quarta-feira, 28 outubro, 2026
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Como os trabalhos manuais aliviam a ansiedade e melhoram a saúde do cérebro

Estudos associam atividades como tricô, crochê, cerâmica e marcenaria a um menor risco de comprometimento cognitivo; segundo especialistas, os movimentos repetitivos dos trabalhos manuais são eficientes para aliviar o estresse e a ansiedade

Tricô, crochê, cerâmica e marcenaria podem trazer benefícios que vão além da satisfação de criar algo com as próprias mãos. Pesquisas associam a prática frequente de trabalhos manuais a um menor risco de comprometimento cognitivo, enquanto especialistas destacam benefícios sobre o humor, a ansiedade e a capacidade de concentração.

Kerstin Amezcua é um exemplo. Segundo o The Washington Post, ela começou a fazer crochê depois de voltar de uma missão militar no Kuwait, onde atuava como médica do Exército dos Estados Unidos. “Eu não estava bem quando voltei”, disse ela. “Todos os mecanismos que eu costumava usar para lidar com as dificuldades simplesmente pararam de funcionar.”

Seu psiquiatra sugeriu que ela encontrasse um hobby para ajudar a controlar a ansiedade. Uma amiga lhe ensinou a fazer crochê, atividade que, segundo ela, se tornou uma válvula de escape nos momentos em que sentia que estava perdendo o controle. “Tenho quase certeza de que isso salvou minha vida”, afirmou.

O artesanato, que inclui diversas atividades como tricô, cerâmica, entalhe em madeira e confecção de joias, por exemplo, atrai algumas pessoas pelos benefícios à saúde mental proporcionados por movimentos repetitivos e relaxantes. Uma ampla pesquisa com pessoas que praticam tricô, publicada em 2013 no British Journal of Occupational Therapy, identificou uma forte associação entre a prática frequente e a sensação de estar “calmo e feliz”.

Yonas Geda, neurologista do Barrow Neurological Institute, centro de pesquisa e cirurgia no Arizona, afirmou ao WP que atividades artesanais funcionam como um “exercício de ancoragem”, ou seja, algo capaz de estabilizar uma pessoa que esteja sentindo angústia ou ansiedade. “Você não pode impedir a tempestade”, disse Geda, que não participou do estudo de 2013. “Mas pode lançar sua âncora e, então, acompanhar o movimento da tempestade e sobreviver.”

Artesanato e cognição

Embora algumas pessoas recorram ao artesanato para melhorar o humor, Geda afirmou que a prática também está associada a benefícios para a memória de curto prazo. Em um estudo publicado em 2019 na revista Neurology, Geda e seus colegas acompanharam 2 mil pessoas com 70 anos ou mais durante cinco anos. Os pesquisadores perguntaram sobre os hábitos dos participantes e aplicaram testes cognitivos.

Considerando fatores como idade, gênero e escolaridade, as pessoas que realizavam atividades artesanais na terceira idade apresentaram um risco 42% menor de desenvolver comprometimento cognitivo leve em comparação com aquelas que não praticavam essas atividades, segundo Geda.

A socialização, a prática de exercícios físicos e a resolução de passatempos, como palavras cruzadas, também foram associadas à redução do risco. No entanto, a quantidade e a qualidade das atividades fizeram diferença. Pessoas que praticavam artesanato cinco ou seis vezes por semana tiveram mais benefícios do que aquelas que se dedicavam à atividade uma ou duas vezes por semana.

Geda ressaltou que os dados mostram uma associação, não uma relação de causa e efeito. É possível, por exemplo, que pessoas mais saudáveis tenham maior probabilidade de começar a fazer artesanato.

Para Kristine Kelly, professora aposentada de psicologia da Western Illinois University, o artesanato envolve diferentes regiões do cérebro, o que pode favorecer a cognição. O tricô, por exemplo, exige planejamento, memória de curto prazo, processamento visual e destreza dos dedos.

“Ao usar o cérebro inteiro, você constrói uma rede neural muito densa”, disse Kelly. Ela explicou que essa reserva cognitiva ajuda a proteger a saúde cerebral ao longo da vida, especialmente com o envelhecimento.

Terapia e fuga do celular

Danielle Romanetti aprendeu a fazer tricô com a avó ainda na infância e retomou a atividade quando era jovem adulta, como uma forma de aliviar o estresse, depois de começar a ter ataques de pânico.

“O movimento repetitivo definitivamente ajuda a acalmar ou tranquilizar o cérebro”, disse Romanetti, proprietária de uma loja de fios para tricô e crochê na Virgínia. O estabelecimento promove semanalmente um encontro à noite que reúne pessoas interessadas em trabalhos com fios. Algumas dizem sentir benefícios para a saúde mental ao participar dos encontros.

“Sou uma pessoa muito ansiosa”, disse Katie Thomas, de 30 anos, uma participante desses encontros ao The Washington Post. “É bom ter algo para fazer com as mãos quando estou em uma situação na qual não me sinto particularmente confortável. É muito meditativo.”

Algumas das pessoas mais jovens que participam do encontro contaram que começaram a carregar uma “analogue bag” — uma bolsa com livros e projetos de artesanato — para evitar ficar no celular. “Literalmente, não uso mais o celular à noite. Fico só tricotando”, disse Jordan Rizzo, de 23 anos. “Precisei fazer uma pausa nas redes sociais por um tempo porque tudo estava muito pesado.”

Para Kelly, uma das razões pelas quais o artesanato pode ajudar pessoas com dificuldades de saúde mental é o fato de mantê-las longe das telas. “Ficar rolando a tela é como comer besteira para o cérebro”, disse Kelly. “O artesanato rejeita essa gratificação instantânea.”

Ela acrescentou que movimentos como os realizados no patchwork — técnica que reúne pedaços de tecido — ou na marcenaria podem ser profundamente relaxantes. Segundo ela, esses movimentos também acalmam a resposta de “luta ou fuga” do organismo e reduzem o nível de cortisol, o hormônio do estresse.

Outro aspecto da criatividade manual é a satisfação de trabalhar para alcançar um objetivo. Não se trata apenas de repetir movimentos por si só: há um projeto em andamento e, espera-se, um resultado final. “Uma vez, passei um ano inteiro trabalhando em um projeto de crochê”, contou Harvey. Quando terminou a peça durante um encontro de artesanato, as pessoas presentes aplaudiram.

Como começar

Os trabalhos manuais podem abranger uma grande variedade de atividades, incluindo cozinhar com mais atenção ou realizar projetos em casa. A ideia é encontrar algo que seja estimulante e envolvente, exigindo o uso das mãos e do cérebro.

Desafiar a si mesmo é importante, mas, se a tarefa for muito difícil, você pode desistir antes de perceber os benefícios. O objetivo é alcançar um estado de fluxo, em que a pessoa fica tão concentrada em uma atividade que outras preocupações parecem desaparecer.

Parte dos benefícios do artesanato vem também da convivência com outras pessoas, especialmente para quem enfrenta ansiedade social. Ter algo para fazer com as mãos pode tornar um evento social, como uma noite de trabalhos manuais, mais confortável e acessível.

É importante lembrar também que tudo bem falhar. No artesanato, os erros não são catástrofes: são apenas problemas a resolver. Kelly Lambert, neurocientista da Universidade de Richmond, afirmou que tentar fazer algo e fracassar pode ser especialmente benéfico para o cérebro.

“Se tudo sempre dá certo e você faz o mesmo pegador de panela de crochê todas as vezes, os benefícios não serão tão significativos”, disse.

Por: Thâmara Kaoru

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