que seu trabalho é verde, porque operam na informalidade da reciclagem, da agroecologia, do extrativismo ou do saneamento básico comunitário. Além disso, existe um déficit enorme de habilidades verdes.
A demanda pelas habilidades verdes (green skills) cresce muito mais rápido do que a oferta, e jovens negros, indígenas, mulheres e pessoas com deficiência enfrentam barreiras adicionais no acesso às oportunidades da nova economia.
O relatório também revela algo importante: o país ainda não tem uma política nacional de formação em habilidades verdes. Não basta criar empregos sustentáveis; é preciso preparar as pessoas para ocupá-los. E essa preparação começa muito antes da entrada no mercado de trabalho.
A educação precisa integrar sustentabilidade socioambiental, tecnologia, inovação, conhecimento territorial, direitos humanos e cultura climática. Educar para a nova economia é educar para um país de baixo carbono e alta dignidade social. É formar jovens capazes de regenerar, e não repetir os padrões de destruição.
O Brasil tem, sim, todos os elementos para liderar essa nova economia: matriz energética limpa, sociobiodiversidade ímpar, território, criatividade social e capacidade tecnológica. Mas isso não basta sem visão de longo prazo. Precisamos de políticas públicas que articulem política industrial verde, bioeconomia, economia circular, inovação territorial e requalificação profissional em larga escala — unindo escolas técnicas, universidades, institutos federais e centros de pesquisa.
Precisamos fortalecer cadeias produtivas regenerativas, como a agroecologia e a sociobioeconomia; apoiar projetos de inovação na Amazônia, no Semiárido e nas periferias urbanas; e investir em proteção social robusta, preparada para riscos climáticos, precarização e estresse térmico.
Nada disso será possível sem transformar, também, a forma como as empresas produzem, contratam, remuneram e investem. A transição justa depende radicalmente do setor privado. Empresas que seguirem operando a partir da velha lógica — marcada pela externalização de custos sociais e ambientais — simplesmente não terão lugar no futuro.
Sustentabilidade já deixou de ser reputação e opera como condição de sobrevivência no mercado. O país já tem sinais de mudança, com redes empresariais que compreendem que não há competitividade sem inclusão, nem produtividade sem proteção social. Mas ainda estamos na fase das intenções. É hora de avançar para o impacto, das promessas para o desempenho, dos compromissos para comportamentos concretos.
A infraestrutura invisível da transição é o diálogo social. Não haverá transição justa imposta de cima para baixo; ela só se sustenta quando governos, empresas, sindicatos, juventudes e comunidades constroem juntos as regras desse novo jogo.
O Brasil tem uma tradição de concertação social — rara no mundo — que pode e deve ser atualizada para responder aos desafios climáticos, orientando políticas e práticas a partir da participação democrática e da pactuação territorial. A equação é simples: não haverá desenvolvimento verde sem inclusão; e não haverá inclusão sem diálogo.
No fim das contas, o debate não é apenas sobre empregos verdes. É sobre as novas e futuras gerações, sobre o futuro do trabalho, da educação e da economia brasileira. A transição climática pode ser o início de um novo ciclo de desenvolvimento — justo, sustentável e inclusivo — se tivermos coragem de recolocar trabalho decente, educação climática, juventudes, territórios e justiça social no centro da estratégia econômica. A transição climática será justa — ou não será. E o Brasil não deve temer o futuro: deve construí-lo, com dignidade, democracia e trabalho digno para todas as gerações.
*Victoriana Gonzaga é advogada de direito internacional e direitos humanos, professora e palestrante. Mestre em Direito e Desenvolvimento Econômico e Social pela FGV-SP
*Caio Magri é diretor presidente do Instituto Ethos
Por: Victoriana Gonzaga e Caio Magri


