Faz semanas que tento escrever algo diferente — não uma pauta de trabalho, mas uma ideia que me ronda minha cabeça e, apesar do meu ofício ser literalmente escrever, já que a minha profissão é o jornalismo, estava difícil achar as palavras certas para começar. Em parte, porque falar do que pensa é complicado mesmo. E eis a conclusão do tema: A Internet. A meu ver, um grande paradoxo para quem, como eu, trabalha e depende dela para tanta coisa.
Até aqui já foram quase 400 caracteres. Ufa!
E olha que ironia: recentemente eu comecei a ouvir um podcast narrativo do Chico Felitti, um jornalista, escritor e podcaster brasileiro. “De saída – A Vida Fora da Internet”, conversou com pessoas para falar sobre o uso das redes sociais e a relação da sociedade com elas.
A entrevistada? Julia Tolezano. Sim, a Jout Jout! Dá pra acreditar?
Um dos episódios traz uma conversa entre a repórter Beatriz Trevisan e a Jout Jout. Essa conversa desenrolou ideias que, até então, pareciam um emaranhado muito confuso na minha cabeça.
A Jout Jout abandonou uma carreira consolidada na internet em 2020, bom, na verdade em 2022, oficialmente. Anos antes ela se tornou uma das figuras mais influentes da internet brasileira ao falar sobre autoestima, relacionamentos, saúde mental, feminismo e vulnerabilidade emocional. Se você é millenial como eu, sabe de quem estou falando.

Bom, vamos ao ponto central desse texto antes que eu perca sua atenção.
Em tempos de amizades baseadas em redes sociais, trabalho remoto, educação online, mercado digital, streamings… Contato humano é coisa quase uma excentricidade. Coisa de gente retrô.
Lá no fundo, eu sei que a internet nos prometeu liberdade, conexão, praticidade — e entregou tudo isso. Mas também nos amarrou em notificações, reuniões sem fim e relações cada vez mais rápidas e rasas. Levamos o trabalho pra casa, pro celular, pro bolso. Dormimos menos, vivemos menos. E fingimos que está tudo bem.
Começamos a achar que “amizade de baixa manutenção” é um elogio. Que não falar com alguém por semanas, meses, e manter tudo no vago “tá tudo certo” e “é o novo normal”. Que mandar um emoji conta como afeto. Que áudio em 1,5x substitui uma conversa. Mas não substitui.
Fomos perdendo as pausas. A troca de olhares. A presença.
E talvez o mais subversivo que possamos fazer hoje seja isso: sair da tela. Marcar um café sem motivo. Dizer “vamos nos ver”. Falar olhando no olho. Dar risada fora do mudo. Lembrar que a vida pulsa mesmo é no toque, no tempo compartilhado, no abraço apertado.
A Jout Jout disse que está forte, que precisa estar para carregar o filho pesado no colo. Que vai andando comprar fruta. Ela se movimenta, em tempos que pessoas saem de casa para se exercitar em salas climatizadas com grandes espelhos, em tempos de epidemia de suplemento vitamínico. E isso serve tanto pra mim, você não faz nem ideia.
A nossa vida foi fabricada pela internet. A vida antes disso é obsoleta. O hype agora se comunicar com os amigos por stories, trocar a foto do perfil pelo logo do negócio, andar até o mercado por cárdio em esteira, e por aí vai.
Apesar de toda essa opinião explanada até aqui, eu reconheço que a forma de viver em sociedade mudou e, relutante, aceito que jamais será como foram quando ainda éramos crianças brincando na rua. A verdade é que eu só queria não ser refém da internet, não sentir que preciso responder uma mensagem de trabalho depois do expediente, que se eu criar um canal no Youtube as pessoas não me deem dicas de como viralizar na internet.
Queria que diálogos fossem só diálogos. Que relacionamentos não parecem acabados se as pessoas não postam momentos juntas. Queria que a internet fosse tratada como o que ela; é ferramenta e não o centro de tudo.
A vida online existe, mas eu desejo que a gente volte a viver também fora da internet. Nem que seja um pouco. Nem que seja hoje.
Offline. Mas vivo.


