Fortaleza, em especial, tem se tornado um polo de inovação com diversas startups e incubadoras com projetos relevantes no Brasil e no mundo
O Nordeste vai muito além das praias. Além de ser líder em turismo, a região também se destaca em inovação, movimentando a economia do país. A pesquisa “O papel da Finep na retomada dos investimentos em pesquisa científica tecnológica no Brasil”, obtida com exclusividade pela Época NEGÓCIOS, aponta que a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) investiu R$ 743 milhões em pesquisa científica e tecnológica no Nordeste de 2023 a 2024. Desse montante, 20% foram destinados a projetos de Pernambuco, 19% da Paraíba, 16% da Bahia e 15% do Ceará.
Entre os projetos apoiados pela agência financiadora, está o radiotelescópio Bingo, desenvolvido em cooperação com a China para mapear a energia escura do universo por meio da emissão de hidrogênio neutro. O equipamento será instalado na Serra do Urubu, em Aguiar, na Paraíba, e contará com apoio de instituições de pesquisa locais, como a Universidade Federal de Campina Grande.
No Ceará, o avanço em inovação também é reflexo do bom desempenho das escolas públicas do estado. Segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2023, divulgado pelo Ministério da Educação, a rede estadual cearense tem 22 escolas de Ensino Médio entre as 100 melhores públicas do Brasil. A Escola Família Agrícola Padre Eliésio dos Santos, em Ipueiras, no Sertão dos Crateús, por exemplo, é considerada a melhor unidade estadual do país.
O Ceará é o 14º estado no ranking geral do Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento (IBID) 2024, do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), e o terceiro da região no Nordeste, atrás do Rio de Grande do Norte e de Pernambuco. Em uma década (2014 – 2024), o Ceará subiu uma posição no ranking geral.

“O Ceará ganhou posições em quesitos como inovação e conhecimentos relacionados à tecnologia. O estado ficou em 6º lugar em sustentabilidade, 7º em difusão tecnológica e 10º em patentes verdes. No entanto, o estado perdeu em ambiente institucional e regulatório, tecnologias da informação e comunicação, infraestrutura geral e oferta de força de trabalho qualificada”, explica Rodrigo Ventura, economista-chefe do instituto.
Na avaliação do especialista, Fortaleza, em especial, tem se tornado um polo de inovação com diversas startups e incubadoras com projetos em destaque no Brasil e no mundo, principalmente na área de energia solar e eólica. O principal estímulo vem da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Segundo a Associação Brasileira de Startups (Abstartups), o Ceará concentra 2,4% das startups do país, com foco nas áreas de software, e-commerce, comunicação, finanças e meio ambiente/projetos sociais. “Iniciativas locais de apoio e o crescimento de hubs de inovação têm sido fundamentais para fomentar o empreendedorismo e atrair investidores”, diz Mariane Takahashi, CEO da Abstartups.
Outro destaque da região é o Porto de Pecém, considerado um dos mais modernos do mundo. “Isso representa uma oportunidade de investimento em infraestrutura logística na região”, afirma Ventura, do Inpi.
Festival de cultura pop
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Para atender um público com sede de conhecimento, inovação e cultura, a capital cearense sedia o maior festival geek e pop do Norte e Nordeste do Brasil: o Sana. Em 2025, o evento ocorreu entre os dias 24 e 26 de janeiro.
A conferência, organizada duas vezes por ano pela Fundação Cultural Nipônica Brasileira (FCNB) recebe cerca de 150 mil visitantes anualmente – a maioria deles jovens de escolas públicas da região que recebem o ingresso gratuitamente por meio de um projeto com a Prefeitura de Fortaleza. Na primeira edição deste ano, a estimativa é de que 80 mil pessoas passaram pelo evento.
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O professor universitário André Cardoso Albuquerque é um dos expositores da feira. Presidente do Instituto Robótica Sustentável, ONG com sede em Fortaleza, o biólogo produz robôs a partir de eletrônicos recicláveis, para mostrar aos jovens a importância do destino correto desses resíduos.
“A gente coleta resíduo eletroeletrônico das pessoas e de empresas, leva para os nossos galpões e depois para as escolas. O que não usamos em laboratório, destinamos à reciclagem. Quando a pessoa doa para a gente, é certeza que vai impactar a sociedade”, diz Albuquerque.
Em 2023, o instituto calcula ter reciclado 12 toneladas de resíduos eletrônicos e beneficiado 2 mil crianças. No ano passado, a estimativa é que os resíduos tenham levado educação e tecnologia a três vezes mais estudantes de Fortaleza – cerca de 6 mil.
Para Daniel Braga, diretor do Sana, o Ceará enfrenta muitos desafios, como qualquer outro estado do país, mas tem um potencial muito grande em tecnologia e inovação e pode servir como benchmark, principalmente no setor de eventos. “O perfil dos participantes daqui é muito mais jovem do que o de São Paulo. Por isso, nosso público pode antecipar o que que vai acontecer nas feiras do Sudeste no futuro”, afirma.
Por Patrícia Basilio — Fortaleza, a jornalista viajou a convite do Sana 2025


