Pesquisa está associado a até 96 mil novos casos de doenças cardiovasculares e 17,4 mil óbitos no Canadá. Autores defendem políticas públicas para reduzir ingestão.
Um novo estudo canadense estima que entre 23% e 38% de todas as mortes por doenças cardiovasculares estão associadas ao consumo de alimentos ultraprocessados (UPFs). A pesquisa também aponta que entre 23% e 37% dos casos de doenças cardiovasculares, incluindo cardiopatia coronariana e acidente vascular cerebral (AVC), são atribuíveis a esse padrão alimentar.
Os resultado foram publicados no periódico The American Journal of Preventive Medicine e apresentados no Congresso Internacional sobre Obesidade de 2026 (ICO 2026), realizado pela Federação Mundial de Obesidade (WOF) em Cidade do México. O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Dra. Virginie Hamel e Dr. Jean-Claude Moubarac, do Centro de Pesquisa em Saúde Pública da Universidade de Montreal, no Canadá.
A pesquisa utilizou um modelo de avaliação comparativa de risco para estimar o impacto das doenças cardiovasculares (DCV) em adultos canadenses com 20 anos ou mais. Os dados de base incluíram informações nacionais representativas sobre ingestão alimentar de 2015 e estatísticas de saúde referentes ao ano de 2019, extraídas do Estudo Global da Carga de Doenças.
Escala do impacto no Canadá
Em 2015, os ultraprocessados representavam 43% da ingestão calórica diária total entre adultos canadenses, segundo o estudo. Com base nesse cenário, os pesquisadores estimam que, em 2019, o consumo de UPFs foi responsável por 58.200 a 96.000 novos casos de DCV, entre 10.600 e 17.400 mortes relacionadas a doenças cardiovasculares, e de 235.800 a 388.700 anos de vida perdidos ou vividos com incapacidade (DALYs, na sigla em inglês).
As doenças cardiovasculares já figuram entre as principais causas de morte no Canadá, responsáveis por cerca de 25% dos óbitos registrados anualmente no país.
Os autores também modelaram cenários hipotéticos de redução do consumo. Os cálculos indicam que uma queda de 50% na ingestão de ultraprocessados poderia ter evitado entre 27.300 e 45.900 novos casos de DCV, entre 5.000 e 8.300 mortes e de 110.900 a 185.200 DALYs em 2019 na população canadense. Os pesquisadores afirmam que os resultados podem ser extrapolados para outros países de alta renda, embora estimativas exatas exijam estudos locais específicos.
Políticas públicas como solução estrutural
Os autores defendem que mudanças individuais de comportamento têm alcance limitado sem suporte regulatório mais amplo. “Embora a educação pública e o aconselhamento individual continuem sendo componentes importantes da promoção da saúde, seu impacto é limitado sem apoio ambiental e político mais amplo. Para promover mudanças significativas nos padrões alimentares, medidas estruturais abrangentes são essenciais. Estas incluem regulamentações sobre impostos alimentares, rotulagem frontal de embalagens, restrições à publicidade e metas de reformulação voltadas para a melhoria da qualidade dos alimentos”, declararam os pesquisadores ao MedicalXPress.
O estudo cita experiências internacionais como referência. No Chile, alertas nutricionais nas embalagens reduziram as compras de alimentos com alto teor calórico em cerca de um quarto. No México, um imposto de 10% sobre bebidas adoçadas gerou uma redução de 6,3% no consumo de ultraprocessados.
Os autores concluem que “o consumo de alimentos ultraprocessados pode representar um contribuinte substancial e potencialmente evitável para a carga de doenças cardiovasculares no Canadá” e reforçam a necessidade de intervenções clínicas e de saúde pública voltadas à redução dos UPFs como componente central da prevenção cardiovascular. A equipe também sugere que futuros estudos investiguem em que medida a redução do consumo de ultraprocessados pode reverter ou prevenir fatores de risco cardiovascular, como hipertensão, colesterol elevado, diabetes e obesidade.
Por: Giz_br


