Droga testada em camundongos bloqueou a produção de espermatozoides e permitiu recuperação total da fertilidade em seis semanas
Pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, desenvolveram um anticoncepcional masculino não hormonal que bloqueia a produção de espermatozoides de forma reversível. Testada em camundongos, a droga mostrou eficácia sem comprometer a fertilidade a longo prazo. Seis semanas após o fim das injeções, a produção espermática voltou ao normal e duas gerações de filhotes nasceram sem anomalias. O estudo foi publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences.
O avanço é relevante porque o último anticoncepcional masculino aprovado nos Estados Unidos data dos anos 1980. Desde então, homens contam basicamente com camisinhas e vasectomias. A pesquisa foi divulgada pelo ScienceAlert.
O mecanismo: interrompendo a meiose
O alvo da equipe é um processo chamado meiose, que ocorre nos testículos. Após a mitose, etapa em que células-tronco se tornam precursores de espermatozoides, a meiose divide uma célula com dois conjuntos completos de cromossomos em quatro células com metade dos cromossomos necessários à reprodução. Cada uma dessas células matura e se torna um espermatozoide.
A ideia dos pesquisadores foi intervir exatamente nesse ponto. Agir antes da mitose poderia eliminar as células-tronco de forma permanente, causando infertilidade irreversível. Agir depois da meiose seria tarde demais, já que os espermatozoides já estariam formados. O intervalo entre os dois processos é, portanto, a janela ideal para um contraceptivo de ação reversível.
“A meiose representa um ponto de controle natural na produção de espermatozoides, onde uma inibição temporária pode alcançar um controle reprodutivo preciso e reversível”, argumentam a geneticista Paula Cohen e seus colegas do Cornell Reproductive Sciences Center.
O papel da droga JQ1
A substância utilizada na pesquisa é o JQ1, originalmente desenvolvido para inibir a proliferação de tumores cancerígenos. Nos testes, ela se mostrou eficaz também para impedir que as células-tronco espermáticas completem a meiose.
A equipe destaca que o objetivo era encontrar alvos contraceptivos nos testículos que interrompessem a produção de espermatozoides sem afetar a libido ou as características sexuais secundárias masculinas, como pelos faciais e voz mais grave, traços associados à ação hormonal.
“Nosso estudo mostra que, em sua maior parte, recuperamos a meiose normal e a função espermática completa e, mais importante, que os filhotes são completamente normais”, afirma Cohen.
Ainda há etapas antes de qualquer teste em humanos. Avaliações de segurança adicionais são necessárias, e os próprios autores reconhecem que o JQ1 funciona como um “modelo” para o desenvolvimento de novas abordagens contraceptivas, não necessariamente como o produto final.
Outro candidato, chamado YCT529, está mais avançado: entrou em fase 2 de testes clínicos no ano passado. Ele atua antes da meiose, impedindo os precursores dos espermatozoides, e deve chegar ao mercado mais cedo. “O desenvolvimento de contraceptivos masculinos reversíveis e não hormonais continua sendo uma necessidade crítica não atendida para alcançar a equidade reprodutiva”, escrevem os autores.
Por: Diogo Rodriguez


