terça-feira, 22 setembro, 2026
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Astrônomos detectam pela primeira vez sinal de rádio emitido por planeta fora do Sistema Solar

Rajadas atribuídas a auroras revelaram um campo magnético milhares de vezes mais forte que o da Terra; estudo ainda não passou por revisão de outros cientistas

Um grupo de astrônomos detectou, pela primeira vez, um sinal de rádio emitido diretamente por um planeta fora do Sistema Solar. A descoberta recai sobre Beta Pictoris b, um gigante gasoso a cerca de 63 anos-luz da Terra, e abre uma nova forma de medir o campo magnético de mundos distantes.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Center for Astrophysics | Harvard & Smithsonian e da Universidade do Oregon, nos Estados Unidos, com o radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul. Os dados foram coletados em quatro observações feitas entre 2025 e 2026 e estão descritos em artigo submetido à plataforma arXiv, ainda sem revisão por pares.

Sinais de rádio já haviam sido registrados antes em sistemas com planetas, mas nunca havia sido possível atribuí-los, com segurança, ao planeta em si e não à estrela ao redor da qual ele orbita. Para isolar a origem da emissão, a equipe usou núcleos brilhantes de galáxias distantes, os quasares, como pontos de referência no mapeamento do céu. Assim, foi possível confirmar que os pulsos de rádio partiam de Beta Pictoris b, e não da estrela Beta Pictoris, que é maior, mais quente e estruturalmente diferente do Sol.

“Podemos descartar a estrela, e podemos dizer que vem deste planeta específico”, afirma a astrônoma Yvette Cendes, da Universidade do Oregon, uma das autoras do estudo.

Auroras cósmicas e o campo magnético do planeta

O fenômeno por trás do sinal é conhecido como instabilidade maser do cíclotron de elétrons, o mesmo mecanismo que produz as auroras na Terra e em Júpiter. Partículas carregadas interagem com o campo magnético e a atmosfera do planeta e liberam energia em forma de ondas de rádio. Na Terra, esse processo aparece como as luzes do norte e do sul; em Beta Pictoris b, ele se manifestou em rajadas rápidas, recorrentes e fortemente polarizadas, captadas em frequências de 0,85 a 3,5 GHz.

A intensidade da radiação permitiu à equipe calcular, de forma direta, a força do campo magnético de um exoplaneta pela primeira vez. Segundo o artigo, o campo é de pelo menos 1.250 gauss, milhares de vezes mais forte que o da Terra, cujo campo magnético gira em torno de meio gauss. Esse índice se aproxima do que já havia sido observado em anãs marrons, corpos celestes maiores que planetas e menores que estrelas.

Segundo os pesquisadores, campos magnéticos planetários influenciam a perda de atmosfera para o espaço, medeiam a interação do planeta com o vento da própria estrela e guardam pistas sobre a estrutura interna do mundo observado. Até agora, esse tipo de medição só existia para os planetas do Sistema Solar. Por isso, cientistas que acompanham a área associam o avanço à busca por mundos potencialmente habitáveis fora do Sistema Solar, já que um campo magnético robusto é um dos fatores que ajudam a proteger a atmosfera de um planeta contra a radiação estelar.

Um planeta jovem e de rotação rápida

Beta Pictoris b foi descoberto em 2008 e tem massa equivalente a cerca de dez vezes a de Júpiter, o que o coloca perto do limite entre planetas gigantes e anãs marrons. Ele completa uma volta em torno do próprio eixo a cada oito horas, aproximadamente, rotação que pode estar entre os fatores que sustentam a intensidade do campo magnético registrado.

O estudo não passou por revisão por pares, etapa em que outros cientistas avaliam a metodologia e os resultados antes da publicação em periódico científico. Para o astrônomo Joe Callingham, da Universidade de Amsterdã, que não participou da pesquisa, o achado é promissor, mas ainda depende de uma confirmação adicional, a de que o sinal varie em sincronia com a rotação do planeta. “É provavelmente auroral”, resume Callingham.

A equipe já mira outros alvos. Segundo o artigo, sete exoplanetas gigantes conhecidos, distribuídos em cinco sistemas estelares próximos, podem se tornar candidatos à mesma técnica assim que a próxima geração de radiotelescópios entrar em operação, com sensibilidade de cinco a sete vezes maior que a atual.

Foto: NASA, ESA, CSA, STScI, Ralf Crawford (STScI)

Por: Diogo Rodriguez

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