Plataformas pagam até US$ 700 para licenciar imagens para microdramas e anúncios, impulsionando demanda em setor onde 95% das produções usam inteligência artificial, mas riscos de uso indevido preocupam especialistas.
Na China, pessoas estão alugando o próprio rosto para produções de inteligência artificial. Plataformas digitais pagam de US$ 15 a US$ 700 pelo licenciamento da imagem para dramas e anúncios gerados por IA, criando um mercado inédito de identidade biométrica. O fenômeno surge num país onde mais de 95% dos microdramas lançados no primeiro trimestre de 2026 usaram IA na produção.
O que são essas plataformas de licenciamento de rosto?
São serviços online que conectam pessoas dispostas a ceder a imagem do próprio rosto a produtoras de conteúdo gerado por inteligência artificial. As plataformas criam catálogos com fotos enviadas pelos usuários ou tiradas em estúdios próprios. As imagens podem ser filtradas por gênero, faixa etária ou perfil, como “vizinha simpática”, “rústico” ou “supermodelo”. Os produtores também escolhem por gênero da obra, seja suspense, comédia ou romance.
Cada pessoa define quais produtos e contextos autoriza para sua imagem, em que tipos de produção ela pode aparecer e qual o preço cobrado. As opções vão de comerciais de televisão e jogos de vídeo a séries de curta duração para celular.
Por que o mercado de IA criou essa demanda?
Os microdramas, séries ultrarrápidas em formato vertical feitas para celulares, movimentam bilhões de dólares na China. No primeiro trimestre de 2026, mais de 128 mil títulos foram lançados, e mais de 95% usaram IA na produção. Com tanta demanda por rostos, as produtoras passaram a buscar imagens diversificadas para fugir da uniformidade visual.
Nas redes sociais, espectadores reclamam que os personagens gerados por IA se parecem demais. Em julho, a plataforma Hongguo, da ByteDance, anunciou que passaria a combater dramas com rostos homogêneos. Usar rostos reais é também uma estratégia para que os personagens não pareçam “artificiais demais”, segundo produtores consultados pela revista Rest of World.
Quem são as empresas que operam nesse mercado?
Duas plataformas se destacam no setor. A ActID, sediada em Shenzhen, ajuda usuários a gerenciar contratos de licenciamento, monitora o uso não autorizado de rostos na internet e conecta clientes a advogados quando necessário. Desde o lançamento, em março, a empresa registrou cerca de 800 usuários, dos quais aproximadamente 300 aceitaram licenciar a imagem para produções de IA. Até agora, dois dramas compraram cerca de dez rostos pela plataforma. Os preços ficam entre 99 e 500 yuans (R$ 15 a R$ 74) por episódio, com comissão de 10% para a ActID.
A New Claw, de Chengdu, migrou para o setor depois que seu negócio original como produtora foi afetado pela IA. A plataforma impôs um preço mínimo de 500 yuans (cerca de US$ 74) por imagem para evitar que os usuários se concorressem em preço e derrubassem a tabela.
Quem vende o próprio rosto e por quê?
Entre os cadastrados estão figurantes profissionais, influenciadores digitais e pessoas sem experiência em atuação. Para Long Lyu, responsável pelas operações da New Claw, o licenciamento é uma alternativa de renda para quem já atua na área. “Seja qual for a escolha de atores e modelos, a IA já transformou a indústria”, afirmou Lyu. “Vender os direitos das próprias fotos dá a eles uma forma de ganhar dinheiro enquanto continuam as carreiras de forma presencial.”
Camille Yan, diretora de marketing da ActID, destacou que as produções buscam tanto rostos atrativos para papéis principais quanto rostos distintos, como os de pessoas mais velhas. “Os dramas gerados por IA não exigem habilidade de atuação; os rostos funcionam como material de origem”, afirmou.
Quais são os riscos para quem licencia a imagem?
Especialistas alertam que as plataformas não eliminam os riscos de longo prazo. Yile Deng, advogada em Pequim especializada em direitos de imagem relacionados à IA, avalia que a criação de um modelo comercial para venda de dados faciais é um avanço, mas reconhece que o setor não consegue impedir trocas de rostos não autorizadas, coleta ilegal de dados nem o uso futuro das imagens para treinar outros sistemas de IA.
“O problema mais evidente continua sendo o escopo de autorização pouco claro”, afirmou Deng. “Muitas agências ainda pagam algumas dezenas de dólares para coletar dados faciais. Quando você examina os contratos de perto, os termos de licenciamento costumam ser tão vagos que é impossível saber quem vai usar a imagem e para qual finalidade.”
O modelo Shanghai Xu Fang, de 21 anos, que move ação judicial contra uma marca de moda por uso não autorizado de sua imagem, não se convenceu pelas garantias das plataformas. “Se eu licenciar meu rosto, não tenho ideia de como a IA pode acabar alterando-o ou se poderia me retratar de formas degradantes”, declarou Fang.
O que a lei diz sobre o uso de rostos por IA na China?
O tema já chegou aos tribunais. O Tribunal de Internet de Guangzhou, instância municipal especializada, registrou cerca de 700 casos de roubo de rosto relacionados à IA nos últimos três anos. Em março, o Tribunal de Internet de Pequim emitiu uma decisão considerada marco legal; o uso do rosto de uma pessoa em trocas de imagem geradas por IA sem autorização é ilegal, mesmo que a imagem tenha sido modificada. O julgamento foi amplamente citado pela imprensa estatal chinesa como precedente importante.
A ByteDance, dona da Douyin, versão chinesa do TikTok, removeu mais de 85 mil vídeos com reproduções não autorizadas de rostos e vozes desde o início de 2026. A plataforma Hongguo, também da empresa, foi acusada por dois influenciadores de roubar e alterar seus rostos com IA sem consentimento. O microdrama, que acumulou mais de 40 milhões de visualizações, foi retirado do ar.
O que ainda está indefinido?
O setor opera num ambiente jurídico e comercial ainda em formação. Wendi Ma, diretora de dramas de IA, afirmou que algumas produções chegaram a comprar rostos reais para que os personagens não parecessem artificiais demais, mas a maioria dos minidramas ainda usa personagens totalmente gerados por IA. “No fim das contas, o controle de custos é o que mais importa”, declarou Ma.
A estrutura legal para o uso comercial de biometria facial segue sendo construída na China, e o alcance real dos contratos de licenciamento ainda precisa ser testado na prática.
Por: Giz_br


