terça-feira, 07 julho, 2026
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Cientistas propõem barreira para conter tempestades solares e evitar danos de US$ 2,4 trilhões

O objetivo seria mitigar os efeitos de uma supertempestade solar que poderia desencadear falhas massivas nas redes elétricas, interrupções globais do GPS, a destruição de milhares de satélites e apagões prolongados de internet e comunicações

Uma frota de satélites pode, um dia, ser usada para transformar a geoengenharia do espaço, fortalecendo o campo magnético da Terra e enfraquecendo deliberadamente supertempestades solares antes que atinjam o planeta, segundo um estudo publicado na revista Space Weather.

O objetivo seria mitigar os efeitos de uma supertempestade solar que poderia desencadear falhas massivas nas redes elétricas, interrupções globais do GPS, a destruição de milhares de satélites e apagões prolongados de internet e comunicações, de acordo com a The Planetary Society. No entanto, tal tecnologia também poderia, potencialmente, diminuir a beleza das auroras boreais.

O artigo sugere que as naves poderiam liberar nuvens de gás na magnetosfera da Terra para suavizar o impacto de nuvens de partículas carregadas provenientes do Sol. “À medida que os humanos se tornam mais dependentes do ambiente espacial da Terra, o potencial de danos significativos causados ​​por condições climáticas espaciais severas continua a crescer”, afirma o artigo, cujos autores chamam o conceito de StormWall (“muro da tempestade”).

A barreira utilizaria satélites para liberar material formador de plasma na magnetosfera da Terra a fim de reduzir a intensidade das tempestades geomagnéticas; contudo, o mesmo sistema projetado para proteger satélites, redes elétricas e comunicações também poderia atenuar as exibições de auroras.

O StormWall propõe a liberação de nuvens de gás na trajetória de uma ejeção de massa coronal — uma nuvem de partículas carregadas provenientes do Sol. Uma vez ionizado pela luz solar, o gás se transformaria em plasma.

O plasma é o quarto estado da matéria, altamente energético, que sucede o sólido, o líquido e o gasoso. Ele conduz eletricidade e reage fortemente a campos magnéticos e eletromagnéticos — como os encontrados no vento solar.

Ao aumentar a densidade de plasma na magnetosfera da Terra — o gigantesco escudo magnético do planeta —, o StormWall poderia tornar o escudo magnético terrestre mais resistente a perturbações, argumentam os pesquisadores.

O StormWall inspira-se em um processo natural que já ocorre durante grandes tempestades geomagnéticas. A atmosfera superior da Terra libera íons de oxigênio no espaço, adicionando massa ao campo magnético.

Como o StormWall funcionaria

Em simulações da poderosa tempestade geomagnética de maio de 2024, seis espaçonaves liberaram um gás semelhante ao bário durante 14 horas. O modelo mostrou reduções significativas na intensidade da tempestade.

A intensidade de uma grande tempestade geomagnética poderia ser reduzida em 50% ou mais, segundo a pesquisa. “Desde que os humanos estão no espaço, tentamos prever o que acontecerá no ambiente espacial”, disse o líder da pesquisa, Brian Walsh, professor associado de engenharia mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade de Boston.

“Mas desenvolvemos um modelo que pode mudar o paradigma. É como os habitantes de um vilarejo que veem um rio transbordar: talvez consigam prever quando isso acontecerá, mas provavelmente seria ainda melhor se pudessem construir uma barreira de proteção. É isso que estamos propondo aqui.”

Walsh e seus colegas afirmam que uma tempestade geomagnética massiva — do tipo que ocorre uma vez por século — causaria danos devastadores no espaço e na Terra, com custos apenas para a rede elétrica ultrapassando US$ 2,4 trilhões.

Um ótimo exemplo do tipo de evento solar que o StormWall foi projetado para mitigar é o chamado Evento Carrington, ocorrido em 1º e 2 de setembro de 1859. Tratou-se de uma supertempestade solar e da tempestade geomagnética mais intensa já registrada na história. “Houve relatos de auroras no Panamá, na Colômbia, no Havaí e no Caribe”, disse em entrevista Tom Kerss, astrônomo, astrofotógrafo e autor do livro Northern Lights: The Definitive Guide to Auroras (Luzes do Norte: O Guia Definitivo para Auroras).

“Foi uma oportunidade extraordinária de testemunhar algo exótico, mas não foi totalmente inofensivo: operadores de telégrafo sofreram choques elétricos e ocorreram alguns incêndios de curta duração.” Um ponto crucial é que o Evento Carrington de 1859 ocorreu pouco antes da existência da infraestrutura elétrica moderna. Um evento dessa magnitude hoje poderia ser “significativamente mais prejudicial, devido aos efeitos em cascata decorrentes de uma interrupção generalizada no fornecimento de energia”, segundo Kerss.

A barreira reduziria a aurora boreal?

Como as auroras são alimentadas por partículas carregadas e correntes elétricas na alta atmosfera da Terra, enfraquecer uma tempestade geomagnética poderia também reduzir o brilho e a extensão da aurora boreal.

“É uma ideia extraordinária pensar que, um dia, um evento capaz de gerar avistamentos globais de auroras poderia ser mitigado por mãos humanas; no entanto, há argumentos válidos para investigar a viabilidade de tal intervenção”, disse Kerss. “Vale lembrar que é possível vivenciar auroras magníficas mesmo sem tempestades geomagnéticas tão severas”, acrescentou.

Questões práticas

O sistema proposto exigiria uma quantidade enorme, porém não impossível, de material. Na simulação de maio de 2024, a espaçonave liberou cerca de 384 toneladas de gás. Considerando os tanques e as estruturas das espaçonaves, a carga útil total somaria mais de 436 toneladas em órbita geoestacionária. Os pesquisadores sugerem que isso estaria ao alcance dos sistemas de lançamento de carga pesada atuais ou de um futuro próximo.

Contudo, o conceito enfrenta questões práticas e ambientais significativas. Lançar tamanha quantidade de material em órbita seria dispendioso. Mais importante ainda: os cientistas ainda não conhecem todas as consequências de injetar centenas de toneladas de gás ionizado na magnetosfera terrestre. “Proteger satélites por outros meios é, provavelmente, mais barato e mais simples do ponto de vista da engenharia”, afirmou Kerss.

Foto: NASA

Por: Marisa Adán Gil

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