Investigação da 404 Media revela manifesto, mensagens internas e a pressão da Proton para que seus profissionais incorporem inteligência artificial à rotina de trabalho
“Seu antigo emprego acabou.” A frase abre um manifesto interno no qual Bart Butler, diretor de tecnologia da Proton, apresenta aos funcionários o que a empresa espera deles na era da inteligência artificial. Responsável pelo serviço de e-mail Proton Mail, a companhia suíça agora está entrevistando seus profissionais para avaliar como cada um utiliza a tecnologia no trabalho. O resultado pode influenciar quem continuará empregado.
As entrevistas foram apresentadas como um processo capaz de trazer consequências para os funcionários, segundo um e-mail interno obtido pela 404 Media. A comunicação indicava que as avaliações poderiam determinar a permanência dos profissionais na companhia.
Uma nova investigação publicada nesta quinta-feira (29) mostra como a cobrança pelo uso de IA se espalhou pela Proton. A reportagem ouviu oito funcionários atuais e um ex-funcionário, além de examinar conversas internas, gravações de reuniões e o manifesto escrito por Butler em setembro.
Os registros retratam uma empresa pressionada a crescer mais rapidamente e uma direção que passou a tratar o domínio da inteligência artificial como parte do trabalho. Em uma reunião, Butler afirmou que cerca de 90% do código produzido pela Proton em outubro havia sido escrito com IA, boa parte por meio do Claude, da Anthropic.
“Embarque ou seja atropelado”
Andy Yen, CEO da Proton, tem conduzido pessoalmente parte dessa mudança. Em uma das mensagens reproduzidas pela 404 Media, ele resumiu o ritmo esperado dos funcionários: “O trem está chegando. Embarque ou seja atropelado”.
A pressão aparece também nas discussões sobre a rotina dos engenheiros. Depois que um funcionário pediu mais tempo para realizar testes de invasão, usados para procurar falhas de segurança antes que sejam exploradas, Yen classificou o argumento como “pensamento de perdedor”. Em seguida, cobrou que a equipe deixasse de produzir todo o código artesanalmente e utilizasse mais ferramentas de IA.
A escolha das palavras ganhou peso particular dentro da Proton. Fundada em 2014 por cientistas que haviam trabalhado no CERN, a empresa construiu sua marca em torno de privacidade e segurança. Além do Proton Mail, oferece armazenamento em nuvem, rede privada virtual e gerenciador de senhas.
Funcionários ouvidos pela 404 Media afirmaram que a busca por velocidade pode entrar em conflito com os cuidados exigidos por produtos responsáveis por dados sensíveis. A preocupação apresentada por eles está concentrada na maneira como o código é produzido, revisado e testado antes de chegar aos usuários.
A Proton também instalou um sistema para acompanhar quanto código é gerado com inteligência artificial. Em outra mensagem interna, Yen afirmou que 2026 seria o último ano em que a companhia contrataria engenheiros nos moldes tradicionais. A partir de 2027, a intenção seria buscar profissionais capazes de desenvolver produtos com IA.
O manifesto de Butler amplia o alcance dessa transformação. O diretor de tecnologia afirma que as ferramentas devem permitir que os funcionários escrevam códigos melhores e mais rapidamente. Ele também projeta um momento em que grande parte do código produzido pela empresa será revisada por outras inteligências artificiais.
Avaliações podem definir permanência
As entrevistas transformam essa diretriz em uma avaliação individual. A Proton quer identificar quem utiliza bem a inteligência artificial, quem a emprega de maneira inadequada e quem ainda não incorporou a tecnologia ao trabalho. Uma avaliação insatisfatória pode colocar em risco a permanência do funcionário.
Yen afirmou internamente já ter entrevistado cerca de 40 pessoas, entre elas o próprio Butler. Os profissionais mais bem avaliados passariam a entrevistar outros colegas, ampliando o processo pela empresa.
Butler informou que a maior parte dos funcionários seria convocada, embora nem todos recebessem o chamado imediatamente por razões logísticas. As entrevistas devem considerar como cada profissional usa IA, quais ferramentas escolhe e de que maneira incorpora os resultados ao trabalho.
A ofensiva ocorre enquanto a Proton tenta acelerar o crescimento. Um documento interno obtido pela 404 Media afirmava que a companhia não estava no caminho para cumprir sua meta anual de receita recorrente. O material atribuía parte do problema à falta de velocidade e classificava o desempenho da empresa como abaixo do esperado.
A direção também criou uma equipe de alta velocidade, formada por 5% a 10% dos funcionários. Os participantes receberiam um bônus salarial de 30% e benefícios adicionais em troca de uma rotina mais intensa, com possibilidade de trabalho nos fins de semana.
A condução da mudança provocou ansiedade entre os funcionários. Em resposta à 404 Media, um porta-voz da Proton reconheceu que a empresa nem sempre comunicou suas intenções tão bem quanto poderia e afirmou que a companhia pretende ajudar seus profissionais a adquirir as habilidades exigidas pela nova estratégia.
As avaliações devem avançar ao longo de novembro. Em uma das reuniões examinadas pela reportagem, Butler resumiu a abrangência pretendida para o processo: “Ninguém tem passe livre”.
Por: Época Negócios


