quinta-feira, 23 abril, 2026
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Impacto é negócio sério: o futuro das empresas está nos territórios

Como grandes organizações podem e devem repensar sua relação com o desenvolvimento local e territorial

Por muito tempo, as grandes empresas se expandiram a partir de uma lógica centralizadora, pautada por metas de escala, crescimento acelerado e padronização. Nesse modelo, o território onde estão inseridas muitas vezes é visto apenas como um recurso: mão de obra, solo, matéria-prima, incentivos fiscais.

Mas o mundo mudou e continua mudando. Cada vez mais, o que define o sucesso de uma organização não é apenas o seu desempenho financeiro, mas a sua capacidade de gerar valor compartilhado com as comunidades e ecossistemas ao seu redor.

O conceito de impacto, que já ocupava espaço crescente nas agendas de inovação e sustentabilidade, hoje se revela como um elemento central da estratégia de negócios. E isso tem uma razão clara: empresas que entendem o território não como cenário, mas como protagonista, têm mais condições de inovar com propósito, construir relações duradouras e sustentar sua relevância no longo prazo.

Falar em desenvolvimento territorial não é falar apenas em responsabilidade social ou filantropia. É falar de inteligência de negócio. Ao investir em cadeias produtivas locais, promover a inclusão socioeconômica de públicos historicamente excluídos, apoiar empreendedores e fortalecer a infraestrutura social e ambiental dos territórios onde atuam, as empresas constroem ambientes mais estáveis, prósperos e férteis para a inovação.

Essa transformação exige um novo tipo de escuta. Escutar o território é reconhecer que não há soluções prontas e que cada comunidade carrega um acúmulo de saberes, práticas e necessidades que precisam ser consideradas desde o início. Os programas de investimento social privado mais eficazes são aqueles que fogem da lógica top-down e investem em cocriação, escuta ativa e articulação de atores locais.

No Impact Hub Cuiabá, temos aprendido isso na prática. Em projetos com foco em inclusão produtiva (como a Chamada de Impacto, que impactou mais de 2 mil pequenos empreendedores no Mato Grosso), inovação aberta e aceleração de negócios de impacto, percebemos que os melhores resultados vêm justamente quando há uma construção conjunta entre empresas, poder público, organizações da sociedade civil e, principalmente, os moradores e as lideranças locais. É ali que se forma o que chamamos de inteligência coletiva do território.

Esse movimento de valorização do impacto e do desenvolvimento local não ocorre de forma isolada. Nos últimos anos, o Brasil deu passos importantes para fortalecer um ecossistema de impacto social e ambiental por meio de políticas públicas e marcos regulatórios que reconhecem o papel estratégico dos territórios.

Um exemplo disso é a Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO), lançada pelo governo federal em 2017. Essa iniciativa reúne diferentes ministérios e atores do ecossistema com o objetivo de ampliar investimentos em negócios que resolvem problemas sociais e ambientais, melhorar o ambiente regulatório e promover o uso de métricas de impacto.

Como parte dessa estratégia, surgiram ferramentas como o SIMPACTO, um sistema nacional de monitoramento que organiza dados e indicadores sobre negócios de impacto no país, e o CADIMPACTO, um cadastro público que reconhece organizações e iniciativas que atuam nessa agenda. Para empresas que já atuam nos territórios, esse reconhecimento pode abrir portas para novas parcerias, recursos e visibilidade institucional.

Além disso, o Brasil passou a contar, em 2024, com a sua Taxonomia Sustentável, um instrumento fundamental para orientar o mercado sobre quais atividades econômicas realmente contribuem para objetivos socioambientais.

Inspirada em padrões internacionais, a Taxonomia Sustentável Brasileira serve como referência para investidores, empresas e governos identificarem práticas e projetos alinhados com uma economia de baixo carbono, inclusiva e regenerativa. Isso eleva o nível de responsabilidade e transparência das empresas e reforça que o impacto deixou de ser algo intangível para se tornar mensurável e regulado.

Há um potencial ainda pouco explorado nesse campo. Muitas corporações querem fazer mais, mas ainda não sabem como. Outras têm boas intenções, mas operam com métricas desconectadas da realidade dos territórios. Por isso, é necessário repensar as formas de mensurar impacto.

Avaliar o sucesso de um programa não pode se limitar ao número de pessoas atendidas, é preciso entender transformações mais profundas, como o aumento da autoestima comunitária, a melhoria de condições de vida, o fortalecimento da autonomia e da capacidade das próprias comunidades liderarem seu desenvolvimento.

A boa notícia é que cada vez mais empresas estão despertando para essa agenda. Em um mundo marcado por desigualdades, emergência climática e crise de confiança institucional, a legitimidade de uma organização passa, obrigatoriamente, pela forma como ela se relaciona com o entorno. Não há futuro sustentável possível se não houver justiça territorial.

E agora temos diretrizes claras, ferramentas institucionais e recursos disponíveis que apontam esse caminho. Não é mais uma questão de se as empresas devem se comprometer com o desenvolvimento dos territórios, mas de como elas vão fazer isso.

É hora de compreender que o impacto não é um acessório. Impacto é negócio. E negócios que ignoram os territórios correm o risco de se tornarem irrelevantes. O futuro exige empresas comprometidas com o presente, e o presente exige que olhemos para os territórios com respeito, humildade e parceria. Esse é o caminho para uma economia verdadeiramente regenerativa, inovadora e inclusiva.

Por Cristiane Furlanetti, diretora e cofundadora do Impact Hub Cuiabá

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