quinta-feira, 23 abril, 2026
HomePAPO CRIATIVOO que aprendemos com inovadores 'fora da caixa' e como podemos estimular...

O que aprendemos com inovadores ‘fora da caixa’ e como podemos estimular esse tipo de inovação?

Pessoas que pensam além dos padrões estabelecidos podem impulsionar novas ideias ao desafiar normas e identificar novas oportunidades

Quando se trata de inovação, são os “fora da caixa” que muitas vezes se destacam. A cientista húngara Katalin Karikó, por exemplo, passou anos sendo desacreditada por suas teorias sobre o RNA mensageiro (mRNA), mas acabou se tornando peça-chave no desenvolvimento da vacina contra a COVID-19. Sua pesquisa, inicialmente rejeitada, rendeu a ela e ao colaborador Drew Weissman o Prêmio Nobel de Medicina em 2023.

Segundo Simone Ferriani, professor de Empreendedorismo no Departamento de Administração da Universidade de Bolonha, e Gino Cattani, professor de Gestão e Organizações na Stern School of Business da Universidade de Nova York, esses profissionais se destacam justamente por conectarem ideias distintas, enxergarem caminhos ignorados por outros e proporem novas abordagens para problemas considerados insolúveis. Essas características os tornam únicos e, por isso, reconhecidos como “fora da caixa”.

Em artigo publicado na MIT Sloan Management Review, os autores destacam caminhos possíveis que líderes podem adotar para criar um ambiente mais favorável à criatividade e ideias inovadoras.

Olhar para fora, agir internamente

Há alguns anos, o MIT vem analisando o desempenho de cerca de 12 mil artistas, com o objetivo de entender se o sucesso criativo — medido por prêmios de excelência cinematográfica — está concentrado nos centros de decisão ou nas áreas mais periféricas das organizações.

Os resultados mostram que os profissionais mais criativos atuam justamente entre o núcleo central da empresa e os setores periféricos, ou seja, em posições híbridas. O mesmo padrão também foi observado em dinâmicas de grupo.

Mas como promover esse dinamismo internamente, de forma que novas ideias floresçam? As empresas podem incentivar esse tipo de atuação de diversas maneiras.

A Pixar, por exemplo, estimula seus animadores a participarem de associações profissionais, conferências acadêmicas e projetos artísticos externos ao estúdio. Outro exemplo é a National Science Foundation (NSF), que convida cientistas de instituições acadêmicas para atuarem temporariamente como “rotadores”.

Ao trazerem conhecimentos e experiências externas, esses profissionais ampliam as perspectivas e contribuem para uma tomada de decisão mais objetiva dentro da organização.

Combater o pensamento que leva à conformidade

O programa de rotatividade da NSF também ajuda a enfrentar um dos principais riscos da criatividade colaborativa: o pensamento coletivo que leva à conformidade.

Um estudo realizado em 2014, liderado pelo MIT em parceria com Paul Allison, da Universidade da Pensilvânia, revelou que ideias de inovadores “fora da caixa” até costumam receber apoio — mas esse apoio tende a ser instável. Muitas vezes, uma única voz discordante já é suficiente para que a maioria repense sua posição.

É nesse cenário que líderes aliados a esses profissionais fazem toda a diferença.

Foi o caso de Kara Nortman e Julie Uhrman, que, ao fundarem a franquia de futebol feminino Angel City em Los Angeles, enfrentaram resistência em um setor historicamente dominado por homens. Quando perceberam que o propósito do projeto ia além do esporte, ao promover uma plataforma voltada à equidade, buscaram apoio fora do universo esportivo: convidaram a atriz e produtora Eva Longoria para participar da iniciativa.

O envolvimento de Longoria atraiu mais torcedores e ampliou a visibilidade da equipe. Em 2024, o clube foi avaliado em US$ 250 milhões — um marco histórico para o futebol feminino.

Falar uma mesma língua

Para que suas ideias sejam aceitas, inovadores precisam se comunicar de forma clara e compreensível para quem está dentro do grupo.

Pesquisas recentes do MIT demonstraram que, ao adaptar o discurso ao jargão técnico do grupo, uma mesma proposta pode ser até 20% melhor avaliada.

Cultivar uma cultura receptiva

Incentivar a inovação exige que as organizações criem espaços abertos para que novas ideias possam surgir e ser ouvidas. Isso começa com o rompimento de estruturas hierárquicas rígidas e com a garantia de que qualquer pessoa, independentemente do cargo, tenha a liberdade de propor soluções.

Estudos do MIT mostram que as ideias mais criativas frequentemente vêm de pessoas que estão fora dos núcleos centrais das organizações. No entanto, para que essas ideias tenham espaço, é necessário vencer a resistência interna, especialmente em ambientes com forte identidade de grupo.

Um experimento com cientistas da área biológica revelou que, ao serem estimulados a pensar coletivamente, os participantes tendem a valorizar ideias vindas de colegas internos. No entanto, quando incentivados a adotar uma perspectiva mais independente, passaram a considerar com mais abertura propostas externas, mesmo quando o conteúdo era exatamente o mesmo.

O estudo demonstra que um pequeno estímulo à autonomia já pode ser suficiente para abrir espaço a ideias que, em outros contextos, seriam descartadas.

*Sob supervisão de Daniel Pinheiro

Por: Mariana Letizio*

RECOMENDADOS

MAIS POPULAR