terça-feira, 27 outubro, 2026
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Sensor criado na UFRGS resistiu às enchentes do Rio Grande do Sul e virou negócio

Tecnologia da TideSat Global usa sinais de satélites GPS refletidos na água para medir o nível de rios e lagos em tempo real; startup surgiu de uma pesquisa acadêmica e opera mais de 30 sensores

Um sensor desenvolvido a partir de uma pesquisa universitária usa sinais de satélites GPS refletidos na superfície da água para monitorar o nível de rios e lagos em tempo real. A tecnologia foi criada por pesquisadores ligados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e deu origem à TideSat Global, startup que hoje tem mais de 30 equipamentos em operação.

Diferentemente de sensores que precisam ficar próximos à água ou submersos, o equipamento pode ser instalado a uma distância segura, em estruturas já existentes, como postes e edifícios. A proposta é reduzir os custos de instalação e manutenção e manter o monitoramento funcionando mesmo em situações em que a elevação do nível da água poderia comprometer outros equipamentos.

A tecnologia ganhou visibilidade durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Na época, a empresa tinha quatro protótipos em operação. Segundo Vitor Hugo de Almeida Junior, diretor de operações da TideSat Global, o sensor instalado em Porto Alegre foi o único a continuar funcionando durante o momento mais crítico da inundação na cidade, justamente por ser instalado em estruturas elevadas. Com a situação crítica, eles decidiram disponibilizar os dados publicamente, e os painéis de monitoramento tiveram mais de 270 mil acessos em um mês.

Sensor da TideSat permaneceu funcionando em meio à enchente de 2024 em Porto Alegre — Foto: Divulgação
Sensor da TideSat permaneceu funcionando em meio à enchente de 2024 em Porto Alegre — Foto: Divulgação

Da pesquisa universitária ao negócio

A ideia surgiu dentro de um laboratório da UFRGS. Em 2020, Almeida Junior e outros pesquisadores desenvolveram um protótipo do sensor como parte de um trabalho de mestrado.

A primeira aplicação considerada era, na verdade, o monitoramento do nível do mar, em um contexto de mudanças climáticas e elevação dos oceanos. Ao estudar as possibilidades comerciais da tecnologia, porém, eles não encontraram uma oportunidade de negócio clara nesse mercado. Foi então que passaram a olhar para rios e lagos, onde identificaram uma demanda relacionada ao monitoramento de enchentes.

“E foi justamente no monitoramento de rios e lagos que nós vimos uma grande oportunidade, principalmente com a questão da emergência climática, com aumento de enchentes e uma lacuna nas tecnologias que nós temos hoje”, diz o diretor.

Ainda em 2020, o projeto venceu uma categoria universitária da competição internacional Galileo Masters. O reconhecimento veio acompanhado de um incentivo financeiro para incubar e desenvolver a tecnologia. Depois, a equipe também buscou recursos por meio de editais e programas de apoio ao empreendedorismo.

Transformar uma pesquisa científica em um negócio exigiu aprender a identificar clientes, definir um modelo comercial e demonstrar que a tecnologia funcionava fora do laboratório. O setor público, incluindo prefeituras e autoridades portuárias, tornou-se um dos mercados que a empresa buscou atender. “A tecnologia, quando ela é muito nova, tem uma maior resistência, ainda mais no poder público”, diz Almeida Junior.

A experiência durante as enchentes de 2024 ajudou a demonstrar a utilidade do equipamento em uma situação real. Como os sensores resistiram à enchente e forneceram dados relevantes, a TideSat Global conseguiu fechar os primeiros contratos no fim daquele ano.

Como funciona o sensor

Segundo Almeida Junior, o equipamento utiliza sinais de satélites GPS, normalmente empregados para determinar a localização de pessoas e objetos. Em vez de usar esses sinais apenas para localização, a tecnologia aproveita as ondas refletidas pela superfície da água para calcular seu nível.

A medição é feita à distância, o que permite instalar o sensor em postes de iluminação e edifícios, por exemplo. Em enchentes, equipamentos instalados muito perto da água ou submersos podem ser danificados ou levados pela correnteza. A TideSat Global quis justamente contornar esse problema, além de possibilitar custos menores de instalação e operação.

O monitoramento é feito em tempo real, por meio de painéis digitais que permitem acompanhar a variação do nível da água. Para que os dados ajudem na tomada de decisões, a startup trabalha com os clientes para estabelecer referências locais, chamadas de cotas. Elas indicam, por exemplo, a altura em que a água merece atenção. Se o nível está subindo rapidamente e se aproximando de uma cota de inundação, a informação pode ajudar a orientar para tomar as providências necessárias.

O diretor vê no El Niño e nas emergências climáticas um cenário de maior incerteza, que reforça a importância do monitoramento dos níveis dos rios. “Eu vejo com uma importância muito grande, principalmente agora, com o El Niño, com as emergências climáticas, que a gente está tendo uma incerteza muito grande em termos do que a gente tinha anteriormente, que era uma estabilidade maior no clima”, afirma.

Próximos passos

Hoje, segundo Almeida Junior, a empresa tem mais de 30 sensores em operação no Rio Grande do Sul. Entre os clientes estão autoridades portuárias, prefeituras e universidades. A startup também começou a mirar outros estados, como Pernambuco.

A empresa pretende ampliar sua atuação para outros estados e até chegar a mercados internacionais. Também estuda como combinar os dados coletados pelos sensores com inteligência artificial para desenvolver modelos de previsão de enchentes.

Foto: Divulgação

Por: Thâmara Kaoru

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