terça-feira, 04 agosto, 2026
HomeTECNOLOGIAINTELIGÊNCIA ARTIFICIALEUA apertam o cerco à China e miram infraestrutura da inteligência artificial

EUA apertam o cerco à China e miram infraestrutura da inteligência artificial

Plano do governo americano tenta evitar que equipamentos considerados sensíveis se consolidem na infraestrutura que sustenta sistemas de IA

O governo do presidente Donald Trump elabora uma medida para impedir a entrada nos Estados Unidos de novos modelos de componentes chineses utilizados em data centers. A proposta, conduzida pela Comissão Federal de Comunicações (FCC), pretende reforçar a proteção da infraestrutura que sustenta o desenvolvimento e a operação de sistemas de inteligência artificial.

A iniciativa foi revelada exclusivamente pela Reuters nesta terça-feira (4) e, caso avance, poderá ser publicada ainda em 2026. O plano prevê restrições à importação de transceptores ópticos produzidos por empresas chinesas, dispositivos responsáveis pela transmissão de dados por cabos de fibra óptica em alta velocidade dentro dos centros de processamento.

Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a intenção é reduzir riscos relacionados à segurança nacional, evitando que equipamentos considerados sensíveis sejam incorporados à cadeia tecnológica dos Estados Unidos antes que se tornem parte essencial da infraestrutura do país.

Medida mira transceptores ópticos utilizados em centros de processamento

A proposta em análise pela FCC concentra-se nos transceptores ópticos, componentes responsáveis por transportar informações por meio de cabos de fibra óptica dentro dos data centers. Esses equipamentos desempenham papel essencial na comunicação entre servidores e na operação das estruturas utilizadas para treinar e executar modelos de inteligência artificial.

Conforme as fontes ouvidas pela Reuters, o governo avalia que esses dispositivos podem representar vulnerabilidades capazes de facilitar o roubo de dados, a instalação de programas maliciosos ou até interrupções em serviços considerados estratégicos.

A reportagem ressalta, contudo, que a restrição ainda não foi oficialmente aprovada. Pessoas próximas às discussões afirmaram que a proposta permanece em elaboração e poderá ser modificada ou até descartada antes de sua publicação.

Para Divyansh Kaushik, especialista em políticas de inteligência artificial da consultoria Beacon Global Strategies, a proteção da cadeia de suprimentos precisa acompanhar a expansão dos data centers. “Os transceptores definitivamente representam um risco. À medida que a expansão dos data centers ganha escala, é preciso garantir desde o início que a cadeia de suprimentos seja segura“, afirmou o especialista à Reuters.

Paralelo com o caso Huawei

A preocupação das autoridades americanas é evitar que se repita uma situação semelhante à enfrentada com equipamentos da Huawei. Integrantes do governo entendem que a presença ampla de produtos da empresa na infraestrutura de telecomunicações tornou o processo de substituição lento, caro e incompleto após a aplicação de sanções pelos Estados Unidos.

Embora a FCC tenha atuação historicamente independente, a Reuters lembra que uma decisão da Suprema Corte Americana, tomada em junho, fortaleceu os poderes do presidente Donald Trump sobre determinados órgãos reguladores ao validar a demissão de uma integrante democrata da Comissão Federal de Comércio.

Empresas podem sentir impactos

Caso a medida seja implementada, uma das companhias potencialmente mais afetadas será a chinesa Zhongji Innolight, apontada como uma das maiores fornecedoras mundiais de transceptores ópticos. A empresa foi incluída, em junho, na lista do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que reúne organizações acusadas de manter vínculos com o setor militar chinês.

Segundo dados citados pela Reuters, a Innolight detém cerca de 27% do mercado global desses equipamentos para data centers e obtém aproximadamente 90% de sua receita fora da China.

Por outro lado, fabricantes americanos como Coherent e Lumentum aparecem entre as empresas que poderiam ser beneficiadas pela mudança regulatória. Ainda assim, um relatório da Foundation for American Innovation indica que essas companhias ainda não possuem capacidade suficiente para substituir integralmente os fornecedores chineses.

A Reuters também destaca que empresas de computação em nuvem, como a Amazon Web Services (AWS), podem enfrentar aumento de custos caso precisem migrar para outros fabricantes.

Restrições seguem estratégia mais ampla

A possível proibição faz parte de uma série de ações adotadas recentemente pela FCC contra equipamentos chineses considerados sensíveis. A agência já anunciou restrições envolvendo drones, roteadores, robôs e inversores, utilizando a chamada “Covered List”, criada pelo Congresso americano para impedir a comercialização futura de produtos classificados como ameaça à segurança nacional.

A reportagem lembra ainda que o Departamento de Comércio chegou a interromper, após uma trégua comercial firmada no ano passado, um conjunto de medidas que também atingiria equipamentos chineses para data centers. Diante desse cenário, a FCC assumiu protagonismo na condução de novas restrições voltadas ao setor.

Em resposta, a Embaixada da China em Washington afirmou que os Estados Unidos deveriam considerar as manifestações da comunidade empresarial dos dois países e deixar de atacar empresas chinesas com acusações e sanções. A representação diplomática acrescentou que Pequim adotará as medidas que considerar necessárias caso seus interesses sofram prejuízos materiais.

Por: Wagner Edwards

RECOMENDADOS

MAIS POPULAR