quinta-feira, 23 abril, 2026
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IA e liderança: como adotar tecnologia sem abandonar o lado humano

A grande questão é que delegar tarefas operacionais à IA pode ser desejável, mas delegar decisões que exigem empatia e contexto, não

Vemos e vivenciamos um momento inédito: a inteligência artificial já não é o futuro, mas o presente. Não está só impactando nossas vidas, mas transformando a realidade das organizações; não se limitando à automatização de processos, mas ressignificando o próprio modelo de liderança que conhecemos. A partir desse cenário, a grande pergunta que precisamos responder hoje não é mais se a IA substituirá líderes, mas como a liderança pode evoluir ao lado dela sem perder sua humanidade?

A resposta para essa transição exige um novo tipo de mentalidade. Nos últimos anos, o uso de IA nas empresas passou a ocupar o centro da estratégia. Uma pesquisa conduzida globalmente pela KPMG identificou que, no Brasil, 86% das empresas já utilizam IA nos seus processos corporativos.

Isso vem influenciando o que fazemos, como pensamos e decidimos, mudando a própria natureza da liderança. Agora o bom gestor já não é apenas quem aponta o caminho, mas quem interpreta um volume crescente de informação, navega na ambiguidade e mantém a equipe conectada a um propósito claro.

O problema é que em busca de velocidade e eficiência – imperativos do nosso tempo – muitas lideranças estão correndo o risco de automatizar também suas relações humanas. Para se ter uma ideia, já existem exemplos de processos de desligamento mediados exclusivamente por sistemas, bem como de metas definidas com base em algoritmos que ignoraram realidades individuais e coletivas.

A grande questão é que delegar tarefas operacionais à IA pode ser desejável, mas delegar decisões que exigem empatia e contexto, não. A tecnologia, quando mal aplicada, utilizada e monitorada, pode cristalizar desigualdades e desumanizar a gestão. Porém, esse não deve ser um argumento contra a IA — afinal, quem a opera continua sendo o ser humano.

O ponto central é a necessidade de qualificar ainda mais as lideranças, para que possam utilizar a tecnologia de forma cada vez mais consciente e responsável. Ela deve ser uma aliada poderosa para quem entende seu papel de ampliação da capacidade humana, não de substituição. Parece fácil na teoria, mas a prática nos mostra o contrário. A Deloitte publicou um estudo que aponta que 73% dos executivos acreditam ser essencial que as capacidades humanas evoluam no mesmo ritmo que as tecnológicas, mas apenas 9% afirmam estar efetivamente colocando isso em prática. Já o World Economic Fórum de 2024, citou que 40% dos empregos do mundo serão diretamente ou indiretamente impactados e transformados pelo uso da inteligência artificial.

A IA pode ajudar a antecipar riscos, identificar padrões de comportamento, organizar o excesso de informações e liberar tempo para que o líder esteja mais presente, mais disponível e mais atento ao que for mais estratégico e, principalmente, ao que demanda mais humanidade.

Cada vez mais, espera-se do líder não só a capacidade de se adaptar à tecnologia, mas de alimentar e nutrir elementos que nenhum algoritmo ainda reproduz: empatia, julgamento ético, criatividade e sensibilidade social. Esses atributos tão humanos são o que realmente tornam a tecnologia útil e potencializam a capacidade humana.

Liderar na era da IA exige duas competências centrais: alfabetização digital e sofisticação emocional. A primeira é o que nos permite entender, adotar e explorar as ferramentas disponíveis, aproveitando o máximo de sua capacidade e potencial; já a segunda é o que garante que essas ferramentas sejam usadas para ampliar o potencial das pessoas, não para substituí-las ou reduzi-las a meros números.

A boa notícia é que os líderes já começam a perceber isso. Segundo dados da IBM, 63% dos CEOs acreditam que o sucesso com a IA generativa depende mais de como ela é adotada e aplicada do que da tecnologia em si. Esse é um movimento já perceptível a partir de iniciativas que usam IA para apoiar a saúde mental de equipes, prever sobrecarga, orientar políticas de diversidade ou ajustar o clima organizacional. Experiências como essas mostram como a tecnologia pode, sim, ser usada a serviço do que demanda humanidade. Isso, claro, quando combinada a uma liderança aberta ao aprendizado e comprometida com seus recursos humanos.

Estamos diante de uma virada geracional na liderança. A liderança do futuro não será substituída por máquinas, mas por quem souber usar a IA com empatia, ética e visão coletiva. A inteligência artificial pode nos garantir agilidade nas decisões, mas a inteligência emocional (e essencialmente humana) deve seguir guiando a palavra final. É sempre bom nunca esquecermos que a tecnologia é feita com e para pessoas.

*Cláudia Marquesani é CIO da Copa Energia e tem mais de 20 anos de experiência em liderança e transformação organizacional. Participa do hsm+ 2025 com a palestra “Liderança na Era da IA: o que muda e o que se mantém essencial?”.

Por: Cláudia Marquesani

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