quinta-feira, 23 abril, 2026
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Criar vídeo de cinco segundos com IA consome energia equivalente a uma hora de micro-ondas

Um vídeo de apenas cinco segundos criado por inteligência artificial (IA) pode consumir a mesma quantidade de energia que um micro-ondas ligado por uma hora. A comparação inusitada vem de um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicado neste mês. A pesquisa levanta um alerta: a criatividade alimentada por IA tem um custo ambiental que está longe de ser invisível.

Intitulado Fome de poder: IA e o futuro da nossa energia, o estudo analisou o impacto energético de diferentes ferramentas de inteligência artificial voltadas à geração de conteúdo digital, como vídeos, imagens e textos. A pesquisa analisou modelos populares como o Sora (OpenAI), o Veo (Google) e o Firefly (Adobe). O resultado mais impressionante veio da plataforma chinesa CogVideoX: criar um vídeo de cinco segundos exige cerca de 1 kWh de energia, o mesmo necessário para manter um micro-ondas ligado durante sessenta minutos.

Segundo os pesquisadores, até 2017, centros de dados conseguiam manter um consumo de eletricidade relativamente estável, mesmo com o crescimento de gigantes como Netflix e Facebook. Isso mudou com a explosão da IA. A demanda por placas gráficas potentes e infraestrutura especializada fez o gasto dobrar — e os data centers já representam 4,4% de toda a energia consumida nos Estados Unidos. Projeções indicam que esse número pode triplicar até 2028.

O estudo também investigou todas as etapas envolvidas na criação de conteúdos por IA — do treinamento dos modelos até a geração final dos vídeos. Para treinar um modelo de vídeo, é necessário operar milhares de processadores simultaneamente por dias ou até semanas. Quando essa tecnologia é usada em larga escala, como acontece em redes sociais e aplicativos de edição automática, o consumo cresce exponencialmente. Afinal, estamos falando de plataformas que geram milhões de vídeos todos os dias.

Mas por que esse gasto todo da IA?

Vídeos criados por IA precisam de sistemas complexos, capazes de lidar com bilhões de variáveis. Em outras palavras, são cálculos muito pesados que garantem que as imagens, movimentos, iluminação e texturas pareçam naturais aos olhos humanos. Tudo isso acontece em frações de segundo, quadro por quadro. Para dar conta da tarefa, os sistemas exigem grande poder computacional — e, com ele, vêm altos custos energéticos.

Além da eletricidade, há outro recurso essencial: água. Isso porque os data centers precisam ser constantemente resfriados para não superaquecerem. Uma estimativa citada na pesquisa aponta que a geração de 100 palavras por modelos como o ChatGPT pode exigir até meio litro de água. E o problema se agrava quando esses centros estão localizados em regiões onde a energia é barata, mas poluente. Na Virgínia, por exemplo, cerca de 60% da eletricidade vem do gás natural.

Transparência opaca

Apesar da relevância do tema, as grandes empresas de tecnologia evitam divulgar informações detalhadas sobre o consumo de energia de seus sistemas. Essa falta de transparência levanta suspeitas, já que o discurso oficial costuma estar pautado em inovação limpa e sustentável. Ao serem questionadas sobre os impactos, algumas companhias argumentam que a criação de vídeos por IA é mais ecológica do que produções audiovisuais tradicionais, que envolvem equipes, locações e equipamentos. Os pesquisadores, no entanto, veem essa comparação com cautela, já que faltam dados que sustentem a afirmação.

Especialistas que participaram do estudo criticam o que chamam de desperdício energético generalizado. Em busca de mais velocidade e sofisticação, muitas empresas negligenciam práticas mais eficientes. A sugestão dos pesquisadores é clara: é preciso priorizar o uso de fontes renováveis e investir em algoritmos que façam mais com menos.

Outro ponto importante é a conscientização do público. Se os usuários soubessem quanto custa — em termos ambientais — gerar um vídeo ou imagem por IA, talvez usassem essas ferramentas com mais parcimônia. O debate sobre o impacto climático da inteligência artificial está só começando, e a pressão por mudanças pode vir de quem está do outro lado da tela.

Por: Thiago Calil

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