Pesquisa da Universidade da Califórnia em Berkeley revela que 0,5% a 1% do genoma atual vem de ancestrais “fantasmas” que se separaram há 500 mil anos
Um estudo publicado na revista Science identificou traços de uma linhagem humana desconhecida no DNA de populações de todo o mundo. A pesquisa sugere que todos os seres humanos vivos podem carregar material genético de ancestrais que nunca foram encontrados em registros fósseis.
A descoberta foi publicada nessa quinta-feira (6) e está sendo acompanhada pelo Scientific American. O trabalho foi liderado por Yulin Zhang, bióloga computacional da Universidade da Califórnia em Berkeley, e pelo geneticista Arjun Biddanda, agora na Universidade Johns Hopkins. Os pesquisadores desenvolveram um novo método para rastrear ancestralidade arcaica usando exclusivamente DNA de humanos contemporâneos.
Método e achados
A equipe analisou 503 genomas contemporâneos de populações ao redor do mundo com um modelo matemático inédito chamado TRACE (sigla em inglês para Rastreamento de Contribuições Arcaicas via Estimativa de ARG). A ferramenta examina os milhares de árvores genealógicas embutidas em cada genoma humano para estimar quando cada segmento do DNA foi incorporado à linhagem. Sequências herdadas de populações muito divergentes, como os neandertais ou os denisovanos, produzem ramificações incomumente longas nessas árvores.
Os resultados mostraram que 2% do DNA em genomas não africanos veio de linhagens arcaicas, dado consistente com pesquisas anteriores. Cerca de metade desse total, aproximadamente 1% do genoma, corresponde a neandertais sequenciados; uma fração menor corresponde a denisovanos. O restante, entre 0,5% e 1% dependendo da população analisada, não corresponde a nenhuma espécie já sequenciada. Essa linhagem “fantasma” apareceu em todas as populações examinadas e provavelmente se separou do ramo humano há mais de 500 mil anos, por volta do mesmo período em que neandertais e denisovanos divergiram.
Um achado adicional surpreendeu os próprios pesquisadores: a linhagem desconhecida apareceu em regiões do DNA que são quase desprovidas de genes de neandertais e denisovanos, justamente as regiões que os cientistas interpretavam como exclusivamente humanas. “Quando examinamos especificamente essas regiões, elas também abrigavam essa ancestralidade fantasma”, declarou Priya Moorjani, geneticista populacional em Berkeley e coautora do estudo. “Ficamos realmente surpresos.” Uma dessas regiões está próxima do gene FOXP2, associado à capacidade de fala.
Confirmação e próximos passos
Os resultados ainda precisam ser confirmados por outras linhas de evidência. Patrick F. Reilly, biólogo computacional da Universidade Yale que não participou da pesquisa, afirmou que qualquer método de análise produz resultados falsos positivos. Segundo Reilly, uma forma de aumentar a confiança nos achados seria comparar as sequências da suposta linhagem fantasma com os genomas de neandertais e denisovanos. Se ambos apresentassem similaridade igualmente baixa com as sequências “fantasma”, isso indicaria que essa linhagem formou um grupo irmão igualmente distante de denisovanos, neandertais e possivelmente dos humanos modernos.
Reilly também observou que, sem avanços extraordinários na preservação de DNA, os cientistas provavelmente terão de depender de ferramentas como o TRACE para avançar nessa investigação. Evidências adicionais poderiam vir de outros métodos computacionais ou de fósseis ainda não descobertos com DNA antigo preservado na África Subsaariana. “Talvez esses métodos tenham realmente aberto uma nova fronteira para o estudo da evolução humana”, concluiu Moorjani.
Por: Giz_br


