A desconfiança força padrões de transparência. Ela exige mecanismos de auditoria. Ela pressiona por limites éticos e regulações que protegem o interesse público
A desconfiança voltou a ocupar um lugar central no debate público sobre tecnologia. Depois de décadas saudando a inovação quase como sinônimo de progresso, a sociedade começa a reagir com cautela à inteligência artificial.
Não é um movimento irracional. É um mecanismo de defesa que reaparece sempre que uma tecnologia avança mais rápido do que a capacidade coletiva de compreendê‑la. Também reaparece quando não conseguimos regulá‑la ou enquadrá‑la eticamente.
O caso dos deepfakes é emblemático. A imagem, que durante séculos funcionou como prova, tornou‑se suspeita. A possibilidade de a IA falsificar rostos, vozes e contextos com precisão crescente corrói um dos pilares da vida social. Esse pilar é a confiança na evidência.
Como bem alertou o excelente Rennan Julio, aqui mesmo na Época Negócios, basta um mero “alô” ao celular para que a voz seja capturada. O mesmo vale para vídeos que podem ser manipulados em segundos.
A consequência é um ambiente em que todos se tornam potenciais alvos. Pessoas, marcas e instituições passam a operar sob um clima permanente de vigilância e dúvida. Mas o desconforto não se limita ao risco de falsificação.
Ele se estende à sensação difusa de intromissão produzida por algoritmos que antecipam preferências antes que o usuário as formule. A impressão é a de estarmos sendo observados por mecanismos que não pedem permissão, tampouco explicam seus critérios.
Assim, a privacidade, já fragilizada pela economia dos dados, parece atravessada por uma camada adicional de opacidade. E tudo isso tem efeitos diretos sobre reputação corporativa. As marcas dependem de um pacto básico de confiança para perdurar.
Esse pacto envolve a promessa de que seus produtos são o que dizem ser. Envolve também a garantia de que os dados dos clientes serão tratados com responsabilidade e de que sua comunicação é autêntica.
Quando a própria noção de autenticidade se torna instável, o risco reputacional deixa de ser periférico. Ele se torna estrutural. E é nesse ponto que a desconfiança qualificada pode ajudar, funcionando como uma espécie de anticorpo social.
A desconfiança força padrões de transparência. Ela exige mecanismos de auditoria. Ela pressiona por limites éticos e regulações que protegem o interesse público. E, por consequência, essas regras protegem também as empresas que operam com responsabilidade.
Mais que nunca, o equilíbrio é essencial. Se a ingenuidade amplia riscos, a desconfiança indiscriminada pode se transformar em paralisia. O medo difuso, o cinismo e a rejeição automática bloqueiam inovações que, bem orientadas, trariam benefícios reais.
O ponto de maturidade está no desenvolvimento de instrumentos que equacionem entusiasmo e prudência. A própria história mostra que só há progresso sustentável quando se tem confiança suficiente para experimentar e desconfiança o bastante para criar mecanismos de controle.
É o mesmo princípio que orienta a governança corporativa e os sistemas democráticos. Não se trata de escolher entre confiar ou desconfiar. Trata‑se de construir estruturas que permitam confiar com responsabilidade.
Para as marcas, isso significa incorporar a IA com critérios claros de segurança, transparência, consentimento e prestação de contas. Não como discurso, mas como prática. É assim que a desconfiança se transforma em arquitetura.
Essa arquitetura envolve processos, políticas e salvaguardas que sustentem a reputação num ambiente em que a verdade pode ser manipulada em segundos. No fundo, é isso que a IA está nos obrigando a fazer: revisitar o pacto que sustenta as relações comerciais, sociais e institucionais.
A desconfiança, portanto, não é inimiga do progresso. É o que impede que ele se torne predatório. O “pé atrás” em relação à IA é sinal de que a sociedade percebeu que, para crescer de forma saudável, é preciso refletir antes de apertar o botão de “aceitar”.
Como diria o Marquês de Maricá, “confiar desconfiando é uma regra muito salutar da prudência humana”.
*Suzane Veloso é conselheira e mentora de líderes. Foi VP de Marketing da Falconi, Diretora de Comunicação do Walmart.com e do Terra, e trabalhou nas maiores agências de publicidade do país
Por: Suzane Veloso


